A Dama das Camlias
Alexandre Dumas
( Filho )

A Dama das Camlias
Ttulo do original: La Dame aux Camlias
Traduo de o. L.
Reviso de Lus Campos

Crculo de Leitores. Lda.

Existia no ano da graa de 1845, nesses anos de abundncia e
de paz em que todos os dotes da inteligncia, do talento, da
beleza e da fortuna aureolavam a Frana, uma  ela e jovem
mulher dotada da mais encantadora figura, cuja simples
presena fazia despertar certa admirao, de mistura com uma
espcie de diferena, em todo aquele que, ao v-la pela vez
primeira, no lhe conhecia o nome nem a profisso. Nela se
conjugavam, e da forma mais natural, o olhar inocente, os
modos provocantes, o andar simultaneamente petulante e honesto
da mulher da mais alta sociedade. Tinha um ar grave, o seu
sorriso era senhoril, e s de v-la caminhar, poder-se-ia
dizer o que um dia disse Eneviou de uma dama da corte:
"Evidentemente, se no  duquesa,  uma mulher de vida fcil".
Ai! Esta no era duquesa. De humilde nascimento, e com os
dezoito anos que ento teria, precisava, na verdade, de ser 
ela e atraente para subir to alto e com tanta facilidade.
Recordo-me de a ter encontrado um dia, pela primeira vez, no
abominvel trio de um teatro de Boulevard, mal iluminado e
repleto dessa multido barulhenta que geralmente aprecia os
melodramas de sensao. Viam-se ali mais  lusas que casacas,
mais gorros do que chapus de plumas, e
mais casacos coados do que fatos novos. Ali falava-se de
tudo, de arte dramtica e de batatas fritas; das peas do
Ginsio e do po-de-l do Ginsio. Pois quando esta mulher
apareceu  entrada daquele lugar estranho, o! brilho dos seus
olhos como que impregnou de graa tanta coisa ridcula, apenas
com o poder do seu olhar. Pisava aquele soalho lamacento como
se, na verdade, atravessasse o Boulevard num dia chuvoso;
erguia a saia instintivamente, para no tocar naquela lama
seca, e sem pretender mostrar --para qu?--o seu p  em
calado, que rematava uma perna bem torneada coberta por meia
de seda de ponto aberto, miudinho. No conjunto, a sua toilette
coadunava-se l em com aquele talhe flexvel e jovem; o rosto,
dum belo oval, um pouco plido, justificava a graa que ela
derramava em redor como um suave perfume.
Entrou, pois, atravessou, de cabea erguida, por entre aquela
multido assombrada, e eu e Liszt ficmos muito surpreendidos
ao v-la sentar-se familiarmente no banco onde estvamos, pois
nunca nenhum de ns lhe tinha falado. Mulher espirituosa, de
gosto apurado e de bom senso, dirigiu-se logo ao grande
artista, dizendo-lhe que o ouvira havia pouco e que a sua
msica a deixara extasiada. Ele, entretanto, como esses
instrumentos sonoros sensveis ao primeiro sopro da brisa de
Maio, escutava, enlevado, aquela  ela linguagem cheia de
ideias, aquela !ngua sonora, eloquente e sonhadora ao mesmo
tempo. Com esse instinto maravilhoso de que  dotado, e essa
grande prtica das mais altas esferas sociais, e do escol

artstico, ele perguntava a si prprio quem seria aquela
mulher desconhecida, de modos to familiares e to nobres, que
se lhe dirigia assim inopinadamente e que, logo aps trocarem
as primeiras palavras, o tratava com certa altivez, como se
lhe tivesse sido apresentado em Londres, nas salas da rainha
ou da duquesa de Sutherland.
Entretanto, tinham ecoado na sala as trs pancadas solenes do
contra-regra, e o toyer esvaziara-se de toda aquela chusma de
espectadores e critiqueiros. A desconhecida ficara s connosco
e com a sua companheira. Aproximara-se mesmo do fogo e
estendera os ps tiritantes na direco das achas ardentes, de
forma que a podamos apreciar  nossa vontade, desde as pregas
bordadas da saia de baixo aos caracis do cal elo negro. A sua
mo enluvada mais parecia uma pintura; o seu leno era
maravilhosamente ornado de fina renda; nas orelhas ostentava
duas prolas do oriente capazes de causar inveja a uma rainha.
Trazia todos esses pequenos requintes de elegncia como se
tivesse nascido entre sedas e veludos, sob qualquer tecto
dourado dos bairros elegantes, com uma coroa sobre a ca ea e
um mundo de aduladores a seus ps. Assim, o seu porte
correspondia a linguagem, o seu pensamento ao sorriso, a sua
toilette  pessoa, e em vo se procuraria nas mais altas
camadas sociais uma criatura que estivesse em mais  ela e mais
completa harmonia com a sua personalidade, os seus hbitos e
as suas aliciantes conversas.
Entretanto Liszt, muito espantado por encontrar tal maravilha
em semelhante lugar e por aquele galante entreacto de to
terrvel melodrama, entregava-se inteiramente  sua fantasia.
Ele no  apenas um grande artista, mas tambm um homem
eloquente. Se ia falar s mulheres, passando como elas de uma
ideia  outra, e escolhendo as mais opostas. Adora o paradoxo,
conversa em tom srio, ou burlesco, e ser-me-ia impossvel
dizer com que arte, com que tacto, com que gosto infinito ele
percorreu, com essa mulher cujo nome no conhecia, todas as
gamas
vulgares e todos os floreios elegantes da conversao
quotidiana.
Levaram assim a conversar todo o terceiro acto do referido
melodrama, pois a mim dirigiram-se apenas uma ou duas vezes,
por cerimnia; mas como me encontrava precisamente num desses
momentos de mau humor em que toda a espcie de entusiasmo 
vedado  alma humana, aceitei como certo que aquela dama me
achava completamente inspido e absurdo, e tinha toda a razo.
Passou esse Inverno e depois o Vero, e no outono seguinte
outra vez, mas ento em todo o esplendor de um espectculo de
benefcio, em plena ( pera, vimos, de sbito, abrir-se, com
estrondo, um dos camarotes do proscnio, e aparecer na frente,
com um ramalhete na mo, essa mesma beleza que eu vira no Boulevard. Era ela! Mas, nessa noite, o seu vesturio
constitua o expoente mximo da moda feminina, e brilhavam
nela todos os esplendores da conquista. o seu penteado era
primoroso, e nos belos cabelos viam-se diamantes e flores
misturados com essa graa estudada que lhes dava o movimento e
a vida; no colo e braos nus ostentava colares, pulseiras e
esmeraldas. Na mo segurava um ramalhete: de que cor? No me
seria possvel diz-lo;  necessrio possuir olhos de mancebo
e imaginao de criana para distinguir a cor verdadeira de
uma flor sobre a qual se debrua um rosto formoso. Na nossa

idade, apenas atentamos na beleza da face e no brilho do
olhar, pondo-se de parte os acessrios; e se, por acaso, nos
entretemos a tirar consequncias, tiramo-las da prpria
pessoa, o que, na verdade, j nos d bastante que fazer.
Nessa noite acabava Duprez de lutar com essa voz rebelde, cuja
insurreio definitiva j pressentia; mas s ele tinha esse
pressentimento, o pblico ainda nem sequer o suspeitava.
Apenas, na parte mais atenta do auditrio, alguns conhecedores
adivinhavam a fadiga que a habilidade ocultava e compreendiam
os esforos que o artista fazia para se enganar a si prprio.
A formosa rapariga de que falo era decerto um hbil juiz,
pois, passados os primeiros minutos de ateno, viu-se que no
cedia  fascinao habitual; desviou-se de sbito para o fundo
do camarote e, de binculo na mo, ps-se a examinar a
fisionomia da sala.
Conhecia certamente muitos dos espectadores mais distintos.
Bastava atentar no movimento do seu binculo para se perceber
que aquela formosa espectadora poderia contar vrias histrias
acerca de rapazes da melhor aristocracia; olhava ora para um,
ora para outro, igualmente, no prestando a este mais ateno
do que quele, indiferente a todos, sendo, contudo,
correspondida, com um sorriso, com um gesto imperceptvel ou
com um olhar vivo e rpido, a ateno que se dignava
conceder-lhes. Do fundo dos camarotes escuros e do meio das
cadeiras de orquestra, outros olhares, ardentes como vulces,
eram vibrados  linda rapariga, mas esses passavam-lhe
despercebidos. Se, finalmente, por acaso o seu binculo se
dirigia para as senhoras da verdadeira sociedade parisiense,
notava-se, de sbito, na sua atitude uma espcie de ar
resignado e humilde que fazia pena. Pelo contrrio, se por
infelicidade o seu olhar incidia sobre alguma dessas raparigas
de rosto encantador e de reputao duvidosa, que nos dias
solenes usurpam os melhores lugares do teatro, voltava a cal
ea com amargura.
o seu companheiro--pois dessa vez estava com um homem--era um
guapo mancebo meio parisiense, que conservava ainda algumas
opulentas relquias da casa paterna que viera devorar, jeira a
jeira, nesta
cidade de perdio. Ainda na aurora da vida, o jovem
orgulhava-se de possuir aquela beldade no seu apogeu, e
sentia-se honrado por mostrar que ela era muito sua e
importun-la com todas essas pequenas coisas to gratas a uma
rapariga quando vm do objecto amado, e to desagradveis
quando dirigidas a uma alma distrada... Escutavam-no sem o
ouvir, olhavam-no sem o ver... Que teria ele dito? A jovem no
o sabia, mas tentava responder; e as poucas palavras que
proferia, vazias de sentido, constituram para ela verdadeira
fadiga.
Deste modo, sem darem por isso, no se encontravam sozinhos
naquele camarote cujo preo representava o po de uma famlia
para seis meses. Entre eles colocara-se o companheiro
inseparvel das almas doentes, dos coraes feridos, dos
espritos fatigados: o tdio, esse imenso Mefistfeles das
Margaridas errantes, das Clarisses perdidas, de todas essas
divas, filhas do acaso, que caminham na vida, ao abandono.
Aquela pecadora, rodeada das adoraes e homenagens da
juventude, sentia-se, pois, enfadada, mas esse mesmo enfado
deve servir-lhe de perdo e desculpa, porque foi o castigo das

suas breves prosperidades. o tdio constituiu o grande mal da
sua vida. Infeliz! A fora de ver despedaadas as suas
afeies, de obedecer  necessidade de ligaes efmeras e de
passar de um amor a outro, sem saber porque abafava to
depressa essa inclinao nascente e essas ternuras ao
despontarem, tornara-se indiferente a tudo, esquecendo o amor
de ontem e no pensando mais no de hoje do que na paixo de
amanha.
Desgraada ! Precisava de solido . . . e via-se importunada.
Precisava de silncio... e os seus ouvidos fatigados escutavam
incessantemente as mesmas palavras! Queria sossego... e
arrastavam-na a festas e a tumultos. Desejaria ser amada... e
diziam-lhe que era bela! Abandonava-se assim, sem resistncia,
quele turbilho que a devorava! Que mocidade!... E como 
compreensvel aquele dito de M  e de Lenclos, quando, no auge
da prosperidade, semelhante  das fbulas, amiga do prncipe
de Cond e de Madame de Maintenon, exclamava com um profundo
suspiro de pesar: "Se me tivessem proposto tal vida, teria
morrido de dor e de susto ! "
Acabada a pera, a formosa mulher saiu; o espectculo estava
ainda em meio. Iam actuar em seguida Bouff, M.lle Djazet e
os cmicos do Palais-Royal, sem falar no baile em que devia
danar Carlota, leve e encantadora, ento nos seus primeiros
tempos de celebridade e poesia... Ela no quis esperar pelo
vaudeville; preferiu sair e dirigir-se para casa, quando
tantas pessoas dispunham ainda de trs horas de divertimento,
ao som daquela msica e alumiadas por aqueles lustres acesos!
Vi-a sair do camarote e embrulhar-se ela prpria na capa
forrada de pele de arminho. o rapaz que a acompanhava parecia
contrariado, e como j no se podia exibir com aquela mulher,
pouco lhe importava que ela sentisse frio. Lembro-me at de a
ter ajudado a puxar a capa para cima dos alvssimos ombros, e
ela olhou-me, sem me reconhecer, com um ligeiro sorriso
doloroso, dirigido ao jovem aristocrata que naquele instante
se entretinha a pagar  mulher que a ria os camarotes e a
mandar-lhe trocar uma moeda de cinco francos.
--Pode guardar tudo--disse ele  mulher, saudando-a com bom
modo.
Vi-a depois descer a grande escada da direita, com o vestido branco que fazia sobressair a sua capa vermelha, e o leno
amarrado acima da testa, que lhe passava por baixo do queixo;
a renda, ciosa, caa-lhe um pouco sobre os olhos; mas que
importava isso?
A jovem representara o seu papel, o seu dia acabara, e j no
pensava na sua beleza... Provavelmente, o rapaz naquela noite
no passou da porta.
Uma coisa digna de reparo e que depe a seu favor,  que essa
mulher, que na juventude gastou ouro e prata s
mos-cheias--pois aliava o capricho  beneficncia e tinha em
pouca conta esse vil metal que lhe custava to caro--no foi
herona de nenhuma dessas histrias de runa e de escndalo,
de jogo, de dvidas ou de duelos, como tantas outras mulheres,
em iguais circunstncias, teriam provocado  sua passagem.
Pelo contrrio, em torno dela s se falava da sua beleza, dos
seus triunfos, do seu vesturio, das modas que sabia inventar
e das que impunha. Nunca se contaram casos de fortunas
desaparecidas, de prises por dvidas e de
traies--complementos ordinrios desses tenebrosos amores--em

que o seu nome estivesse envolvido. A volta daquela rapariga,
que a morte to cedo arrebatou, havia uma certa ordem, uma
espcie de decncia irresistvel. Levou vida  parte, mesmo
nesse mundo que habitava, e numa regio mais calma e serena,
embora, infeliz dela, vivesse onde tudo se perde.
Vi-a pela terceira vez na inaugurao do Caminho de Ferro do
Norte, nessas festas que Bruxelas ofereceu  Frana, desde
ento tornada sua vizinha e comensal. Nesse cais, imenso
entroncamento dos caminhos de ferro de todo o Norte, a Blgica
reunira todos os seus esplendores: os arbustos das suas
serras, as flores dos seus jardins, os diamantes das suas
coroas. Uma multido incrvel de uniformes, condecoraes,
diamantes e ricos vestidos enchiam o recinto numa festa como
jamais se tornar a ver. Aquela festa da indstria e da
viagem, do ferro domado e da chama obediente tinham acorrido a
nobreza francesa e a alem, a da Blgica espanhola, a da
Flandres e a da Holanda, ostentando as suas antigas jias,
contemporneas de Lus XIV e da sua corte, todas as colossais
e macias fortunas da indstria, e algumas parisienses
elegantes que lembravam borboletas numa colmeia de abelhas.
Naquela estranha confuso, encontravam-se representadas todas
as foras e todas as graas da criao, desde o carvalho 
flor, desde o carvo de pedra  ametista. No meio desse
movimento dos povos, dos reis, dos prncipes, dos artistas,
dos ferreiros e das grandes notabilidades femininas da Europa,
viu-se aparecer, ou melhor dizendo, vi aparecer, mais plida
ainda e mais branca do que habitualmente, aquela mulher
encantadora, j ferida pela doena invisvel que a devia levar
 sepultura.
Entrara nesse baile, apesar do seu nome, e graas  sua
deslumbrante formosura! A verdade  que atraa todos os
olhares, era alvo de todas as homenagens. Um murmrio de
lisonja saudava-a onde quer que aparecia, e mesmo os que a
conheciam inclinavam-se  sua passagem; ela, entretanto,
sempre to calma e alheada no seu desdm habitual, aceitava
essas homenagens, como se elas Lhe fossem devidas. No se
admirava, antes pelo contrrio, de pisar os mesmos tapetes que
a rainha pisara! Mais que um prncipe parou para a contemplar,
e os seus olhares disseram-lhe o que as mulheres to bem
compreendem: "Acho-te bela e  com pena que te deixo! "
Nessa noite dava o brao a um estrangeiro, um recm-chegado
louro como um alemo, impassvel como um ingls, bem vestido,
muito apertado na sua casaca, muito empertigado, que julgava
praticar, naquele momento -- adivinhava-se-lhe pelo andar--,
um desses actos audaciosos que os homens se lanam em rosto
at ao fim da vida.
A atitude daquele homem para com a sensitiva
que lhe dava o brao era, na verdade, displicente. Ela
apercebia-se do facto, com esse sexto sentido que possua, e
redobrava de altivez, porque o s u maravilhoso instinto
dizia-lhe que quanto mais aquele homem se admirasse da sua
prpria aco, mais insolente se devia ela mostrar, e com mais
desprezo espezinhar os remorsos desse jovem exasperado.
Poucas pessoas decerto compreenderam quanto deve ter sofrido
ento aquela mulher sem nome pelo brao de um homem sem
nome--de um homem que parecia dar mostras de desaprovao e
cuja atitude ameaadora denotava claramente uma alma inquieta,
um corao indeciso, um esprito pouco sossegado. Mas esse

anglo-alemo viu-se cruelmente castigado dos seus desgostos
ntimos, quando a nossa parisiense se encontrou, na
sinuosidade de um grande caminho de luz e de verdura, com um
seu amigo-um amigo despretensioso que apenas Lhe pedia, de
tempos a tempos, um dedo da sua mo e um sorriso dos seus
lbios; um artista da nossa sociedade, um pintor que sabia
melhor do que ningum, apesar do pouco contacto que mantinha
com ela, quanto era digna de ser tomada como perfeito modelo
de todas as elegncias e de todas as sedues da mocidade.
--oh! J que est aqui, d-me o seu brao e dancemos !
E, largando o brao do cavalheiro que a acompanhava, comeou a
danar uma valsa a dois tempos, que  a prpria seduo quando
pertence a Strauss e chega at ns toda enamorada das margens
do Reno alemo, sua verdadeira ptria! Ela danava
maravilhosamente, em andamento nem demasiado vivo, nem
demasiado lnguido, obedecendo tanto  cadncia interior como
ao compasso; mal tocava com o seu leve p naquele solo
elstico, ora arrebatada, ora serena, e com os olhos fitos nos
do seu par.

Fez-se roda em torno do gracioso par, e todos queriam ser
tocados por aqueles belos cabelos que acompanhavam o movimento
rpido da valsa, e sentir o roar daquele difano vestido
impregnado de tnues perfumes; e, pouco a pouco, o crculo
foi-se apertando e os restantes pares, uns aps outros,
abandonaram a dana para os verem. . . E foi ento que o jovem
alto que a trouxera quele baile, a perdeu de vista na
multido e debalde tentou descobrir de novo aquele brao
encantador, ao qual com tanta repugnncia tinha dado o seu...
o~brao e o artista sumiram-se definitivamente.
Dois dias aps esta festa, com um tempo esplndido, a essa
hora encantadora em que as montanhas cobertas de verdura
deixam penetrar o sol, ela seguiu de Bruxelas para Spa.  
ento que vemos acudir ali toda a espcie de doentes felizes,
que vm descansar das fadigas causadas pelas festas do Inverno
passado, a fim de melhor se prepararem para os divertimentos
do Inverno futuro. Em Spa apenas se conhece a febre do baile e
no h outros pesares seno os da ausncia nem outros remdios
alm da tagarelice, a dana, a msica, a emoo do jogo, 
noite, quando a Redoute se ilumina com todas as suas luzes e o
eco das montanhas repete, em mil tonalidades, os sons
fascinantes da orquestra.
A parisiense foi ali acolhida com uma afabilidade bastante
rara nessa aldeia um tanto esquiva, que abandona de bom grado
a Baden, sua rival, as beldades sem nome, sem marido e sem
posio oficial. Tambm em Spa o espanto foi geral quando se
soube que uma mulher to nova estava seriamente doente, e os
mdicos, aflitos, confessaram que, com efeito, raramente
tinham encontrado maior resignao aliada a tanta coragem.
Foi zelosa e cuidadosamente interrogada acerca da
sua doena, e, aps uma consulta sria, aconselharam-lhe
calma, repouso, sono e silncio, os mais belos sonhos de toda
a sua vida! Ao ouvir tais conselhos, sorriu e abanou a cabea
com ar de incredulidade, pois bem sabia que tudo lhe era
possvel, menos o gozo dessas horas escolhidas de que dispem
certas mulheres e que s a elas pertencem. Prometeu, contudo,
obedecer durante alguns dias e sujeitar-se quele regime de
isolamento. Mas, baldados esforos ! Viram-na, pouco depois,

bria e doida de fictcia alegria, atravessar a cavalo as mais
difceis passagens e espantar com a sua alacridade essa
alameda das Sete Horas, que j a vira pensativa, lendo 
sombra das rvores.
No tardou a tornar-se na leoa daqueles lugares encantadores.
Presidiu a todas as festas, dava movimento aos bailes, impunha
s orquestras as suas rias favoritas e,  noite,  hora em
que to bem lhe teria feito um pouco de sono, assustava os
mais intrpidos jogadores com os montes de ouro que se
acumulavam na sua frente e que perdia de sbito, indiferente a
lucros ou perdas. Recorrera ao jogo como um suplemento da sua
profisso, como um meio de matar as horas que a matavam a ela.
Tal como era, contudo, teve ainda a ventura, coisa rara, de
conservar amizades no jogo cruel da sua vida. E mesmo um dos
sinais dessas ligaes funestas  no deixarem atrs de si
seno cinza e p, vaidade e nada !
Quantas vezes o amante passou junto da amante sem a
reconhecer, e quantas vezes a infeliz gritou por socorro, mas
em vo!... Quantas vezes aquela mo que segurou flores se
estendeu debalde pedindo esmola e o po duro !
No foi isto o que aconteceu  nossa herona; caiu sem soltar
um lamento e, mesmo depois da queda, encontrou auxlio e
proteco entre os adoradores apaixonados dos seus belos dias.
Esses homens que tinham sido rivais, e talvez inimigos,
reconciliaram-se para velarem  cabeceira da doente, para
expiar as noites de loucura com noites srias, quando a morte
se aproxima, para que o vu se rasgue e a vtima ali deitada e
o se  cmplice compreendam por fim, a verdade desta grave
exclamao: "Vo ride ?til us". Ai das que riem! Isto , ai das
alegria profanas, ai dos amores vagabundos, ai das paixes
volveis, ai da juventude que se deixa arrastar por mau
caminho, porque, ao atingir certas sinuosidades desse caminho,
tem por fora de retroceder e mergulhar nos abismos onde se
cai aos vinte anos.
Assim morreu ela, docemente embalada e consolada por mil
palavras tocantes, por mil desvelos fraternais; j no tinha
amantes... nunca tivera tantos amigos, e, contudo, no sentiu
saudades da vida. Sabia o que a esperava se recuperasse a
sade, e que lhe seria mister levar de novo aos lbios
descorados essa taa do prazer cujas fezes experimentara
prematuramente. Morreu, pois, em silncio, ainda mais oculta
na morte do que se mostrara na vida, e depois de tanto luxo e
tantos escndalos, teve o supremo bom-gosto de querer ser
enterrada ao romper do dia, num stio escondido e solitrio,
sem pompa, sem rudo, tal como uma honesta me de famlia que
fosse reunir-se ao seu marido, ao seu pai,  sua me e aos
seus filhos, e a tudo quanto amava, nesse cemitrio que fica
alm.
Contra sua vontade, no entanto, sucedeu que a sua morte foi
uma espcie de acontecimento; falou-se dela durante trs dias,
o que  muito para esta cidade das paixes cientficas e das
festas sempre repetidas e nunca saboreadas.
Ao fim de trs dias escancarou-se a porta fechada da sua casa.
As grandes janelas que davam para o
Boulevard, mesmo em frente  igreja da Madalena, sua patrona,
deixaram outra vez penetrar o ar e o sol naquele recinto onde
ela se extinguira. Dir-se-ia que a jovem mulher ia voltar a
casa. Nem entre as cortinas de seda, nem nas ricas tapearias

de reflexos vivos, nem sobre os Gobelins onde as flores
pareciam desabrochar e em que o seu p infantil mal tocara, se
conservava o mais leve sinal do aroma da morte.
Cada mvel daquele sumptuoso aposento encontrava-se ainda no
mesmo lugar; o leito em que ela morrera estava levemente
amachucado. A cabeceira, um tamborete conservava o sinal dos
joelhos do homem que lhe fechara os olhos. Aquele relgio
antigo que marcava as horas a Madame de Pompadour e a Madame
du Barry, continuava a soar como dantes; os candelabros de
prata encontravam-se carregados de velas preparadas para a
ltima conversao da noite; nas jardineiras a
rosa-de-todo-o-ano e a murta cheirosa debatiam-se, por sua
vez, com a morte. Morriam  falta de um pouco de gua... tal
como a sua dona tinha morrido  mngua dum pouco de felicidade
e de esperana.
Ai! Nas paredes viam-se suspensos os quadros de Diaz, que ela
fora uma das primeiras a considerar o verdadeiro pintor da
Primavera, e o seu retrato desenhado por Vidal. Este fizera de
to bela cabea uma cabea encantadora e casta, de infinita
elegncia, e aps a morte dela s quis retratar mulheres
honestas. Abrira em favor daquela uma excepo, que bastou
para fazer a reputao do pintor e do modelo !
Ali tudo ainda falava dela! os pssaros cantavam na sua gaiola
dourada. Atravs dos vidros transparentes dos armrios de
Boule, viam-se reunidas--escolha admirvel e digna dum
antiqurio exmio e rico--as mais raras obras-primas da
manufactura de Svres, as mais delicadas pinturas de Saxe, os
esmaltes de Petitot, as esttuas nuas de Klinstadt, as
Pampines de Boucher. Ela gostava daquelas pequenas
galanterias, graciosas, elegantes, onde o prprio vcio tem o
seu esprito, a inocncia as suas nudezes; encantavam-na os
pastores e as pastoras de porcelana, os bronzes florentinos,
as manufacturas de barro, os esmaltes, todos os requintes do
gosto e do luxo das sociedades dissipadas. Via nesses objectos
de arte outros tantos emblemas da sua beleza e da sua vida.
Mas ai! Ela prpria constitua tambm um ornamento intil, uma
fantasia, um brinquedo frvolo que se quebra ao primeiro
choque, um produto brilhante de uma sociedade na agonia, uma
ave de arribao, uma aurora momentnea.
Esta mulher levara to longe a cincia do bem-estar interior e
a adorao da sua pessoa, que nada se podia comparar com os
seus vestidos, a sua roupa branca, os mnimos pormenores dos
objectos de uso, pois o adorno da sua beleza era, afinal, a
mais querida e a mais encantadora ocupao da sua juventude.
ouvi as senhoras da melhor sociedade e as mais requintadas
elegncias de Paris manifestarem o seu espanto perante a arte
e o bom-gosto que ela tivera na escolha dos mais
insignificantes objectos de toucador. o seu pente atingiu um
preo louco; a sua escova de cabelo foi paga a peso de ouro.
At as prprias luvas j usadas tiveram pretendente, tal a
delicadeza da sua mo. Venderam-se botins que ela usara, e as
senhoras honestas disputaram entre si o direito a calar
aquele sapatinho de Gata Borralheira. Tudo se vendeu,
inclusive o seu xaile mais velho, que j tinha trs anos, a
sua arara de brilhante plumagem, que repetia uma breve melodia
demasiado triste, ensinada pela dona, os seus retratos, as
suas cartas de
amor, os seus cabelos. Tudo se foi, e a famlia, que desviava

o olhar quando aquela mulher passeava em carruagem brasonada,
ao galope dos seus cavalos ingleses, arrecadou triunfalmente
todo o ouro resultante desses despojos. No guardou para si
nada do que lhe pertencera. Santa gente!
Tal era essa mulher  parte, mesmo nas paixes parisienses, e
podem calcular qual o meu espanto quando apareceu este livro
de interesse to palpitante, e sobretudo duma veracidade to
recente e to jovem, intitulado: A Dama das Camlias. A
princpio falou-se dele como se fala ordinariamente de pginas
impregnadas da sincera emoo da mocidade, e todos se
compraziam em dizer que o filho de Alexandre Dumas, mal sado
do colgio, j seguia com passo seguro a brilhante carreira do
seu pai. Havia nele a mesma vivacidade e emoo interior;
tinha o mesmo estilo vivo, rpido, e o dilogo, to fcil e
variado, desenvolvia-se com essa naturalidade que d aos
romances do grande escritor o encanto, o gosto e o acento da
comdia.
o livro obteve, assim, um grande xito; mas em breve os
leitores, recordando a impresso fugitiva que a sua leitura
lhes causara, verificaram que A Dama das Camlias no era um
romance feito no ar, que aquela mulher devia ter existido, e
muito recentemente; que esse drama no era fruto da
imaginao, mas, pelo contrrio, uma tragdia ntima cuja
representao fora um facto e fizera verter verdadeiro sangue.
Ento, todos procuraram saber o nome da herona, a sua posio
social, a sua fortuna e quanto se relacionara com os seus
amores. o pblico, que tudo quer saber, e que afinal tudo
sabe, teve, pouco a pouco, conhecimento de cada um desses
pormenores, e, lido o livro, sentia desejos de o reler; e,
naturalmente, aconteceu que, uma vez conhecida a verdade, o
interesse da narrao aumentou.
ora aqui est como acontece, por uma felicidade
extraordinria, que este livro, impresso como um ftil romance
destinado a vida efmera, se reimprime agora, com todas as
honras de um livro aceite por todos! Leiam-no, e reconhecero
nos seus mnimos pormenores a sensibilizante histria com que
este jovem to bem dotado fez uma elegia e um drama com tantas
lgrimas, tanta felicidade e tanto xito.
Sou de opinio que s  possvel criar personagens depois de
conhecer bem os homens, assim como no se pode falar uma
lngua sem primeiro a estudar devidamente. ora, como no
atingi ainda a idade em que se inventa, limito-me a contar.
Pode, pois, o leitor convencer-se da verdade desta histria,
cujas personagens continuam vivas, excepto a herona.
De resto, h em Paris testemunhas da maior parte dos factos
que vou narrar resumidamente, as quais os confirmariam se o
meu testemunho no bastasse. Por uma circunstncia particular,
s eu os podia escrever, porque fui o nico confidente dos
ltimos pormenores, sem os quais seria impossvel fazer uma
narrativa interessante e completa.
Eis como esses pormenores chegaram ao meu conhecimento.
No dia 12 do ms de Maro de 1841, li na Rua Laffitte um grande edital amarelo que anunciava a venda em hasta pblica de
mveis e de ricos objectos de arte a qual  e efectuava em
consequncia de um bito.
o edital no mencionava o nome da pessoa falecida, mas a venda
devia fazer-se na Rua d'Antin, m o 9, no dia 18, do meio-dia

s cinco horas.

o edital dizia, alm disso, que se podia, nos dias 13 e 14,
visitar a casa e ver os mveis.
Fui sempre amador de curiosidades e fiz logo teno de no
perder esse ensejo, seno de as comprar, pelo menos de as ver.
No dia seguinte dirigi-me  Rua d'Antin, n.o 9
Era muito cedo, mas j andavam a visitar o aposento muitos
homens, e mesmo numerosas senhoras que, embora vestidas de
veludo, cobertas de caxemiras e com os seus trens elegantes 
porta, contemplavam com espanto, e at com admirao, o luxo
exposto diante dos seus olhos.
No tardei a perceber essa admirao e esse espanto, porque,
tendo-me posto a examinar tambm, reconheci facilmente que me
encontrava no aposento de uma mulher que estivera por conta de
homens. ora, se h coisa que as senhoras da alta sociedade
desejam ver (e achavam-se l senhoras da alta sociedade), so
as casas destas mulheres, cujos trens salpicam de lama todos
os dias os seus, que tm como elas e ao lado delas o seu
camarote na ( pera e nos Italianos, e ostentam em Paris a
insolente opulncia da sua beleza, das suas jias e dos seus
escndalos.
Aquela em casa de quem eu me encontrava, j morrera; as mais
virtuosas senhoras podiam, por conseguinte, entrar at no seu
quarto. A morte purificara o ar dessa cloaca esplndida, e
demais tinham por desculpa, -  dela precisassem, que vinham a
um leilo sem saberem a quem pertencia a casa. Haviam lido
uns editais, queriam visitar aquilo que eles anunciavam e
fazer de antemo a sua escolha--nada mais simples--, o que as
no impedia de procurar, no meio de todas aquelas maravilhas,
os rastos dessa vida impura de que lhes tinham feito, sem
dvida, to estranhas narrativas.
Infelizmente os mistrios haviam morrido com a
deusa e, apesar de toda a sua boa vontade, essas senhoras
apenas surpreenderam o que estava  venda e nada absolutamente
do que se vendia em vida da inquilina.
De resto, no faltava ali que arrematar. A moblia era
soberba: mveis de pau-rosa e de Boule, jarras de Svres e da
China, estatuetas de Saxe, cetins, veludos e rendas, de tudo
havia naquela casa.
Passeei pelo apartamento e segui as honestas curiosas que me
tinham precedido. Estas encaminharam-se calmamente para um
quarto forrado de pano persa, e, quando eu ia a entrar tambm,
elas saram a sorrir, como que envergonhadas dessa nova
curiosidade. Maior foi, ento, o meu desejo de visitar esse
aposento. Tratava-se do quarto de vestir, com as suas mais
minuciosas particularidades, em que parecia ter-se
desenvolvido no mais alto grau a prodigalidade da morta !
Numa grande mesa encostada  parede, uma mesa de seis ps de
comprimento e trs de largura, brilhavam todos os tesouros de
Aucoc e de odiot. Via-se ali uma coleco magnfica e nem um
s desses mil objectos, to necessrios aos arrebiques e
preparos de uma mulher como aquela em cuja casa estvamos, era
de outro metal que no ouro ou prata. Contudo, essa coleco
s se pudera fazer a pouco e pouco, e no fora um s amante
que a completara.
Eu, que no me espantava ao ver o quarto de vestir de uma
impura, divertia-me a examinar-lhe as minuciosidades,

quaisquer que elas fossem, e reparei que todos esses objectos
magnificamente cinzelados tinham iniciais muito variadas e
muito coroas diferentes.
olhava para todas estas coisas, cada uma das quais
representava um pecado da pobre rapariga, e dizia comigo que
Deus fora clemente com ela, pois permitira que no lhe chegasse o castigo ordinrio, e a deixara
morrer no seu luxo e na sua beleza, antes da velhice, a
primeira morte dessas infelizes.
Efectivamente, que h mais triste que a velhice do vcio,
sobretudo na mulher? No encerra dignidade alguma e no
inspira o mnimo interesse. Esse arrependimento eterno, no do
mau caminho que se seguiu, mas dos clculos mal feitos e do
dinheiro mal empregado,  uma das coisas mais tristes que
podemos ouvir. Conheci uma antiga mulher perdida a quem s
restava do seu passado uma filha, mas to bonita como, no
dizer dos seus contemporneos, fora sua me. Essa pobre
criana, a quem a me nunca dissera "Tu s minha filha" seno
para lhe ordenar que sustentasse a sua velhice como ela mesma
lhe sustentara a infncia, essa pobre criatura chamava-se
Lusa, e, obedecendo  ordem materna, entregava-se sem
vontade, sem paixo, sem prazer, como trabalharia num ofcio,
se algum se tivesse lembrado de lho ensinar.
A vida permanente da devassido, uma devassido precoce,
alimentada pelo estado sempre doentio daquela rapariga,
apagara-lhe na alma a compreenso do bem e do mal que Deus lhe
dera talvez, mas que ningum cuidara de desenvolver.
Jamais esquecerei aquela rapariga que passava nos  boulevards
quase todos os dias  mesma hora. Sua me acompanhava-a
sempre, como uma verdadeira me acompanharia a sua verdadeira
filha.
Muito novo ainda, eu estava pronto a aceitar para mim a fcil
moral do meu sculo. Lembro-me, contudo de que a vista daquela
vigilncia escandalosa me inspirava tdio e desprezo.
Junte-se a isto que nunca um rosto de virgem teve semelhante
expresso de inocncia, semelhante expresso de melanclico
sofrimento.
Dir-se-ia uma imagem da Resignao.
Um dia o rosto dessa rapariga iluminou-se. No meio das
devassides cujo programa sua me elaborava, pareceu 
pecadora que Deus lhe concedia uma ventura. E porque  que
Deus, afinal, que a criara sem fora, a havia de deixar sem
consolao, esmagada pelo peso doloroso da sua vida? Um dia
percebeu que estava grvida, e o que ainda havia nela de
casto, estremeceu de alegria. A alma tem estranhos refgios.
Lusa correu a levar a sua me essa notcia que tanto a
alegrara. 1  uma vergonha o que vamos dizer--contudo no
estamos a inventar imoralidades, apenas referimos um facto
verdadeiro, que talvez fosse melhor calarmos, se no
achssemos necessrio de tempos a tempos revelar os martrios
desses entes a quem condenam sem os ouvirem e desprezam sem
julgamento--;  vergonhoso, repetimos, mas a me respondeu 
filha que o que tinham j no bastava para duas e que muito
menos chegaria para trs; que filhos nessas condies so
absolutamente inteis e que uma gravidez representa tempo
perdido.
No dia seguinte, uma parteira, que designamos apenas como a
amiga da me, veio ver Lusa, que esteve alguns dias de cama e

se levantou mais plida.
Trs meses depois um homem teve d dela e empreendeu a sua
cura fsica e moral, mas o ltimo abalo fora demasiado
violento, e Lusa morreu em consequncia do desmancho que
fizera.
A me vive ainda. Como? Sabe-o Deus.
Esta histria acudira-me ao esprito, enquanto contemplava os
objectos de prata. Eu passara certo tempo, nestas reflexes,
pois j me encontrava no apartamento sozinho com um guarda que
da porta examinava com ateno se eu no furtava alguma coisa.
Aproximei-me do digno homem a quem inspirava to graves
preocupaes.

--o senhor podia dizer-me--perguntei-lhe eu-o nome da pessoa
que aqui morava?
--Margarida Gautier.
Conhecia essa rapariga de nome e de vista.
--o qu!--exclamei.--Margarida Gautier morreu ?
--Sim, senhor.
--Quando?
--H trs semanas, parece-me.
--E porque deixam visitar os seus aposentos?
--Entenderam os credores que isso concorreria para favorecer o
leilo. Assim, cada qual pode ver antecipadamente o efeito que
fazem os estofos e os mveis, o que, como sabe, sempre anima a
compra.
--Ento ela deixou dvidas?
--oh! Imensas...
--Mas a venda chega para as cobrir?
--Ainda sobeja.
--Ento para onde vai o resto?
--Para a famlia.
--Ela tinha famlia?
--Parece que sim.
--Muito obrigado.
o guarda, tranquilizado acerca das minhas intenes,
cumprimentou-me e eu sa.
"Pobre rapariga!--dizia comigo mesmo ao entrar em casa.--Deve
ter morrido bem tristemente, pois no seu mundo com a sade
desaparecem sempre os amigos. "
E, involuntariamente, compadeci-me da sorte de Margarida
Gautier.
Talvez isto parea ridculo a muita gente, mas tenho uma
indulgncia enorme pelas pecadoras e no me dou sequer ao
trabalho de discutir essa indulgncia.
Certo dia, indo buscar um passaporte  prefeitura.
vi numa das ruas adjacentes uma rapariga que dois gendarmes
levavam presa. Ignoro o que essa rapariga fizera, apenas posso
dizer que chorava a bom chorar, beijando uma criana de meses
de quem a priso a separava. Desde esse dia nunca mais soube
desprezar uma mulher sem a ouvir.

o leilo estava marcado para o dia 18.
Houve um dia de intervalo entre as visitas e a venda para dar
aos armadores e estofadores tempo de despregarem as
tapearias, os cortinados, etc.
Nessa poca, voltava eu de uma viagem. Era muito natural que
me no tivessem dado a notcia da morte de Margarida como uma

dessas grandes novidades que os amigos contam sempre a quem
regressa  capital das novidades.
Margarida era bonita, mas quanto mais a vida requintada dessas
mulheres d que falar, menos barulho se faz em redor da sua
morte. So destes sis que se pem como nasceram --isto , sem
esplendor. A sua morte, quando morrem novas, consta ao mesmo
tempo a todos os seus amantes, porque em Paris quase todos os
amantes de uma rapariga muito conhecida so ntimos. Trocam-se
algumas recordaes a seu respeito e a vida de uns e de outros
continua sem que esse incidente lhes arranque sequer uma
lgrima.
Hoje, quando se tem vinte e cinco anos, as lgrimas so uma
coisa to rara, que se no podem dar a qualquer. Mesmo os
parentes que pagam para serem chorados, s recebem, quando
muito, pranto correspondente ao custo.
Quanto a mim, apesar do meu monograma se no encontrar em
nenhum dos objectos do toucador de Margarida, essa indulgncia
instintiva, essa piedade natural que acabo de confessar,
faziam-me pensar na sua morte mais tempo do que ela talvez
fosse merecedora.
Lembrava-me de ter encontrado Margarida muitas vezes nos
Campos Elsios, onde vinha assiduamente, todos os dias, num
coup azul, puxado por dois magnficos cavalos baios, e haver
ento notado nela certa distino pouco vulgar entre as suas
semelhantes, distino que uma beleza verdadeiramente
excepcional ainda mais realava.
Estas desgraadas criaturas vo sempre, quando saem,
acompanhadas no se sabe por quem. Como nenhum homem consente
em ostentar, publicamente, o amor nocturno que lhes consagra,
e elas tm horror  solido, levam consigo ou aquelas que,
menos felizes, no tm carruagem, ou algumas dessas velhas
elegantes, cuja elegncia no se explica, e a quem todos se
podem dirigir sem receio, quando se querem obter algumas
informaes, sejam quais forem, acerca da mulher que elas
acompanham.
No acontecia assim com Margarida. Aparecia nos Campos Elsios
sempre s, na sua carruagem, em que se escondia o mais
possvel, de Inverno envolta num grande xaile de caxemira, de
Vero com uns vestidos singelssimos; e, apesar de encontrar
no seu passeio favorito muitos homens que ela conhecia, quando
por acaso lhes dirigia um sorriso, s eles o notavam, e s uma
duquesa poderia sorrir assim.
No passeava desde a meia laranja at  entrada dos Campos
Elsios, como fazem e faziam todas as suas colegas. os dois
cavalos levavam-na com uma enorme rapidez ao bosque. Ali,
apeava-se, andava uma hora a p, tornava-se a meter no seu
coup e voltava para casa a todo o trote da sua parelha.
Todas estas circunstncias, de que eu fora algumas vezes
testemunha, me passavam pela memoria, e lamentava a morte
dessa rapariga como se lamenta a destruio total de uma
formosssima obra.
ora, era impossvel ver uma beleza mais encantadora do que a
de Margarida.
Alta e delgada at ao exagero, possua no supremo grau a arte
de fazer desaparecer esse descuido da natureza pelo modo
singelo com que se arranjava. o seu xaile, cuja ponta tocava
no cho, deixava escapar por ambos os lados os largos folhos
de um vestido de seda, e o espesso regalo que lhe escondia as

mos e ela apertava ao peito estava rodeado de pregas to
habilmente dispostas, que a vista mais exigente nada tinha a
censurar quanto ao contorno das linhas.
A cabea, uma maravilha, era objecto de garridice especial.
Pequenina, parecia que sua me, como diria Musset, a fizera
assim para a tornar mais perfeita.
Imaginem num oval de indescritvel gentileza uns olhos negros
encimados por umas sobrancelhas de to pura curva, que
pareciam pintadas; velem esses olhos com umas fartas pestanas
que, ao cerrarem-se, projectavam sombras no rseo matiz das
faces; tracem um nariz fino, direito, engraado, de narinas um
pouco abertas por uma aspirao ardente para a vida sensual;
desenhem uma boca regular, cujos lbios se descerravam
graciosamente, deixando ver uns dentes alvos como o marfim;
dem  epiderme esse aveludado colorido que reveste os
pssegos em que no tocou mo profana, e obtm assim o
conjunto dessa encantadora cabea.
os cabelos, negros como azeviche, no sei se
naturalmente ondeados, abriam-se na fronte em
dois largos bands, e perdiam-se na nuca, deixando ver uma
nesga das orelhas, onde brilhavam dois diamantes que valiam
quatro a cinco mi  francos cada um.
Como  que o seu ardente viver deixava ao rosto de Margarida e
expresso virginal, infantil at, que o caracterizava, 
fenmeno que no compreendemos, mas que somos forados a
reconhecer.
Margarida possua um maravilhoso retrato, da autoria de Vidal,
o nico homem cujo lpis a sabia reproduzir. Esse retrato, que
durante alguns dias tive  minha disposio, mostrava to
espantosa semelhana com o original, que me serviu para dar
estas informaes, para algumas das quais talvez a minha
memria no bastasse.
Alguns dos pormenores deste captulo s mais tarde chegaram ao
meu conhecimento, mas escrevo-os desde j para no ter de
voltar a referi-los, quando principiar a histria dramtica
desta mulher.
Margarida assistia a todas as primeiras representaes e
passava todas as noites nos bailes ou nos espectculos. De
cada vez que se representava uma pea nova, tinha-se a certeza
de a ver l, com trs coisas que a no largavam nunca, e que
ocupavam sempre o peitoril da sua frisa: o binculo, um saco
de bombons e um ramo de camlias.
Durante vinte e cinco dias do ms as camlias eram brancas, e
nos outros cinco, vermelhas; jamais se soube o motivo desta
variedade de cores, que os frequentadores do teatro onde ela
ia habitualmente e os seus amigos tinham notado como eu.
Nunca lhe haviam visto outras flores que no fossem camlias.
Por isso, no estabelecimento da Barjon, a sua florista,
acabaram por denomin-la Dama das Camlias. E o apelido
pegara-lhe.
Eu sabia, alm disso, como todos os que vivem numa certa roda,
em Paris, que ela fora amante dos rapazes mais elegantes, que
o dizia alto e bom som, e que eles mesmos se gabavam do facto,
o que s provava que tanto Margarida como esses jovens se
sentiam satisfeitos.
Contava, no entanto, que havia trs anos, pouco mais ou menos,
desde uma viagem que fizera a Bagnres, vivia apenas com um
velho duque estrangeiro, imensamente rico e que tentara

desprend-la o mais possvel da sua vida passada, coisa a que
ela, de resto, parecia resignar-se sem grande custo.
Eis o que me contaram a esse respeito.
Na Primavera de 1842, Margarida estava to fraca, to mudada,
que os mdicos receitaram-lhe o uso das guas, e ela partiu
para Bagnres.
A, entre os doentes achava-se a filha desse mesmo duque, a
qual no s tinha a mesma doena, mas tambm um rosto to
parecido com o de Margarida, que podiam ser tomadas por duas
irmas. A jovem fidalga, porm, estava no ltimo grau da
tuberculose e sucumbia poucos dias depois da chegada de.
Margarida.
Certa manha, o duque, que ficara em Bagnres como se fica na
terra onde jaz sepultada parte do prprio corao, viu
Margarida numa alameda.
Pareceu-lhe que via passar a sombra de sua filha e,
dirigindo-se para ela, pegou-lhe nas mos, beijou-as a chorar
e, sem lhe perguntar quem era, pediu-lhe licena para a ver e
amar no seu doce vulto a imagem da filha morta.
Margarida, sozinha em Bagnres com a sua criada de quarto e
no tendo o mnimo receio de comprometer a sua reputao,
concedeu ao duque o que ele lhe pedia.
Achavam-se em Bagnres pessoas que a conheciam e que foram
oficiosamente avisar o duque da
verdadeira posio de Margarida Gautier.  oi um golpe para o
velho, porque a cessava a parecena com sua filha, mas j era
tarde. A jovem passara a constituir uma necessidade do seu
corao, e o nico pretexto, a nica desculpa para ele viver
ainda.
No lhe fez a mnima censura, no lhe assistia o direito de
lha fazer, mas perguntou-lhe se se sentia com foras para
mudar de vida, tendo-lhe oferecido em troca desse sacrifcio
todas as compensaes que pudesse desejar. Ela prometeu.
Devemos dizer que, nessa poca, Margarida, natureza
entusistica, estava doente. o passado aparecia-lhe como uma
das causas principais da sua doena, e uma espcie de
superstio lhe fez esperar que Deus lhe deixaria a beleza e a
sade em troca do seu arrependimento e da sua converso.
Efectivamente as guas, os passeios, a fadiga natural e o sono
tinham-na restabelecido quase por completo quando chegou o fim
do Estio.
o duque acompanhou Margarida a Paris, onde continuou a ir
v-la como em Bagnres.
Essa ligao, cuja verdadeira origem e verdadeiro motivo se
ignoravam, causou aqui verdadeira sensao, pois o duque,
conhecido pela sua enorme riqueza, fazia-se agora notar pela
sua prodigalidade.
atribua-se  libertinagem, frequente nos velhos ricos, essa
aproximao do duque e da jovem mulher. Sups-se tudo, menos a
verdade.
Contudo, o afecto desse pai por Margarida tinha um motivo to
casto, que quaisquer outras relaes que no fossem relaes
do corao lhe pareciam um incesto, e nunca lhe dissera uma
palavra que sua filha no pudesse ouvir.
Longe de ns o pensamento de fazer da nossa herona um ser
diferente do que era. Diremos, pois, que, enquanto estivera em
Bagnres, a promessa feita ao duque no custara cumprir, e ela
cumprira-a; mas, logo que voltou a Paris, pareceu a essa

rapariga, habituada a uma vida de dissipao, aos bailes e at
s orgias, que a sua soledade, interrompida unicamente pelas
visitas peridicas do duque, a faria morrer de aborrecimento,
e os bafejos ardentes da sua vida de outrora vinham a um tempo
inflamar-lhe a cabea e o corao.
Acrescentemos que Margarida voltara dessa viagem mais bela do
que nunca, que tinha vinte anos e que a doena, adormecida,
mas no vencida, continuava a inspirar-lhe esses desejos
febris que so quase sempre o resultado das doenas de peito.
o duque teve, pois, uma grande dor no dia em que os seus
amigos, constantemente  espreita para surpreenderem um
escndalo da parte de Margarida, com quem ele se estava a
desacreditar, como eles diziam, lhe vieram contar e provar
que, s horas em que ela tinha a certeza de que o duque no
podia ir v-la, recebia visitas, e que essas visitas se
prolongavam muitas vezes at ao dia seguinte.
Margarida, interrogada pelo duque, tudo lhe confessou,
aconselhando-o, sem pensamento reservado, a no se importar
mais com ela, pois no se sentia com fora de satisfazer os
seus compromissos e no queria continuar a receber os
benefcios de um homem a quem enganava.
o duque passou oito dias sem aparecer, mas no pde mais, e,
no oitavo dia, veio suplicar a Margarida que continuasse a
receb-lo, prometendo-lhe aceit-la como ela era e jurando-lhe
que, embora morresse de dor, no lhe faria uma nica censura.
Assim estavam as coisas em Novembro ou Dezembro de 1842, quer
dizer, trs meses depois do regresso de Margarida.
No dia 18,  uma hora, dirigi-me  Rua d'Antin. No porto j
se ouvia o grito dos pregoeiros.
A casa estava cheia de curiosos.
Achavam-se ali todas as celebridades do vcio elegante,
sorrateiramente examinadas por algumas senhoras nobilssimas,
que haviam aproveitado mais uma vez o pretexto da venda para
poderem ver de perto mulheres com quem nunca teriam tido
ocasio de se encontrar, e cujos fceis prazeres talvez
invejassem em segredo.
A duquesa de E... acotovelava a menina A... um dos mais
tristes exemplares das nossas cortess; a marquesa de F...
hesitava em comprar um mvel que estava a ser disputado pela
Sr.a D... a mulher adltera mais elegante e mais conhecida da
nossa poca; o duque d'Y... que passa em Madrid por se
arruinar em Paris, em Paris por se arruinar em Madrid, e que,
afinal de contas, no gasta nem sequer os seus rendimentos,
enquanto conversava com a Sr.a M... uma das nossas mais
engraadas folhetinistas, que de tempos a tempos tem a bondade
de escrever o que diz e de assinar o que escreve, trocava
olhares confidenciais com a Sr.  de N... essa gentil passeante
dos Campos Elsios, quase sempre vestida de cor-de-rosa ou de
azul, e cuja carruagem  puxada por dois grandes cavalos
negros, que Tony lhe vendeu por dez mil francos e... que ela
lhe pagou; enfim, a famosa R... que consegue, s com o seu
talento, o dobro do que conseguem as mulheres da alta
sociedade com o seu dote e o triplo do que as outras alcanam
com os seus amores, viera, apesar do frio, fazer algumas
compras, e no era para ela que se olhava menos.
Poderamos ainda citar as iniciais de muitas outras pessoas
reunidas nesta sala, e bastante espantadas de se encontrarem
juntas; mas receamos cansar o leitor.

Digamos apenas que toda a gente mostrava uma alegria doida e
que entre todas as pessoas que ali se viam, havia vrias que
tinham conhecido a falecida, e no pareciam lembrar-se dela.
Riam-se todos muito; os leiloeiros gritavam a bom gritar, os
mercadores, que tinham invadido os bancos dispostos diante das
mesas de venda, tentavam debalde impor silncio para fazerem
negcio tranquilamente. Nunca houve reunio mais variada, nem
mais ruidosa.
Insinuei-me humildemente no meio desse tumulto que me
entristecia ao lembrar-me que se efectuava ao p do quarto
onde expirara a pobre criatura, cujos mveis se vendiam para
lhe pagarem as dvidas. Tendo vindo mais para examinar do que
para comprar, olhava para as caras dos fornecedores que
ordenavam a venda, e cujas fisionomias se alegravam de cada
vez que um objecto chegava a um preo que eles no esperavam.
Honrada gente que especulara com a prostituio dessa mulher,
que ganhara com ela cem por cento, que perseguira com papis
selados os ltimos momentos da sua vida, e que vinha depois da
sua morte colher os frutos dos seus honestos clculos,
juntamente com os juros do seu vergonhoso crdito!
Com que razo os antigos davam o mesmo deus aos mercadores e
aos ladres!
Vestidos, xailes de caxemira, jias, iam-se vendendo com uma
rapidez incrvel. De tudo isso nada me servia. Continuei,
pois,  espera.
De repente ouvi gritar:
--Um volume perfeitamente encadernado, com filete dourado nas
folhas, intitulado: Manon Lescaut. Tem alguma coisa escrita
nas primeiras pginas. Dez francos.
--Doze--pronunciou uma voz, depois de longo
silencio.
--Quinze--disse eu.
Porqu? No sei. Talvez por causa do alguma coisa escrita.
--Quinze !--repetiu o leiloeiro.
--Trinta--proferiu o primeiro arrematante, com um tom que
parecia desafiar uma oferta maior.
Aquilo transformara-se numa luta.
--Trinta e cinco! --bradei eu, no mesmo tom.
--Quarenta.
--Cinquenta.
--Sessenta.
--Cem.
Confesso que, se quisesse produzir efeito, teria obtido um
xito completo, porque em seguida a este lano estabeleceu-se
um silncio geral, e olharam todos para mim, a fim de saberem
quem era esse sujeito que parecia to resolvido a possuir o
volume.
Decerto o modo como eu pronunciara a ltima palavra convencera
o meu antagonista; preferiu, por conseguinte, abandonar um
combate que apenas servira para me obrigar a pagar o volume
por um valor dez vezes superior, e, inclinando-se, disse muito
graciosamente, embora um pouco tarde:
--Cedo.
Como ningum dissera mais nada, foi-me adjudicado o livro.
Receando que houvesse nova teimosia que o meu amor-prprio
talvez sustentasse, mas que faria decerto grande mal  minha
bolsa, mandei apontar o meu nome, pr de parte o volume, e
sa. Dei, decerto, muito que pensar s pessoas que foram

testemunhas desta cena e que perguntaram, sem dvida,  mas s
outras com que fim viera eu pagar cem francos por um livro que
podia ter comprado em qualquer parte por dez ou quinze
francos, quando
muito .
Uma hora depois, j eu tinha mandado buscar a minha compra.
Na primeira pgina estava escrita  pena, e com u. na letra
elegante, a dedicatria do donatrio deste
livro. Constava apenas destas palavras:

Manon a Margarida

 humildade. 

Tinha a seguinte assinatura: Armando Duval.
Que queria dizer aquela palavra: Humildade?
 desconhecia, Manon em Margarida, na opinio Gesse Armando
Duval, uma superioridade de impuc1a ou de corao?
A segunda interpretao era a mais verosmil, pois a primeira
no passaria de insolente franqueza, e Margarida no a
aceitaria, qualquer que fosse a opinio que de si mesma
formasse.
Sa de novo e s voltei a pensar nesse livro  noite, quando me
deitei.
Manon Lescau  , sem dvida, uma tocante histria em que no h uma nica particularidade que eu
desconhea, e contudo, quando dou com esse volume, a simpatia
que por ele tenho atrai-me logo, abro-o, e convivo pela
centsima vez com a herona do abade Prvost. ora esta herona
 to verdadeira, que me chega a parecer que a conheci. Nestas
novas circunstncias, a espcie de comparao feita entre ela
e Margarida dava um novo atractivo a essa leitura, e  minha
indulgncia juntou-se certa piedade, e quase um vago amor pela
pobre rapariga a cuja herana eu devia este volume. Manon
morrera num deserto,  verdade, mas morrera nos braos do
homem que a amava com todas as energias da sua alma, que lhe
abriu a cova, regou-a com as suas lgrimas e nela sepultou o
seu prprio corao, enquanto Margarida, pecadora como Manon,
e talvez convertida como ela, morrera no seio de um luxo
sumptuoso, a avaliar pelo que eu vira, no ambiente do seu
passado, mas tambm no meio desse deserto do corao, muito
mais rido, muito mais vasto, muito mais agreste do que aquele
em que fora sepultada Manon.
Efectivamente, Margarida, como eu o soubera por alguns amigos
conhecedores das ltimas circunstncias da sua vida, no vira
sentar-se uma s consolao real  sua cabeceira nos dois
meses que durara a sua lenta e dolorosa agonia.
Depois de Manon e de Margarida passava o meu pensamento para
aquelas que eu conhecia, e que via encaminharem-se, a cantar,
para uma morte quase sempre invarivel.
Pobres criaturas! Se somos culpados amando-as, no o somos
decerto lamentando-as. Lamentam o cego que nunca viu os raios
da luz do dia, o surdo que nunca ouviu os acordes da Natureza,
o mudo que nunca pde exprimir a voz da sua alma, e no
querem, com um falso pretexto de pudor, lamentar essa cegueira
do corao, essa surdez da alma, essa mudez da conscincia que
enlouquecem a infeliz aflita e a tornam involuntariamente

incapaz de ver o bem, de ouvir o Senhor e de falar a lngua
pura do amor e da f?
Hugo escreveu Marion de Lorme, Musset Bernerette, Alexandre
Dumas Fernanda, os pensadores e os poetas de todos os tempos
trouxeram  cortes a ob1ata da sua misericrdia, e algumas
vezes um grande homem as reabilitou com o seu amor e at com o
seu nome. Se insisto tanto neste ponto,  porque muitos
daqueles que me vo ler esto j prontos talvez a repelir este
livro, em que receiam ver apenas uma apologia do vcio e da
prostituio, e a idade do autor contribui sem dvida ainda
para motivar esse receio. Desenganem-se os que assim pensarem
e continuem, se s esse receio os detinha.
Estou simplesmente convencido do princpio seguinte: A mulher
a quem a educao nunca ensinou o bem, abre Deus quase sempre
duas veredas que l a conduzem; essas veredas so a dor e o
amor. So difceis; as que procuram segui-las ensanguentam os
ps e rasgam as mos, mas deixam ao mesmo tempo nas urzes do
caminho os efeitos do vcio e chegam ao fim nessa nudez de que
ningum se envergonha perante Deus.
Aqueles a quem se deparam essas viajantes audaciosas devem
ampar-las e dizer a todos que as encontraram, pois, tornando
pblico o facto, mostram o caminho.
No se trata de pr simplesmente  entrada da vida dois
postes, um com esta inscrio: Estrada do  em, o outro com
este aviso: Estrada do mal, e dizer aos que se apresentam:
"Escolham";  necessrio mostrar, como faz Cristo, os caminhos
que
levam da segunda  primeira estrada: aqueles que se tinham
deixado seduzir pelas aparncias; e, sobretudo, convm que o
princpio desses caminhos no seja demasiado doloroso e no
parea completamente impenetrvel.
o cristianismo l est com a sua maravilhosa parbola do filho
prdigo para nos aconselhar indulgncia e perdo. Jesus tinha
um imenso amor por essas almas que as paixes dos homens
feriam e cujas chagas se comprazia em curar tirando o blsamo
das prprias chagas. Era assim que dizia a Madalena: "Muito te
ser perdoado, porque muito amaste"--sublime perdo que devia
despertar uma f sublime.
Porque havemos de mostrar-nos mais rgidos do que Cristo?
Porque  que, aferrando-nos obstinadamente s opinies desta
sociedade que se faz dura para que a julguem forte, havemos de
repelir com ela almas que vertem sangue das feridas por onde,
como o sangue mau de um enfermo, foge o mal do seu passado,
almas que esperam apenas mo amiga que as trate e lhes torne
convalescente o corao?
  minha gerao que me dirijo, queles para quem as teorias
de M. de Voltaire felizmente j no existem, queles que
percebem, como eu, que a humanidade est h quinze anos num
dos seus mais impetuosos movimentos. A cincia do bem e do mal
foi definitivamente adquirida, a f reconstruiu-se;
restitui-se-nos o respeito das coisas santas; e, se o mundo
no se torna completamente bom, pelo menos est j melhor. os
esforos de todos os homens inteligentes tendem para o mesmo
fim, e todas as grandes vontades se associam ao mesmo
princpio; sejamos bons, sejamos jovens, sejamos verdadeiros!
o mal no passa de vaidade; orgulhemo-nos do bem, e sobretudo
no percamos a esperana !
No desprezemos a mulher que no  nem me, nem irma, nem

filha, nem esposa. No restrinjamos a nossa estima  famlia,
nem a indulgncia ao egosmo. Se o Cu rejubila mais com o
arrependimento de um pecador, do que com cem justos que nunca
pecaram, procuremos alegrar o Cu. Pode pagar-nos com usura.
Deixemos no nosso caminho a esmola do nosso perdo queles que
os desejos terrestres perderam, e a quem salvar, talvez, uma
divina esperana, pois, como dizem as boas velhinhas quando
aconselham algum remdio da sua lavra, se no fez bem, mal no
pode fazer.
Deve parecer, decerto, grande audcia da minha parte querer
fazer brotar estes grandes resultados do magro assunto que
trato; mas sou daqueles que acreditam que em pouco tudo est.
A criana  pequena e encerra o homem; o crebro  estreito e
abriga o pensamento; o olho  um ponto e abrange lguas.

Dois dias depois, estava completamente concluda a venda.
Rendera cento e cinquenta mil francos.
os credores tinham repartido entre si os dois teros, e a
famlia, composta de uma irma e de um segundo-sobrinho,
herdara o resto.
A irma abrira uns olhos muito pasmados, quando o procurador
lhe escrevera a comunicar-lhe que lhe tocavam cinquenta mil
francos de herana.
Havia seis ou sete anos que aquela rapariga no via a irma,
pois um belo dia esta desaparecera de casa, sem que se
soubesse como nem onde vivera, desde o momento da sua
desapario.
Partira, pois, a toda a pressa para Paris, e fora grande o
espanto dos que conheciam Margarida ao verem que a sua nica
herdeira era uma gorda e bonita rapariga do campo, que nunca
at ento sara da sua aldeia.
Viu-se, assim, rica de um momento para o outro, sem sequer
saber de que fonte lhe viera to inesperada fortuna.
Voltou para a sua aldeia, disseram-mo depois, levando da morte
de sua irma uma grande tristeza, compensada, todavia, pela
colocao da sua herana a quatro e meio por cento, operao
que realizara imediatamente.
Todas estas circunstncias que tinham sido repetidas em Paris,
a cidade me do escndalo, principiavam a esquecer, e eu j
quase esquecera tambm completamente a parte que tomara nesses
acontecimentos, quando um novo incidente me fez conhecer a
vida toda de Margarida e me informou de particularidades to
interessantes, que me apeteceu escrever esta histria. E
escrevi-a.
Havia trs ou quatro dias que a casa de Margarida, despejada
completamente, estava para alugar, quando, certa manha,
tocaram a campainha da minha porta.
o meu criado, ou antes o meu porteiro, que me servia de
criado, foi abrir e trouxe-me um bilhete, dizendo-me que a
pessoa que lho entregara desejava falar-me.
Lancei os olhos ao bilhete e li nele estas duas palavras:
Armando Duval.
Pareceu-me que j ouvira ou lera este nome, e efectivamente
no tardei a lembrar-me da primeira folha do volume de Manon
Lescaut.
Que me quereria a pessoa que dera esse livro a Margarida?
Mandei-a entrar imediatamente.
Vi ento um rapaz loiro, alto, vestido com um fato de viagem,

que parecia no ter largado havia alguns dias, e que nem mesmo
se dera ao trabalho de escovar  chegada a Paris, pois estava
coberto de poeira.
o Sr. Duval, intensamente comovido, no fez o mnimo esforo
para esconder a sua comoo, e foi com as lgrimas nos olhos e
uma tremura na voz que me disse:
--Desculpe-me, peo-lhe, a minha visita e o meu fato, mas alm
de no haver grande cerimnia entre rapazes, desejava tanto
v-lo hoje, que nem mesmo me demorei a ir  hospedaria para onde mandei as minhas malas,
e corri a sua casa, receando, apesar de ser to cedo, no o
encontrar.
Convidei o Sr. Duval a sentar-se ao p do fogo, o que ele
fez, tirando da algibeira um leno com o qual escondeu o
rosto por alguns momentos.
--No pode adivinhar decerto--disse ele, suspirando
tristemente--o que lhe quer este visitante desconhecido, a
semelhante hora, com semelhante fato e chorando desta maneira.
Venho simplesmente pedir-lhe um grande favor.
--Queira explicar-se; asseguro-lhe que estou completamente 
sua disposio.
--Assistiu ao leilo de Margarida Gautier?
Ao proferir estas palavras, a comoo, que esse rapaz
conseguira dominar por alguns instantes, irrompeu e forou-o a
tapar os olhos com as mos.
--Devo parecer-lhe bem ridculo--acrescentou ele--; torno a
pedir-lhe desculpa e creia que no esquecerei a pacincia com
que tem a bondade de me escutar.
--Se esse favor que, segundo parece, lhe posso fazer--redargui
eu--consegue acalmar um pouco o desgosto que o aflige, diga-me
depressa o que deseja, e encontrar em mim um homem que ter o
maior prazer em obsequi-lo.
Era simptica a dor do Sr. Duval, e sem saber porqu, estava
com vivos desejos de lhe ser agradvel.
Disse-me ento:
--Comprou algum objecto no leilo de Margarida?
--Comprei um livro.
--Manon Lescaut?
--Exacto.
--Ainda tem esse livro em seu poder?
.--Est no meu quarto.
Ao ouvir isto, Armando Duval pareceu aliviado de um grande
peso e agradeceu-me como se eu j houvesse principiado a
prestar-lhe um servio, conservando esse volume.
Levantei-me, fui ao meu quarto buscar o livro e entreguei-lho.
-- isto mesmo--disse ele, olhando para a dedicatria da
primeira pgina e folheando o volume--,  isto mesmo.
E duas lgrimas como punhos rolaram-lhe pelas faces e foram
cair nas pginas.
--Pois bem, senhor--prosseguiu, erguendo a ca ea e olhando
para mim, sem tentar ocultar-me que chorara, e que estava
quase a chorar de novo--, tem muito empenho em conservar este
livro?
--Porqu?
--Porque venho pedir-lhe que mo ceda.
--Desculpe a minha curiosidade--repliquei ento--; mas foi o
senhor que o deu a Margarida Gautier?
--Fui.

-- seu este livro, leve-o. Folgo imenso em restituir-lho.
--Mas --tornou Armando Duval, enleado--, devo ao menos
entregar-lhe o dinheiro que ele lhe custou.
--D-me licena que lho oferea. o preo de um volume num
leilo daquele gnero  uma bagatela, e nem j me lembro
quanto dei por este.
--Deu cem francos.
-- exacto--disse eu, por minha vez enleado.-Como o soube?
--Nada mais simples. Esperava estar em Paris a tempo de
assistir ao leilo de Margarida, e s cheguei esta manha.
Queria por fora ficar com um
objecto que lhe tivesse pertencido, e corri a casa do
leiloeiro, pedindo-lhe licena de examinar a lista dos
objectos vendidos e dos nomes dos compradores. Vi que o senhor
adquirira este livro e resolvi pedir-lhe que mo cedesse,
embora o preo por que o comprara me fizesse recear que uma
recordao qualquer o ligasse  posse desse volume.
Falando assim, Armando parecia evidentemente temer que eu
tivesse conhecido Margarida da mesma forma que ele a
conhecera.
--S conheci Margarida Gautier de vista--disse-lhe--; a sua
morte causou-me a impresso que causa sempre a um rapaz a
morte de uma mulher bonita que ele gostava de encontrar. Quis
comprar uma coisa qualquer no seu leilo, e embirrei em
disputar este volume, no sei porqu, talvez pelo gosto de
enraivecer um sujeito que se mostrava obstinado em cobrir-me o
lano e parecia desafiar-me. Repito-lhe, pois, que est  sua
disposio e peo-lhe de novo que o aceite. para que o no
receba de mim como eu o recebi de um pregoeiro, e sirva de
penhor de mais amplo conhecimento e de mais ntimas relaes
entre ns.
--Perfeitamente--disse Armando, estendendo-me a mo e
apertando a minha--; aceito e ficar-lhe-ei agradecido toda a
minha vida.
Eu tinha deveras vontade de interrogar Armando acerca de
Margarida, porque a dedicatria do livro, a viagem daquele
rapaz, o seu desejo de possuir o volume despertavam a minha
curiosidade; mas receava, interrogando o meu visitante,
parecer que recusara o seu dinheiro apenas para ter o direito
de me meter nos seus assuntos particulares.
Dir-se-ia ter adivinhado o meu desejo, porque me perguntou:
--Leu este volume?
--Todo.
--Que pensou das duas linhas que eu escrevi?
--Pensei que aos seus olhos a pobre rapariga a quem dera esse
livro saa da categoria ordinria, pois no pude ver nessas
linhas apenas um cumprimento banal.
--E tinha razo. Essa rapariga era um anjo. olhe --disse-me
ele--, leia esta carta.
E estendeu-me um papel, que parecia terem relido bastantes
vezes.
Abri-o, e eis o que ele continha:

"Meu querido Armando, recebi a tua carta; conservaste bom o
teu corao, por isso dou graas a Deus.
"Sim, meu amigo, estou doente, com uma dessas doenas que no
perdoam; mas o interesse que ainda tens a bondade de tomar por
mim diminui muito o meu sofrimento.

"No viverei, sem dvida, tempo bastante para ter a felicidade
de apertar a mo que escreveu a boa carta que acabo de
receber, e cujas palavras bastariam para me curar, se alguma
coisa o pudesse fazer. No te verei porque j estou perto da
morte e centenas de lguas te separam de mim. Pobre amigo! A
tua Margarida de outros tempos acha-se muito mudada, e talvez
seja melhor no voltares a v-la, do que v-la como ela est.
Perguntas-me se te perdoo? oh! com todas as foras da minha
alma, porque o mal que me quiseste fazer, no era seno uma
prova do amor que tinhas por mim. H um ms que estou de cama,
e tanto desejo conservar a tua estima, que todos os dias
escrevo o dirio da minha vida, desde que nos deixmos at ao
momento em que j no terei fora para mexer a pena.
"Se o interesse que tens por mim  verdadeiro, Armando, quando
voltares vai a casa de Jlia Duprat. Ela te entregar este
dirio. Ali encontrars a razo e a desculpa do que se passou
entre ns. A Jlia  deveras minha amiga; muitas vezes
conversamos a teu respeito. Estava presente quando a tua carta
chegou; chormos ambas ao l-la.
"No caso de no me teres dado notcias tuas, estava
encarregada de te entregar esses papis quando voltasses a
Frana. No me agradeas. Esta recordao diria dos nicos
momentos felizes da minha vida faz-me um bem enorme e, se
deves encontrar nesta leitura a desculpa do passado, para mim
ela constitui contnuo alvio.
"Queria deixar-te alguma coisa que me trouxesse sempre
presente no teu esprito, mas tudo est penhorado em minha
casa e nada me pertence.
"Percebes, meu amigo? Vou morrer, e ouo do meu quarto os
passos do guarda que os credores puseram na sala, para que
ningum leve coisa alguma e nada me fique no caso de eu no
morrer. Espero que s vendam tudo quando eu acabar.
"oh! os homens so impiedosos! ou antes, engano-me, Deus  que
 justo e inflexvel.
"Meu querido, meu amado Armando, vem ao leilo, e compra
alguma coisa, porque, se eu pusesse de parte o mnimo objecto
para ti e o soubessem, seriam capazes de te processar por
crime de furto de objectos penhorados.
"Triste vida  esta que eu deixo!
"Como Deus seria bom se permitisse que eu te tornasse a ver
antes de expirar! Segundo todas as probabilidades, adeus para
sempre, meu querido Armando!
"Perdoa-me se te no escrevo mais, mas os que
dizem que me ho-de curar, esfalfam-me com sangrias e a minha
mo recusa-se a prosseguir

"Margarida Gautier. "

Efectivamente as ltimas palavras eram quase ilegveis.
Restitu a carta a Armando, que acabava de a reler sem dvida
no seu pensamento como eu a lera no papel.
--Quem acreditaria que foi uma mulher perdida que escreveu
isto!
E, comovidssimo com as suas recordaes, contemplou por algum
tempo a letra da carta que acabou por levar aos lbios.
--E quando penso --tornou ele-- que esta mulher morreu sem me
ser dado tornar a v-la, e que jamais a voltarei a ver! Quando
penso que fez por mim o que uma irma no faria, no perdoo a

mim prprio t-la deixado morrer assim! Morta! Morta, a pensar
em mim, a escrever e a pronunciar o meu nome, pobre e querida
Margarida!
E Armando, dando livre curso aos seus pensamentos e s suas
lgrimas, estendia-me a mo e continuava:
--Achavam-me decerto muito criana se me vissem lamentar-me
assim por causa de semelhante morta;  que no sabem o que eu
fiz sofrer a essa mulher como fui cruel, como ela foi boa e
resignada! Julgava eu que s a mim cabia perdoar, e acho-me
hoje indigno do perdo que ela me concede. oh! Daria dez anos
da minha vida para chorar uma hora a seus ps.
:1  sempre difcil consolar uma dor que se no conhece, e
contudo eu sentia to viva simpatia por

51
aquele rapaz, ele fazia de mim com tanta franqueza o
confidente do seu desgosto, que julguei que a minha palavra
lhe no seria indiferente, e disse-lhe:
--No tem parentes, no tem amigos? No desespere, v v-los,
e eles o consolaro, porque eu apenas posso lament-lo.
--E justo--disse ele, levantando-se e passeando a passos
largos no meu quarto--, estou a aborrec-lo. Desculpe-me, no
me lembrava que lhe deve ser indiferente a minha dor e que o
estou a importunar com coisas que no podem nem devem
interessar-lhe.
--Engana-se no sentido que d s minhas palavras. Estou
inteiramente ao seu dispor; lamento apenas no poder acalmar o
seu desgosto. Se a minha companhia e a dos meus amigos o podem
distrair, se, numa palavra, precisa de mim seja para o que
for, quero que saiba o gosto imenso que terei em Lhe ser
agradvel.
--Perdo, perdo--disse-me ele--, a dor exagera as sensaes.
Deixe-me ficar ainda alguns minutos, d-me tempo de enxugar as
lgrimas, para que os basbaques da rua no olhem para este
rapazola a chorar como se olha para uma curiosidade. Acaba de
me fazer o mais feliz possvel dando-me este livro. nunca
saberei como agradecer o que lhe devo.
--Concedendo-me um pouco da sua amizade, dizendo-me a causa do
seu desgosto. A gente consola-se contando o que padece.
--Tem razo; mas hoje preciso tanto de chorar, que s lhe
diria palavras sem nexo. Um dia lhe contarei esta histria, e
ver se tenho ou no razo para chorar por esta pobre
rapariga. E agora--acrescentou, esfregando pela ltima vez os
olhos e vendo-se ao espelho--diga-me que me no acha parvo de
mais e permita-me que torne a visit-lo.
os olhos daquele rapaz reflectiam tanta bondade
e meiguice, que tive vontade de o abraar. Tornaram, porm, a
arrasar-se de lgrimas e, ao perceber que eu reparava, ele
desviou a vista.
--Vamos!--aconselhei eu.--Coragem!
--Adeus!--disse ele ento.
E, fazendo um esforo inaudito para no chorar mais pareceu
evadir-se do que sair de minha casa.
Ergui a cortina da minha janela e vi-o subir para o cartolet
que o esperava  porta; mas apenas entrou, desfez-se em
lgrimas e escondeu a cara no leno.
Captulo V


Muito tempo passou sem ouvir falar de Armando, mas, em
compensao, vrias vezes me falaram de Margarida.
Como decerto j repararam, basta que o nome de uma pessoa que
devia ser-nos sempre desconhecida ou indiferente se pronuncie
uma vez diante de ns, para que logo saibamos alguma coisa a
seu respeito, e todos os amigos nos contem factos a que antes
nunca se tinham referido.
Descobrimos ento que essa pessoa quase nos pertencia,
apercebemo-nos de que passou muitas vezes na nossa vida sem
que dssemos por isso; e encontramos, nos factos que nos
referem, coincidncias, afinidades reais com determinados
acontecimentos da nossa prpria existncia. No estava eu
positivamente nesse caso com Margarida, porque a tinha visto e
encontrado, conhecia o seu rosto e os seus hbitos; contudo,
depois desse leilo, o seu nome soara to frequentemente aos
meus ouvidos, e nas circunstncias que narrei no ltimo
captulo, ligava-se esse nome a um desgosto to profundo, que
o meu espanto crescera aumentando-me a curiosidade.
Da resultara que eu j me no encontrava com os meus amigos,
a quem nunca falara de Margarida, sem Lhe dizer:
--Conheceram uma rapariga chamada Margarida Gautier?
--A Dama das Camlias ?
--Justamente.
--Muito !
Esses "muito" eram s vezes acompanhados de sorrisos que no
deixavam a menor dvida acerca da sua significao.
--o que era essa rapariga, afinal?--continuava eu.
--Uma boa rapariga.
--Mais nada?
--oh! meu Deus, tinha talvez mais algum esprito e mais um
bocadinho de corao do que as outras.
--E nada sabem de particular a seu respeito?
--Arruinou o baro de G...
--S isso?
--Foi amante do velho duque de. . .
--Era, realmente, sua amante?
--Dizem; ele, em todo o caso, dava-lhe muito dinheiro.
Sempre as mesmas generalidades.
Contudo eu tinha curiosidade de saber alguma coisa a respeito
da ligao de Margarida e de Armando.
Encontrei um dia um daqueles que vivem continuamente na
intimidade das mulheres conhecidas. Interroguei-o.
--Conheceste Margarida Gautier?
Respondeu-me com o mesmo muito.
--Que era ela?
--Uma bonita e excelente rapariga. Tive imensa pena quando
soube da sua morte.
--No teve um amante chamado Armando Duval?
--Um rapaz alto e louro?
--Sim.
--Teve.
--E esse Armando o que vinha a ser?
--Um rapaz que comeu com Margarida o pouco que tinha, creio, e
que se viu obrigado a deix-la. Dizem que era doido por ela.
--E ela?
--Tambm o amava multo, segundo consta, mas como estas
raparigas costumam amar. No se lhes deve pedir mais do que o
que elas podem dar.

--Que foi feito do Armando?
--No sei. Conhecemo-lo muito pouco. Esteve cinco ou seis
meses com Margarida, mas no campo Quando ela voltou, ele
partiu.
--E nunca mais o tornaste a ver?
--Nunca.
Tambm eu no voltara a ver Armando. Chegara a perguntar a mim
prprio se, quando se apresentara em minha casa, por ocasio
da recente morte de Margarida, no exagerara o seu amor de
outrora e, por conseguinte, a sua dor, e dizia comigo que
talvez j houvesse esquecido a morta e juntamente com ela a
promessa que me fizera de uma segunda visita.
Essa suposio seria bastante verosmil a respeito de outro
qualquer, mas no desespero de Armando eu vira notas sinceras,
e, passando de um extremo a outro, imaginei que o desgosto se
transformara em doena; se eu no tinha notcias dele, era
porque estava doente ou at talvez j no pertencesse ao
nmero dos vivos.
Involuntariamente, interessava-me por esse rapaz. Talvez
houvesse nesse interesse um certo egosmo; talvez eu tivesse
entrevisto por baixo dessa dor uma tocante histria de
corao; talvez, enfim, o meu desejo de a conhecer
contribusse muito para o cuidado que me inspirava o silncio de Armando. Como Duval no
voltava a minha casa, resolvi ir procur-lo. No era difcil
de encontrar um pretexto; infelizmente no sabia onde morava,
e nenhuma das pessoas que eu interrogara mo pudera dizer.
Fui  Rua d'Antin. Talvez o porteiro de Margarida soubesse
onde morava Armando.
Era um porteiro novo. Tal como eu, desconhecia a morada do
rapaz. Informei-me ento em que cemitrio fora enterrada
Margarida Gautier, e soube que o seu corpo repousava no
Montmartre.
Raiara Abril e estava um tempo lindo, os tmulos j no deviam
ter esse aspecto doloroso e desolado que lhes d o Inverno. o
calor era j bastante para que os vivos se lembrassem dos
mortos e os visitassem. Fui ao cemitrio, dizendo comigo:
"Bastar que eu olhe para o tmulo de Margarida para ver se a
dor de Armando ainda subsiste, e talvez saiba ento o que 
feito dele. "
Entrei na casa do guarda e perguntei-lhe se no dia 22 do ms
de Fevereiro uma mulher chamada Margarida Gautier fora
enterrada no cemitrio Montmartre.
o homem folheou um livro volumoso, onde esto inscritos e
numerados todos os que entram nesse ltimo asilo, e
respondeu-me que efectivamente, no dia 22, ao meio-dia, uma
mulher desse nome ali fora enterrada.
Pedi-lhe que mandasse algum conduzir-me ao tmulo, pois no
h meio de a gente dar com o que procura nessa cidade dos
mortos que tem as suas ruas como a cidade dos vivos. o guarda
chamou um jardineiro a quem deu as indicaes necessrias e
que o interrompeu, dizendo:
--Bem sei... bem sei. oh! o tmulo  fcil de
conhecer!--continuou, virando-se para mim.
--Porqu?--perguntei-lhe.
--Porque tem flores muito diferentes das outras.
--Voc  que cuida do tmulo?
--Sou, sim, senhor, e bem desejava que todos os parentes

cuidassem dos seus defuntos como o rapaz que me recomendou
esta campa.
Depois de dar algumas voltas, o jardineiro parou e disse-me:
--C estamos.
Efectivamente achava-me diante de um canteiro de flores que
ningum diria ser um tmulo, se o no afirmasse um branco
mrmore com um nome inscrito.
o mrmore achava-se colocado em posio vertical, um
gradeamento de ferro limitava o terreno comprado, e esse
terreno estava coberto de camlias brancas.
--Que diz a isto?--perguntou o jardineiro.
--1  muito bonito.
--E sempre que uma camlia murcha tenho ordem de a renovar.
--E quem lhe deu essa ordem?
--Um rapaz que chorou bastante a primeira vez que aqui veio;
amigalhote da defunta, sem dvida, pois parece que era uma
pecadora, e bem bonita, segundo dizem. o senhor conheceu-a?
--Conheci.
--Como o outro--disse o jardineiro, com um riso malicioso.
--No, nunca lhe falei.
--E vem v-la; isso  que  muito bonito da sua parte, pois os
que vm visitar a pobre rapariga no enchem o cemitrio.
--No vem ningum?
--Ningum, a no ser uma vez aquele rapaz.
--S uma vez?
--Sim, senhor.
--E no voltou mais ?
--No, mas voltar quando regressar.
--Ento saiu em viagem?
--Sim, senhor.
--E sabe aonde ele foi?
--Parece-me que foi a casa da irma da menina Gautier.
--Fazer o qu ?
--Pedir autorizao para mandar desenterrar a morta e
traslad-la para outro stio.
--Porque a no deixa ele aqui?
--o senhor bem sabe que h sempre umas ideias em relao aos
mortos. Ns c estamos a ver isto todos os dias. Este terreno
foi comprado apenas por cinco anos, e o tal rapaz quer uma
concesso perptua e um terreno maior; fica muito melhor na
parte nova.
--A que  que chama parte nova?
--Aos terrenos que esto a vender-se,  esquerda. Se o
cemitrio tivesse sido sempre tratado como agora, no existia
igual no mundo; mas ainda h muito que fazer para que esteja
como deve estar. Depois h gente to ratona!
--Que quer voc dizer com isso?
--Quero dizer que h pessoas que tm uma soberba que  uma
coisa por demais. Assim, esta menina Gautier parece que andou
na pandega, perdoe a expresso. Agora a pobre rapariga est
morta e resta dela o mesmo que daquelas de quem no h nada a
dizer e que ns regamos todos os dias; pois olhe, quando os
parentes das pessoas enterradas ao seu lado souberam da pessoa
de que se tratava, no se lhes encasquetou na cabea dizerem
que se oporiam a que a pusessem aqui, e que devia haver
terrenos  parte para estas mulheres como para os
pobres? Viu-se j uma coisa assim? Eu passei-lhes uma
descompostura! ora imagine; uns ricaos que vm visitar os

seus defuntos quatro vezes por ano, que trazem eles mesmos as
flores... e veja o senhor que flores!... que olham  despesa
feita com aqueles que dizem chorar, que estampam nos tmulos
lgrimas que eles nunca derramaram, e que fazem questo com a
vizinhana! Talvez o senhor no acredite, mas sempre lhe direi
que no conheci esta rapariga, no sei o que ela fez, mas
tenho afeio  pobre pequena, cuido dela, e levo pelas
camlias apenas o seu justo valor. 1  a minha defunta
predilecta. No h remdio seno termos c a nossa afeio aos
mortos, porque o trabalho  tanto, que mal temos tempo de
criar outras afeies.
Eu olhava para esse homem, e alguns dos meus leitores
percebero, sem que eu precise explicar-lhes, a comoo que
senti ao ouvi-lo.
Ele reparou nisso decerto, porque continuou:
--Dizem que havia homens que se arruinavam por esta rapariga,
e que ela tinha amantes que a adoravam. Pois muito bem! Quando
me lembro de que no h nem um que lhe venha aqui comprar uma
flor, acho isto curioso e triste. E ainda assim esta no tem
razo de queixa, pois sempre tem o seu tmulo, e se h um s
que se lembre dela, esse ao menos paga pelos outros. Mas
temos aqui muitas raparigas do mesmo gnero e da mesma idade
que se atiram para a vala comum, e olhe que me rasga o corao
ouvir cair os seus pobres corpinhos na terra. E no h uma s
criatura que se lembre delas, depois de morrerem. Este nosso
ofcio no  l dos mais alegres, principalmente quando se tem
um bocadinho de corao. Ento que quer? Este sentimento 
mais forte do que eu. Tenho uma filha de vinte anos, e quando
aparece aqui alguma da sua idade, lembro
-me dela e aflijo-me, quer a morta seja uma fidalga, quer seja
uma vadia. Mas eu estou a ma-lo com as minhas histrias, e
no veio c decerto para as ouvir. Disse-me que o trouxesse ao
tmulo da menina Gautier, trouxe-o; h alguma coisa mais em
que lhe possa ser prestvel?
--Sabe onde mora o Sr. Armando Duval?
--Sei, mora na Rua de... pelo menos a  que eu tenho ido
buscar o dinheiro das flores.
--obrigado, meu amigo.
Deitei um ltimo olhar a esse tmulo florido, cujas
profundidades eu desejaria sondar para ver o que a terra
fizera da formosa criatura que lhe confiaram, e afastei-me com
tristeza.
--o senhor quer falar ao Sr. Duval?--tornou o jardineiro, que
ia ao meu lado.
--Quero.
--1  que estou certssimo de que ele ainda no voltou, de
contrrio j c tinha vindo.
--Ento acredita que Armando se no esqueceu de Margarida?
--No s acredito, como apostaria que deseja traslad-la
apenas com o fim de tornar a v-la.
--Como assim?
--A primeira coisa que ele me disse quando veio ao cemitrio
foi: "Que hei-de eu fazer para voltar a v-la?" S podia
conseguir o seu objectivo trasladando-a, e informei-o acerca
de todas as formalidades que tinha de preencher para o efeito.
Como sabe, para passar os mortos de um tmulo para outro 
necessrio reconhec-los, e s a famlia pode autorizar essa
operao a que tem de presidir um comissrio da Polcia. Para

obter essa autorizao  que o Sr. Duval foi a casa da irma da
menina Gautier, e a sua primeira visita, evidentemente, h-de
ser ao cemitrio.

b
Tnhamos chegado  porta; agradeci de novo ao jardineiro,
metendo-lhe algumas moedas na mo, e dirigi-me  casa que ele
me indicara.
Armando no voltara ainda.
Deixei-lhe duas linhas escritas, pedindo-lhe que fosse ter
comigo apenas chegasse, ou que me dissesse onde o poderia
encontrar.
No dia seguinte, pela manha, recebi uma carta de Armando
Duval. Informava-me do seu regresso e pedia-me que passasse
por sua casa, acrescentando que estava to fatigado, que lhe
era impossvel sair.

Captulo VI

Fui encontrar Armando de cama.
Ao ver-me, estendeu-me a sua mo ardente.
--Est com febre--disse-lhe eu.
--No  nada, a fadiga de uma viagem rpida, simplesmente.
--Vem de casa da irma de Margarida?
--Venho. Quem lho disse?
--Sei-o. E conseguiu o que desejava?
--Consegui; mas quem o informou da minha viagem e do fim que
ela tinha?
--o jardineiro do cemitrio
--Viu o tmulo?
Quase me no atrevi a responder. o tom dessa frase provava-me
que quem o proferira continuava sob a emoo que eu
presenciara e que por muito tempo ainda esse sentimento
atraioaria a sua vontade, sempre que o seu pensamento ou a
palavra de outro lhe recordasse de novo to doloroso assunto.
Limitei-me, pois, a responder com um sinal de cabea.
--Est bem tratado?--perguntou Armando.
Duas grossas lgrimas deslizaram pelas faces do doente, que
desviou a cabea para mas esconder. Fingi que as no via e
procurei mudar de conversa.
--  trs semanas saiu de Paris-- disse-lhe ela
Armando passou a mo pelos olhos e respondeu-me:
--Trs semanas certas.
--Fez uma longa viagem.
--oh! No levei este tempo todo a viajar; estive doente quinze
dias, seno j teria regressado h muito; mas, apenas cheguei
 aldeia, vi-me obrigado a ficar de cama, com um ataque de
febre.
--E voltou para Paris sem estar bem curado.
--Se me demorasse mais oito dias naquela terra, j tinha
morrido.
--Mas agora, que est de volta, deve tratar-se; os seus amigos
viro v-lo, e serei eu o primeiro, se mo
permitir.
--Levanto-me daqui a duas horas.
--Isso  uma imprudncia.
--No pode deixar de ser.
--Que negcio tem assim to urgente?

--Preciso de ir a casa do comissrio da Polcia.
--Porque no encarrega outra pessoa dessa misso que o pode
fazer piorar?
-- a nica coisa capaz de me pr bom. Preciso de v-la. Logo
que  soube da sua morte, e sobretudo desde que  ,-i o seu
tmulo, deixei de dormir. No posso imaginar que esteja morta
uma mulher que eu deixei to nova e to bonita. Preciso de me
certificar com os meus prprios olhos. Quero ver o que fez
Deus desse ente que eu tanto amei, e talvez a repugnncia do
espectculo substitua o desespero da recordao. Acompanha-me,
sim? Se lhe no custa
muito.
--Que lhe disse a irma?
--No me disse nada. Fez-lhe muito espanto ir um estranho
comprar um terreno e mandar fazer um tmulo para Margarida, e
assinou imediatamente a autorizao que eu lhe pedia.
--Faa o que eu lhe digo; espere que esteja curado para
proceder  trasladao.
--Descanse, que no ho-de faltar-me as foras. Demais, eu
endoidecia se no levasse a cabo o mais depressa possvel esta
resoluo, cujo cumprimento se tornou uma necessidade da minha
dor. Juro-lhe que s poderei sossegar depois de ver Margarida.
Talvez seja uma sede da febre que me queima, um sonho das
minhas insnias, um resultado do meu delrio; mas embora
tenha, depois, de me fazer trapista como o Sr. de Ranc,
hei-de v-la.
--Percebo isso--disse eu a Armando Duval--e estou s suas
ordens; j viu a Jlia Duprat?
--oh! Vi-a logo que cheguei a Paris.
--Ela entregou-lhe os papis que Margarida lhe deixara?
--Aqui esto eles.
Armando tirou um rolo de papis de sob o travesseiro, e tornou
a met-lo l imediatamente.
--Sei de cor o que esses papis dizem. H trs semanas que os
releio dez vezes por dia. H-de l-los tambm, mas daqui a
mais tempo, quando eu estiver mais sossegado e puder fazer-lhe
perceber a alma e o corao que esta confisso revela. Agora
tenho um obsquio a pedir-lhe.
--Diga.
--Tem l em baixo alguma carruagem?
--Tenho.
--Quer ento fazer-me o favor de pegar no meu passaporte e ir
ao correio saber se h alguma carta para mim? Meu pai e minha
irma decerto escreveram-me para Paris, mas nem tive tempo de
procurar a correspondncia, tal a precipitao com que parti.
Quando voltar, iremos ambos prevenir o comissrio da Polcia
de que a cerimnia se processar
amanha.
Armando entregou-me o seu passaporte e dirigi-me  Rua J. J.
Rousseau.
Havia duas cartas dirigidas a Duval. Recebi-as e voltei.
Quando reapareci, j Armando estava vestido e pronto para
sair.
--obrigado!--disse-me, pegando nas duas
cartas.--Sim--acrescentou depois de olhar para os
sobrescritos--, sim, so de meu pai e de minha irma. Devia
causar-lhes a maior estranheza o meu silncio.
Abriu as cartas e mais as adivinhou do que as leu, pois eram

de quatro pginas cada uma, e ele dobrou-as da a poucos
instantes.
--Vamos--disse ele.--Respondo amanha.
Fomos  casa do comissrio da Polcia, a quem Armando entregou
a procurao da irma de Margarida.
o comissrio deu-lhe em troca um aviso para o guarda do
cemitrio; combinou-se que a trasladao se realizaria no dia
seguinte, s dez horas da manha, que eu iria buscar Armando
uma hora antes e que seguiramos juntos para o cemitrio.
Confesso que tambm tinha curiosidade de assistir a esse
espectculo e que nessa noite no dormi.
A avaliar pelos pensamentos que me perturbavam, a noite devia
parecer interminvel a Armando.
Quando entrei no dia seguinte s nove horas em casa dele,
estava horrivelmente plido, mas parecia calmo.
Sorriu-se para mim e estendeu-me a mo.
As suas velas tinham ardido todas, e, antes de sair, Armando
pegou numa carta muito volumosa, dirigida a seu pai e
confidente, sem dvida, das impresses da noite.
Meia hora depois chegvamos a Montmartre.
o comissrio j nos esperava.
Encaminhmo-nos lentamente para o tmulo de Margarida. o
comissrio ia adiante, eu e Armando seguamo-lo a alguns
passos.
De vez em quando sentia estremecer o brao do meu companheiro,
como se de sbito um calafrio lhe percorresse o corpo. olhava
ento para ele; Armando percebia o meu olhar e sorria-me, mas,
desde que saramos de casa, no havamos trocado uma nica
palavra.
Um pouco antes de chegar ao tmulo, Armando parou para enxugar
o rosto inundado por grossas bagas de suor.
Aproveitei-me desta paragem para respirar, pois tambm eu
tinha o corao comprimido, como se mo apertasse uma turqus.
Donde vem o poderoso prazer que sentimos nestes espectculos?
Quando chegmos ao tmulo, j o jardineiro tirara todos os
vasos de flores e o gradeamento de ferro e dois homens cavavam
a terra.
Armando encostou-se a uma rvore e olhou. Parecia que toda a
sua vida se lhe concentrava nos olhos.
De sbito uma das duas enxadas rangeu ao bater numa pedra.
ouvindo este rudo, Armando recuou como se sentisse uma
comoo elctrica e apertou-me a mo com tanta fora, que me
magoou.
Um coveiro pegou numa larga p e despejou a cova a pouco e
pouco. Depois, quando s ficaram as pedras com que se cobre o
caixo, atirou-as para longe uma a uma.
Eu observava Armando, pois receava a cada minuto que as
sensaes, que visivelmente concentrava, o despedaassem; mas
ele continuava com os olhos fitos e muito abertos como um
louco, e s um ligeiro
tremor nas faces e nos lbios provava que estava prestes a
sofrer violenta crise nervosa.
Por mim, s posso dizer uma coisa: que lamentava deveras ter
ido.
Quando o caixo ficou completamente a descoberto, o comissrio
disse aos coveiros:
--Abram.
os homens obedeceram, como se fosse a coisa mais fcil deste

mundo.
o caixo era de carvalho, e eles puseram-se a desaparafusar a
parte superior que servia de tampa. A humidade da terra
enferrujara os parafusos, e no foi sem esforo que se abriu o
caixo. Exalou-se logo um cheiro infecto, apesar das plantas
aromticas com que estava ornamentado.
--oh! meu Deus! meu Deus!--murmurou Armando. E ainda
empalideceu mais.
os prprios coveiros recuaram.
Uma grande mortalha branca envolvia o cadver de que desenhava
algumas sinuosidades. Essa mortalha estava quase completamente
comida numa das pontas e deixava passar um p da morta.
Eu ia perdendo os sentidos, e no momento em que escrevo estas
linhas, a lembrana da cena ainda me aparece na sua imponente
realidade.
--No nos demoremos!--disse o comissrio.
Ento um dos dois homens estendeu a mo, ps-se a descoser a
mortalha e, pegando-lhe pelas pontas, descobriu bruscamente o
rosto de Margarida.
Era terrvel de ver, e  horrvel de contar.
os olhos no eram j seno dois buracos, os lbios tinham
desaparecido e os dentes brancos estavam fincados uns nos
outros. os longos cabelos muito negros e secos achavam-se
colados s fontes e velavam um pouco as verdes cavidades das
faces; apesar disso, eu reconheci, naquele rosto, o rosto branco e alegre
que tantas vezes vira.
Armando, sem poder desviar os olhos dele e levando o leno 
boca, mordia-o.
A mim pareceu-me que um crculo de ferro me apertava a cabea,
um vu cobriu-me os olhos, os ouvidos zumbiram-me e o mais que
pude fazer foi abrir um frasquinho que trouxera  cautela e
respirar fortemente os sais que ele encerrava.
No meio desse estonteamento, ouvi o comissrio dizer a Armando
Duval:
--Reconhece?
--Reconheo--respondeu surdamente o rapaz.
--Ento fechem e levem--ordenou o funcionrio policial.
os coveiros atiraram a mortalha para cima do rosto da morta e
fecharam o caixo; pegaram-lhe cada um por seu lado e
dirigiram-se para o stio que lhes fora designado.
Armando ficara imvel. o seu olhar conservava-se pregado
naquela cova vazia; estava plido como aquele o cadver que
acabvamos de ver. Dir-se-ia petrificado.
Percebi o que ia suceder quando a dor diminusse com a
ausncia do espectculo, e por conseguinte deixasse de o
conter.
Aproximei-me do comissrio.
--A presena deste senhor--perguntei-lhe eu, apontando para
Armando-- necessria ainda?
--No--tornou-me ele--, e at lhe aconselho que o leve, porque
me parece doente.
--Venha!--disse ento a Armando, dando-lhe o brao.
--Que ?--inquiriu, olhando para mim como se no me
conhecesse.
--Acabou--acrescentei eu--, vamos embora,
meu amigo. Est plido, tem frio, d cabo de si com estas
comoes.

--Tem razo, vamos l--respondeu maquinalmente, mas sem dar um
passo.
Ento agarrei-lhe no brao e arrastei-o comigo.
Deixava-se levar como uma criana, murmurando apenas de
quando em quando:
--Viu os olhos?
E voltava-se como se essa viso o chamasse.
o seu andar, contudo, passou a ser sacudido; parecia avanar
s aos repeles; os dentes batiam uns nos outros, as mos
estavam frias, apoderava-se de todo o seu corpo uma violenta
agitao nervosa.
Falei-lhe, no me respondeu.
Tudo o que podia fazer era deixar-se levar.
A porta encontrmos uma carruagem; j era tempo.
Apenas se sentou, aumentou-lhe o calafrio e teve um verdadeiro
ataque de nervos, no meio do qual, com receio de me assustar,
murmurava, apertando-me a mo:
--No  nada! No  nada! o que eu queria era chorar.
E eu sentia que o seu peito se entumescia, que o sangue lhe
aflua aos olhos, mas que as lgrimas no saam.
Fiz-lhe respirar o frasquinho de sais que trouxera e quando
chegmos a casa dele s o calafrio se manifestava ainda.
Com auxlio do criado deitei-o. Mandei acender um lume
fortssimo no seu quarto e corri a chamar o meu mdico, a quem
contei o que acabava de se passar.
Veio imediatamente.
Armando estava vermelho, delirante, e balbuciava
palavras sem nexo, das quais s o nome de Margarida se ouvia
distintamente.
--Ento?--perguntei ao mdico, logo que ele examinou o doente.
--Tem uma febre cerebral, nem mais nem menos, e  uma
felicidade, pois me parece, Deus me perdoe, que ele estava
quase a enlouquecer. Felizmente a doena fsica h-de vencer a
doena moral, e daqui a um ms, provavelmente, estar curado.

Captulo VII

As doenas como a que atacara Armando tm uma coisa boa: ou
matam depressa, ou se vencem tambm rapidamente.
Quinze dias depois dos acontecimentos que acabo de contar,
Armando entrara em franca convalescena, e estvamos ligados
um ao outro por estreita amizade. Eu quase que no sara do
seu quarto durante todo o tempo da doena.
A Primavera espalhava com profuso as suas flores, as suas
folhas, as suas aves e as suas canes, e a janela do meu
amigo abria-se alegremente para o jardim, cujas saudveis
exalaes o vinham acariciar.
o mdico permitira que ele se levantasse e ficvamos muitas
vezes a conversar sentados ao p da janela aberta,  hora em
que o sol est mais quente, do meio-dia s duas.
Nem por sombras lhe falava em Margarida, receando sempre que
esse nome despertasse uma triste recordao adormecida debaixo
da aparente serenidade do enfermo; mas Armando, pelo
contrrio, parecia ter gosto em falar dela, no j como
outrora, com as lgrimas nos olhos, mas com um meigo sorriso
que me tranquilizava acerca do estado da sua alma.
Eu j notara que desde a sua ltima visita ao cemitrio, depois do espectculo que lhe provocara aquela crise

violenta, dir-se-ia que a doena fizera trasbordar a medida da
dor moral e que a morte de Margarida j lhe no aparecia com o
aspecto do passado. Da certeza adquirida resultara uma espcie
de consolao, e para expulsar a sombria imagem que muitas
vezes se lhe representava, mergulhava nas lembranas felizes
da sua ligao com Margarida, e parecia no querer j aceitar
outras.
o corpo estava demasiado exausto devido ao acesso e at  cura
da febre para permitir ao esprito uma comoo violenta, e a
alegria primaveril e universal que rodeava Armando, levava o
seu pensamento, sem ele querer, para as imagens risonhas.
Sempre se recusara obstinadamente a informar sua famlia do
perigo que correra, e, quando j estava salvo, ainda seu pai
ignorava a sua doena.
Uma tarde tnhamo-nos demorado  janela mais tempo que de
costume; o tempo estivera magnfico e o sol adormecia num
crepsculo brilhante de azul e ouro. Apesar de nos
encontrarmos em Paris, a verdura que nos cercava parecia
isolar-nos do mundo, e s de quando em quando a bulha de
alguma carruagem perturbava a nossa conversa.
--Foi pouco mais ou menos nesta poca do ano, e na noite que
se seguiu a um dia como este, que conheci Margarida --disse
Armando, escutando os seus prprios pensamentos e no as
palavras que eu lhe dirigia.
No respondi.
Ento voltou-se para mim e disse:
--olhe que quero contar-lhe esta histria; far com ela um
livro em que ningum acreditar, mas que talvez seja
interessante fazer.
--Contar-me- isso mais tarde, meu amigo--tornei-lhe--, depois
de completamente restabelecido.
--A tarde est quente, j comi o meu peito de
galinha--declarou ele, sorrindo--; a febre desapareceu, no
temos que fazer, vou contar-lhe tudo.
--J que assim o quer, escuto.
--1  uma histria muito simples--acrescentou ele, ento--e que
eu lhe contarei seguindo a ordem dos acontecimentos. Se fizer
com isto algum livro, conte-a como quiser.
Eis o que ele me disse, e  sua tocante narrativa quase me
limitei a mudar algumas palavras.

--Sim--tornou Armando, deixando cair a cabea para o espaldar
da sua poltrona--, sim, era por uma tarde como esta! Eu
passara o dia no campo com um dos meus amigos, Gasto R... Ao
cair da noite regressmos a Paris, e, no sabendo o que
havamos de fazer, tnhamos entrado no Teatro das Variedades.
No intervalo samos, e no corredor vimos passar uma mulher
alta que o meu amigo cumprimentou.
--Quem foi que tu cumprimentaste?--perguntei-lhe.
--Margarida Gautier--respondeu.
--Parece-me muito mudada porque a no reconheci--disse com uma
comoo que depois percebera.
--Esteve doente. A pobre rapariga no h-de durar muito.
Lembro-me destas palavras como se mas tivesse dito ontem.
1  preciso que saiba, meu amigo, que havia dois anos que o
aspecto dessa rapariga, quando a encontrava, me causava uma
impresso estranha.
Sem que soubesse porqu, eu empalidecia e o corao batia-me

com violncia. H um amigo meu que se ocupa de cincias
ocultas e que chamaria ao que eu sentia a afinidade dos
fluidos; simplesmente creio que era meu destino apaixonar-me
por Margarida e que j o pressentia.
A verdade  que aquela rapariga me causava uma impresso real,
que vrios dos meus amigos disso haviam sido testemunhas e
rido muito ao reconhecerem donde me vinha essa impresso.
A primeira vez que a vira fora na Praa da Bolsa,  porta de
Susse. Estava ali parada uma cabea descoberta, donde se
apeara uma mulher vestida de branco. Acolhera-a um murmrio de
admirao  sua entrada na loja. Eu fiquei pregado no stio
onde estava, desde que ela entrou at que saiu. Atravs das
vidraas, vi-a escolher na loja o que l ia comprar. Eu podia
entrar, mas no me atrevia. No sabia quem era aquela mulher e
receava que adivinhasse a causa da minha entrada na loja e com
isso se ofendesse. Contudo no acreditava na dita de tornar a
v-la.
Achava-se elegantemente ataviada: trazia um vestido de
musselina com muitos folhos, um xaile da ndia, quadrado, com
os cantos bordados a ouro e a flores de seda, um chapu de
palha de Itlia e um nico bracelete--grossa cadeia de ouro,
que principiava a estar em moda nessa poca.
Subiu para a calea e partiu.
Um dos caixeiros da loja ficou  porta, seguindo com o olhar a
carruagem da elegante compradora. Aproximei-me dele e pedi-lhe
que me dissesse o nome daquela mulher.
--1  a menina Margarida Gautier--respondeu-me.
No me atrevi a perguntar-lhe onde morava e afastei-me.
No me fugiu do esprito a lembrana daquela viso--porque era
uma verdadeira viso--como
me tinham fugido tantas outras que eu j tivera, e procurava
por toda a parte aquela branca mulher to regiamente formosa.
Da a dias houve uma grande representao na ( pera Cmica. A
primeira pessoa que vi num camarote de proscnio foi Margarida
Gautier.
o rapaz com quem eu estava tambm a reconheceu, porque me
disse, indicando-a:
--olha para aquela linda rapariga.
Naquele momento, Margarida deitava o binculo para o nosso
lado; viu o meu amigo, sorriu-se para ele e fez-lhe sinal para
que a fosse visitar.
--Vou dar-lhe ao boas-noites--disse-me ele-e j volto.
No pude deixar de lhe dizer:
--l s bem feliz.
--Porqu?
--Porque vais falar a essa mulher.
--Ests apaixonado por ela?
--No--repliquei, corando, pois no sabia verdadeiramente o
que havia de pensar a esse respeito--; mas desejava
conhec-la.
--Vem comigo que eu apresento-te.
--Pede-lhe primeiro licena.
--oh! No  preciso fazer cerimnia com ela; vem da.
o que ele dizia fazia-me pena. Estava receoso de adquirir a
certeza de que Margarida no merecia o que eu experimentava
por ela.
H num livro de Alphonse Karr, intitulado Am Rauchen, um homem
que segue  noite uma mulher elegantssima e por quem 

primeira vista se apaixonou, to bonita lhe pareceu. Para
beijar a mo dessa mulher, sente-se com fora de tudo
empreender, vontade para tudo conquistar, coragem para fazer
seja o que for. Quase se no atreve a olhar para a nesga da
perna airosa que ela descobre para no macular o vestido com o
contacto da terra. Enquanto o homem cisma em tudo o que faria
para possuir essa mulher, ela pra  esquina de uma rua, 
porta de uma casa, e pergunta-lhe se quer subir.
Ele baixa a cabea, atravessa a rua e vai-se embora muito
triste.
Lembrava-me deste episdio, e eu, que ansiava sofrer por
aquela mulher, receava que ela me aceitasse desde logo e me
desse prontamente um amor que eu desejaria pagar com uma longa
espera ou com um grande sacrifcio. Somos assim, ns os
homens; e bom  que a imaginao deixe aos sentidos essa
poesia e que os desejos do corpo faam tais concesses aos
sonhos da alma.
Enfim, se me dissessem: "Hs-de possuir essa mulher esta noite
e ser morto amanha", eu aceitava. Se me dissessem: "D dez
luses e sers seu amante", eu recusava e chorava, como uma
criana que v desvanecer-se ao acordar o castelo entrevisto
durante a noite.
Contudo, queria conhec-la, era um meio, e talvez o nico, de
saber o que havia de pensar a seu respeito.
Disse, pois, ao meu amigo que fazia empenho em que ela lhe
desse licena para me apresentar; e andei pelos corredores,
pensando que no tardaria a receber-me, e eu no saberia o
modo como havia de afrontar os seus olhos.
Procurava ligar antecipadamente as palavras que havia de
dizer-lhe.
Que sublime criancice  o amor!
Um instante depois apareceu o meu amigo.
--Espera-nos--disse-me ele.
--Est sozinha?--perguntei.
--Tem l outra mulher.
--No esto homens?
--No.
--Vamos. o meu amigo dirigiu-se para a porta do teatro.
--No  por a--observei.
--Vamos buscar doces, que ela pediu-mos.
Entrmos numa confeitaria mesmo junto da C pera.
A minha vontade era comprar a loja toda, e estava j a cismar
como havia de organizar um presente bom, quando o meu amigo
pediu:
--Um quarto de uvas cristalizadas.
--Sabes se ela gosta?
--No come outro doce, todos ns sabemos.
--Ah! --continuou ele, quando samos.--Sabes a que mulher eu
te apresento? No imagines que  duquesa,  simplesmente uma
pecadora, o mais pecadora que se pode ser, meu caro amigo; no
faas cerimnia, diz tudo o que te vier  cabea.
--Bem, bem--balbuciei eu, seguindo-o e dizendo comigo que ia
curar-me da minha paixo.
Quando entrei no camarote, Margarida ria s gargalhadas.
Preferia que ela estivesse triste.
o meu amigo apresentou-me. Margarida inclinou ligeiramente a
cabea e disse:
--os meus doces?

--Aqui esto.
Pegou no saquinho e olhou para mim. Baixei os olhos e corei.
Margarida inclinou-se para o ouvido da sua vizinha, disse-lhe
algumas palavras em voz baixa e ambas desataram a rir.
Era eu, sem dvida, a causa daquela hilaridade, e com isso
redobrou o meu enleio. Nessa poca tinha por amante uma
burguesinha, muito terna e sentimental, cujo afecto e cujas cartas melanclicas me faziam rir.
Pelo que agora se passava comigo compreendi quanto decerto a
magoara, e durante cinco minutos amei-a como nunca se amou uma
mulher.
Margarida comia as suas uvas sem se importar comigo.
o meu companheiro no quis deixar-me nessa posio ridcula.
--Margarida--disse ele--, no se espante de o Sr. Duval no
lhe dirigir a palavra; transtornou-lhe to completamente a
cabea, que no encontra termos para exprimir a impresso que
recebeu.
--o que me parece, meu amigo,  que trouxe c este senhor,
para no vir sozinho.
--Se assim fosse--acudi eu ento--, no teria instado com
Ernesto para que lhe pedisse licena para me apresentar.
--Talvez no fosse seno um meio de demorar o momento fatal.
No  necessria longa convivncia com as mulheres do gnero
de Margarida para se saber que tm gosto em dizer sensaborias
e em chacotear com as pessoas que vem pela primeira vez. 
sem dvida uma desforra das humilhaes que frequentemente
lhes infligem os que elas vem todos os dias.
Por isso, para lhes responder  necessrio estar um pouco
habituado  sua sociedade, o que no acontecia comigo. Depois,
a ideia que eu tivera de Margarida fazia-me exagerar a
importncia do seu motejo. Da parte dessa mulher nada me era
indiferente. Levantei-me, pois, dizendo-lhe com uma alterao
de voz que me foi impossvel esconder:
--Se  isso o que pensa de mim, minha senhora, s me resta
pedir-lhe perdo da minha indiscrio e despedir-me,
assegurando-lhe que a no repetirei.
Cumprimentei-a e sa.
Apenas fechei a porta, ouvi terceira gargalhada. o meu desejo
era que algum nesse momento me acotovelasse.
Voltei para a minha cadeira.
Da a pouco subiu o pano.
Ernesto tornou para o p de mim.
--Que foste tu fazer, rapaz!--exclamou ele, ao
sentar-se.--Elas julgaram que estavas doido.
--Que disse Margarida, quando eu sa?
--Riu-se a perder e assegurou-me que nunca vira pessoa mais
ratona do que tu. Mas no te ds por batido; o que no deves 
conceder a estas raparigas a honra de as tomares a srio. No
sabem o que  elegncia nem galantaria: so como os ces, que,
quando se lhes pem perfumes, acham que cheiram mal e vo
rebolar-se no chiqueiro.
--Afinal, que me importa?--repliquei eu, procurando tomar um
tom desenvolto.--No tornarei a ver essa mulher e, se me
agradava antes de a conhecer, agora que a conheo j no me
interessa.
--ora adeus! No perco a esperana de te ver um dia destes no
fundo do seu camarote e de ouvir dizer que te arrunas por
ela. E fars muito bem, pois, apesar de malcriada,  uma linda

e apetitosa rapariga.
Felizmente levantou-se o pano e o meu amigo calou-se. -me
impossvel dizer o que se representou. Apenas me lembra que,
levantava os olhos para o camarote, donde sara to
bruscamente, e via a cada momento aparecerem l novos
visitantes.
Estava longe, contudo, de no pensar j em Margarida. outro
sentimento se apoderava de mim. Precisava de fazer esquecer o
seu insulto e o meu ridculo, assim me parecia, e dizia comigo
que, embora tivesse de gastar tudo quanto possua, havia de
conquistar essa mulher e reaver o lugar que to depressa
abandonara.

Antes de terminar o espectculo, Margarida e a sua amiga
saram do camarote.
Involuntariamente levantei-me.
--Vais-te embora?--inquiriu Ernesto.
--Vou.
--Porqu?
Nesse momento reparou que estava vazio o camarote.
--Vai, vai--disse ele--; estimo que sejas feliz, ou antes?
que sejas mais feliz.

 ?ai .
ouvi na escada um rugir de sedas e um rumor de vozes.
Afastei-me e vi passar, sem que me vissem, as duas mulheres e
os dois rapazes que as acompanhavam.
No peristilo do teatro apresentou-se-lhes um criadito.
--Vai dizer ao cocheiro que espere  porta do Caf
Ingls--ordenou-lhe Margarida.--Vamos a p at l.
Minutos depois, passeando no  Boulevard, vi a uma das janelas
de um dos grandes gabinetes do restaurante, Margarida,
encostada  sacada, a desfolhar uma a uma as camlias de um
ramalhete.
Um dos dois homens inclinava-se sobre o seu ombro e falava-lhe
baixinho.
Fui para a Casa Dourada, para as salas do primeiro andar, e
no perdi de vista a maldita janela.
A uma hora da manha, Margarida metia-se na sua carruagem com
os seus trs companheiros.
Tomei um ca riolet e segui-a.
A carruagem parou na Rua d'Antin, n.o 9.
Margarida apeou-se e entrou para a casa, sozinha.
Era decerto um mero acaso, mas esse acaso tornou-me bem feliz.
Desse dia em diante encontrei muitas vezes Margarida em
espectculos, nos Campos Elsios. Ela sempre com a mesma
alegria, eu sempre com a mesma comoo.
Passaram-se, porm, quinze dias sem eu a tornar a ver em parte
alguma. Encontrei-me com Gasto a quem pedi notcias suas.
--Pobre rapariga! Est muito doente--respondeu ele.
--Que tem ela?
--Que tem? Sofre do peito e, como a vida que leva decerto no
a pode curar, est de cama, e no tarda a ir para o outro
mundo.
Muito estranho  o corao! Quase me alegrou aquela doena.
Fui todos os dias saber notcias da doente, sem inscrever o
meu nome, nem deixar o meu bilhete. Soube assim da sua
convalescena e da sua partida para Bagnres.

o tempo foi correndo; a impresso, seno a lembrana, pareceu
apagar-se, pouco a pouco, na minha alma. Viajei; outras
ligaes, outros hbitos, outros trabalhos foram tomando o
lugar deste pensamento, e, quando me lembrava dessa primeira
aventura, no queria j consider-la seno como uma destas
paixonetas que se tm quando se  muito novo e que se esquecem
pouco tempo depois.
Demais, pouco merecimento haveria em triunfar dessa
recordao, porque eu perdera Margarida de vista desde a sua
partida, e, como lhe disse, quando passou ao p de mim, no
corredor do Variedades, no a reconheci.
Ia de vu,  certo; mas, por muito espesso que este fosse,
dois anos antes no precisaria de v-la para a reconhecer;
adivinhava-a.
Mas isso no impediu o meu corao de palpitar ao saber que
era ela; e os dois anos passados sem a ver e todos os seus
resultados desvaneceram-se como o fumo, s com o roar do seu
vestido.
No entanto--continuou Armando, depois de uma pausa--, embora
percebendo que ainda estava apaixonado, sentia-me forte, e no
meu desejo de tornar a encontrar-me com Margarida, entrava
tambm uma certa vontade de lhe mostrar que lhe era agora superior.
Que singulares caminhos segue e que singulares razes d a si
prprio o corao para chegar onde quer!
Como no pude demorar-me muito tempo nos corredores, voltei
para o meu lugar na superior, lanando uma rpida vista de
olhos pela sala, para ver em que camarote ela estava.
Encontrava-se na frisa do proscnio e sozinha. Achei-a mudada,
como lhe disse; j no encontrava na sua boca o seu sorriso
desdenhoso. Sofrera; padecia ainda.
Embora se estivesse j em Abril, achava-se toda coberta de
veludo, como no Inverno.
Eu olhava para ela to obstinadamente, que o meu olhar atraiu
o seu.
Encarou-me por instantes, pegou no binculo para me ver melhor
e pareceu-lhe sem dvida que me reconhecia, sem poder dizer
positivamente quem eu era, porque, quando largou o binculo,
vagueou nos seus lbios um sorriso, esse encantador
cumprimento das mulheres, para corresponder  saudao que
parecia esperar de mim; mas no lhe correspondi, para me
mostrar superior, mostrar-lhe que a esquecera, ao passo que
ela se lembrava de mim.
Julgou haver-se enganado e desviou a ca ea.
Subiu o pano.
Vi muitas vezes Margarida no teatro, mas nunca a vi prestar a
mnima ateno ao que se representava.
A mim tambm o espectculo me interessava pouco, e s pensava
naquela mulher, fazendo todo o esforo para que ela o no
percebesse.
Foi assim que a vi trocar olhares com a pessoa que ocupava a
frisa defronte da sua; voltando-me nessa direco, reconheci
logo uma mulher com quem eu tinha bastante confiana.
Essa mulher, tambm uma antiga pecadora, quisera entrar no
teatro, mas no conseguira fazer carreira. Depois, estribada
nas relaes que mantinha entre os elegantes de Paris,
estabelecera-se com uma casa de modas.
Percebi que seria esse um meio excelente para me aproximar de

Margarida e aproveitei uma ocasio em que ela olhava, para a
cumprimentar com os olhos e com a mo.
Conforme eu previra, fez-me sinal de que a fosse
visitar.
Prudncia Duvernoy--assim se chamava a proprietria da casa de
modas--era uma destas quarentonas gorduchas, com quem no 
necessria grande diplomacia para se conseguir que elas digam
o que se quer saber, sobretudo quando o que se pretende  to
simples como o que eu lhe ia perguntar.
Aproveitei um momento em que ela recomeara a sua conversa
mmica com Margarida para lhe dizer:
--Para quem est a olhar dessa maneira?
--Para Margarida Gautier.
--Conhece-a?
--Sou sua modista, e ela  minha vizinha.
--Ento a Prudncia mora agora na Rua d'Antin?
--No n.o z. A janela do quarto de vestir de Margarida deita
para a janela do meu.
--Dizem que  uma encantadora rapariga.
--No a conhece?
--No, mas gostava de a conhecer.
--Quer que eu lhe diga que venha ao meu camarote?
--No, prefiro que me apresente.
--Em casa dela?
--Sim.
--1  mais difcil.
--Porqu?
--Porque  protegida por um velho duque muito ciumento.
--Protegida, no acho mau.
--Sim, protegida--tornou Prudncia.--o pobre velho ficaria
muito atrapalhado se tivesse de ser seu amante..
Prudncia contou-me ento como  que Margarida travara
conhecimento com o duque em Bagnres.
--1  por isso--continuei eu--que ela est aqui sozinha?
--Justamente.
--Mas quem a acompanha a casa?
--Ele.
--Ento vem busc-la?
--Daqui a um instante.
--E  Prudncia, quem a acompanha?
--Ningum.
--Acompanho-a eu.
--Mas parece-me que est com um amigo.
--Ento acompanhamo-la ns.
--Quem  esse seu amigo?
--E um belo rapaz, muito engraado e que h-de ficar
satisfeitssimo por travar conhecimento com a minha amiga.
--Est dito; vamo-nos embora todos depois desta pea, porque a
ltima j eu conheo.
--Bem, vou prevenir o meu amigo.
--V... ah!--exclamou Prudncia, no momento em que eu ia
sair.--L entrou o duque na frisa de Margarida.
Efectivamente, um homem de sessenta anos acabava de se sentar
por trs de Margarida e entregava-lhe um saquinho de doces,
que ela comeou logo a despejar, sorrindo. Depois chegou-o
para a frente do camarote, dirigindo a Prudncia um gesto que
podia significar:
--Quer?

--No--respondeu Prudncia, tambm mimicamente.
Margarida puxou o saquito para si e, voltando-se, ps-se a
conversar com o duque.
A narrativa de todos estes pormenores parece uma verdadeira
criancice, mas tudo o que se refere quela rapariga est to
presente na minha memria, que no posso deixar de o recordar
hoje.
Desci a prevenir Gasto do que acabava de combinar para ele e
para mim.
Aceitou.
Deixmos as nossas cadeiras e dirigimo-nos  frisa da Sr.a
Duvernoy.
Mal tnhamos aberto a porta da superior quando fomos obrigados
a deter-nos para darmos passagem ao duque e Margarida que se
iam embora.
Daria dez anos da minha vida para estar no lugar desse
velhote.
Quando chegou ao Boulevard, f-la subir para um
faetonte, que ele mesmo guiava, e desapareceram, ao trote de
dois soberbos cavalos.
Entrmos na frisa de Prudncia.
Terminada a pea, samos e metemo-nos num fiacre que nos levou
 Rua d'Antin mo z. Ao chegarmos  porta de sua casa,
Prudncia convidou-nos a subir para nos mostrar o seu
estabelecimento, que eu no conhecia e de que parecia estar
muito orgulhosa. Imagine com que entusiasmo eu aceitei.
Parecia-me que a pouco e pouco me ia aproximando de Margarida.
No tardei a puxar a conversao para esse assunto querido.
--o velho duque est em casa da sua vizinha? --perguntei a
Prudncia.
--No; ela deve estar s.
--Mas, nesse caso, aborrece-se horrorosamente --acudiu Gasto.
--Passamos quase sempre as noites juntas, ou, quando vem para
casa, chama-me. Nunca se deita antes das duas horas da manha;
no consegue adormecer mais cedo.
--Porqu?
--Porque est doente do peito e quase sempre com febre.
--No tem amantes?--perguntei.
--Nunca vejo ficar l pessoa alguma quando me vou embora; mas
no juro que no entre algum depois de eu sair; muitas vezes
encontro  r  casa dela,  noite, um certo conde de N... que
imagina ganhar muito vindo visit-la s onze horas da noite e
mandando-lhe quantas jias ela quer; Margarida, porm, no o
pode ver nem pintado. Faz mal, porque  um rapaz muito rico.
Eu farto-me de lhe dizer: "(  filha, olha que  o homem de que
tu precisas". Qual histria! Ela, que habitualmente atende o
que eu lhe digo, vira-me as costas e responde-me que o no
pode aturar porque  muito tolo. Ser tolo, no digo o
contrrio; mas era uma posio para ela, enquanto o duque pode
morrer de um dia para o outro. os velhos so egostas; a
famlia est sempre a censurar a sua afeio por Margarida;
duas razes para ele lhe no deixar nada. Eu bem lhe prego
moral, e ela diz que, se o duque morrer, ento pensar no
conde.
"Pois olhe que  pouco divertido--continuou Prudncia--viver
como ela vive. Eu c por mim  que me no resignava, essa lhe
juro eu, e mandava passear o velhote.   inspido o gebo;
chama-lhe filha, trata-a como uma criana e no a larga. Estou

certa de que a estas horas anda algum dos seus criados a
rondar a rua para ver quem sai e sobretudo quem entra.
--ora a pobre Margarida! --exclamou Gasto, sentando-se ao
piano e tocando uma valsa.--Dessa  que eu no sabia. Mas
havia algum tempo que me parecia menos alegre.
--Caluda, caluda!--recomendou Prudncia. pondo o ouvido 
escuta.
Gasto interrompeu-se.
--Est a chamar por mim, creio.
Escutmos.
Efectivamente uma voz chamava por Prudncia.
--Bom, meus senhores, vo-se embora--convidou a Sr.a Duvernoy.
--Ah! Assim  que se atendem as visitas?--disse Gasto,
rindo.--Havemos de nos ir embora s quando nos apetecer. Mas
porque  que nos havemos de ir embora?
--Porque vou para casa de Margarida.
--Esperamos aqui.
--No pode ser.
--Ento vamos l tambm.
--Ainda menos.
--Eu conheo Margarida--disse Gasto--, estou no meu direito
de lhe ir fazer uma visita.
--Mas o Armando no a conhece.
--Apresento-o.
--1  impossvel.
ouviu-se de novo a voz de Margarida, que continuava a chamar
Prudncia.
A proprietria da loja de modas correu ao seu quarto de
vestir. Eu e Gasto seguimo-la. Ela abriu a janela.
Escondemo-nos de modo que nos no vissem de fora.
--H dez minutos que te estou a chamar--disse Margarida da sua
janela, num tom quase imperioso.
--Que me queres tu?
--Quero que venhas para c imediatamente.
--Porqu?
--Porque o conde de N... no me sai de casa, e eu no o posso
aturar.
--Agora no posso l ir.
--Quem te impede?
--Tenho c em casa dois rapazes que se no querem ir embora.
--Diz-lhes que tens de sair.
--J lho disse.
--Ento deixa-os a em casa; em te vendo sair, no tero
remdio seno ir-se embora.
--Depois de terem posto tudo de pernas para o ar.
--Mas que querem eles?
--Querem ver-te.
--Como se chamam?
--Um conheces tu;  o Sr. Gasto de R...
--Ah, sim, conheo. E o outro?
--Armando Duval. No o conheces?
--No, mas podes traz-los. Antes isso que o conde. Estou 
tua espera, vem depressa.
Fechou a janela e Prudncia fez o mesmo.
Margarida, que se lembrara por um instante do meu rosto, no
se recordava do meu nome. Preferi uma lembrana que me fosse
desvantajosa a esse


esquecimento.
--Eu bem sabia--disse Gasto--que ela havia de ficar
satisfeitssima por nos receber.
--Satisfeitssima no  o termo mais prprio --respondeu
Prudncia, pondo o xaile e o chapu--e recebe-os apenas para
conseguir que o conde se v embora. Vejam se se mostram mais
amveis do que ele; de contrrio, eu bem conheo Margarida, 
capaz de se pr de mal comigo.
Seguimos Prudncia que descia a escada.
Eu tremia; tinha a impresso de que aquela visita havia de ter
grande influncia na minha vida.
Ainda estava mais perturbado do que na noite da minha
apresentao no camarote da ( )pera Cmica.
Quando cheguei  porta do aposento que o meu amigo j conhece,
o corao batia-me com tanta fora, que at nem podia pensar.
ouvamos alguns acordes de piano.
Prudncia tocou a campainha.
o piano calou-se.
Uma mulher, que parecia mais uma dama de companhia do que uma
criada de quarto, veio abrir-nos a porta.
Passmos para a sala, da sala para o toucador, que era nessa
poca exactamente o mesmo que o meu amigo viu depois.
Estava um rapaz encostado ao fogo.
Margarida, sentada ao piano, deixava correr os dedos pelas
teclas e comeava trechos que no levava ao fim.
Era bem uma cena de tdio: para o homem, em consequncia da
sua nulidade; para ela, devido  presena de to lgubre
personagem.
Ao ouvir a voz de Prudncia, Margarida levantou-se, e,
dirigindo-se a ns depois de trocar com a Sr.a Duvernoy um
olhar de agradecimento, disse-nos:
--Entrem, meus senhores, e sejam bem-vindos.
--Boas noites, meu caro Gasto--saudou Margarida o meu
companheiro.--Folgo imenso em v-lo. Porque no me foi visitar
 minha frisa no Variedades ?
--Receei ser indiscreto.
--os amigos--e Margarida carregou nestas palavras como se
quisesse dar a perceber aos presentes que, apesar do modo
familiar com que o acolhia, Gasto no era nem fora nunca
seno um amigo--, os amigos nunca so indiscretos.
--D-me licena que lhe apresente o Sr. Armando Duval?
--J tinha autorizado Prudncia a faz-lo.
--Eu, minha senhora--disse, inclinando-me e conseguindo
articular uns sons pouco inteligveis--, j tive a honra de
lhe ser apresentado.
os olhos encantadores de Margarida pareceram perscrutar a sua
memria, mas no se lembrou ou fingiu no se lembrar.
--Minha senhora --tornei eu-- agradeo-lhe imenso ter
esquecido essa primeira apresentao, pois mostrei-me bem
ridculo e decerto pareci-lhe muito aborrecido. Foi h dois
anos, na pera Cmica; encontrava-me eu na companhia de
Ernesto de...
--Ah! Bem me lembro!--respondeu Margarida
com um sorriso.--No era o senhor que estava ridculo. Eu 
que estava impertinente, como ainda hoje sucede muitas vezes,
mas, enfim, no tantas como nesse tempo. J me perdoou, no 
verdade?
E estendeu-me a sua mo, que eu beijei.

--S a conheo h dois meses--replicou o conde.
--1  verdade--tornou ela.--Imagine que tenho o mau costume de
querer atrapalhar as pessoas que vejo pela primeira vez. 1 
uma perfeita tolice. Segundo o meu mdico, isso deve-se ao
facto de andar sempre nervosa e adoentada. Peo-lhe que
acredite no que ele diz.
--Mas parece estar com ptima sade.
--oh! Estive muito doente.
--Bem sei.
--Quem lho disse?
--Ningum o ignorava. Vim muitas vezes pedir notcias suas, e
com muita satisfao soube da sua convalescena.
--Nunca me entregaram o seu carto.
--Se eu nunca o deixei!
.--Seria um rapaz que vinha todos os dias saber como estava e
que no quis nunca dizer o seu nome?
--Exactamente.
--Ento  mais do que indulgente,  generoso. o conde no
faria semelhante coisa--acrescentou ela, voltando-se para o
Sr. de N... e depois de me ter lanado um desses olhares com
os quais as mulheres completam a sua opinio acerca de um
homem.
--S a conheo h dois meses--replicou o conde.
--E este senhor s me conhece h cinco minutos. No sabe dizer
seno disparates.
As mulheres so implacveis com os homens que no  m m
o conde corou e mordeu os beios.
Tive d dele, porque parecia estar enamorado como eu; e a dura
franqueza de Margarida devia afligi-lo muito, sobretudo em
presena de dois desconhecidos.
--Tocava piano quando entrmos--disse eu ento, para mudar a
conversa--; no me quer dar o gosto de me tratar como um velho
amigo continuando a tocar?
--oh!--exclamou Margarida atirando-se para o canap e
fazendo-nos sinal, a mim e ao meu amigo, para nos sentarmos ao
p dela.--Gasto bem sabe como eu toco. Serve apenas para
quando estou sozinha com o conde, mas no quero fazer-lhes
sofrer semelhante suplcio...
--Tem, ento, por mim essa preferncia?--redarguiu o Sr. de
N... num tom que procurava tornar fino e irnico.
--Pois faz mal em ma criticar, porque  a nica.
Estava decidido que o pobre rapaz no poderia dizer uma
palavra. Deitou a Margarida um olhar verdadeiramente
suplicante.
--olha l, Prudncia--continuou ela--, fizeste o que te tinha
pedido?
--Fiz.
--Muito bem. Logo mo contas. No te vs embora sem
conversarmos, preciso de te falar.
--Estamos, sem dvida, a ser indiscretos--acudi eu ento--e
agora que obtivemos, ou antes, que obtive uma segunda
apresentao, para fazer esquecer a primeira, vamo-nos
retirar, Gasto e eu.
--Isso  que no; no foi por causa dos senhores que eu disse
isto. Pelo contrrio, quero que fiquem.
o conde tirou um relgio muito elegante e viu as horas.
--1  tempo de ir at a o clube--declarou.
Margarida no deu resposta.

o conde deixou o fogo e aproximou-se dela.
--Adeus, minha senhora.
Margarida levantou-se.
--Adeus, meu caro conde. J se vai embora?
--Vou. Tenho medo de a aborrecer.
--No me aborrece hoje mais do que nos outros dias. Quando
volta c?
--Quando mo permitir.
--Ento, adeus!
Era cruel, devo confessar.
o conde tinha, felizmente, muito boa educao e um excelente
carcter. Limitou-se a beijar a mo que Margarida lhe estendia
distraidamente e a sair depois de nos cumprimentar.
No momento em que transpunha a porta, olhou para Prudncia.
Esta encolheu os ombros com um modo que significava: < Que
quer? Fiz tudo quanto pude."
--Nanine!--bradou Margarida.--Alumia o senhor conde.
ouvimos abrir e fechar a porta.
--Enfim! --exclamou Margarida, reaparecendo.--Foi-se; este
rapaz irrita-me os nervos.
--Minha querida filha--disse Prudncia--, s m deveras com o
pobre; e ele sempre to bom, to obsequioso. Aqui est na
pedra do teu fogo um relgio que ele te deu e que lhe no
custou menos de mil escudos, tenho a certeza.
E a Sr.a Duvernoy, que se aproximara do fogo, brincava com o
objecto em que falava e lanava-lhe uns olhares ardentes de
cobia.
--Minha querida--replicou Margarida, sentando-se ao piano--,
quando peso de um lado o que o conde me d e do outro o que
ele me diz, acho que me paga as visitas muito barato.
--o pobre rapaz est apaixonado por ti.
--Se tivesse de dar ateno a todos os que esto apaixonados
por mim, no dispunha de tempo nem para jantar.
E correu os dedos pelo piano. Depois, voltando-se, disse-nos:
--Querem tomar alguma coisa? Eu no desgostava de tomar um
ponche.
--E eu de comer uma perna de galinha--declarou Prudncia--; se
ns cessemos?
Assentiu Gasto.
--Est dito, vamos cear.
--No, no; ceamos aqui.
Tocou a campainha. Apareceu Nanine.
--Manda vir uma ceia.
--o que hei-de mandar buscar?
--o que quiseres. Mas j, sem demora.
Nanine saiu.
--Isso mesmo --proferiu Margarida, pulando como uma criana--,
vamos cear. Sempre  muito maador o pateta do conde!
Quanto mais eu via esta mulher, mais me enlevava. Tinha uma
formosura de endoidecer. At na sua magreza havia seduo.
Eu estava exttico.
Custar-me-ia a explicar o que se passava em mim. Sentia-me
cheio de indulgncia pela sua vida, cheio de admirao pela
sua beleza. A prova de desinteresse que ela dava, no
aceitando um homem novo, elegante e rico, pronto a arruinar-se
por ela, desculpava-lhe, aos meus olhos, todos os erros
passados.
Havia naquela mulher como que uma certa candura. Via-se que

estava ainda na virgindade do vcio. o seu andar firme, a sua
estatura flexvel, as suas narinas rseas e abertas, os seus
grandes olhos em torno dos quais corria ligeiramente uma penumbra azul, denotavam uma dessas naturezas ardentes que espalham
em torno de si um perfume de voluptuosidade, como os frascos
do oriente que, por mais bem fechados que estejam, deixam
fugir o perfume que encerram.
Enfim, ou por natureza, ou em consequncia do seu estado
mrbido, passavam de quando em quando pelos olhos de Margarida
relmpagos de desejo cuja expanso seria uma revelao do Cu
para quem ela amasse. Mas os que haviam amado aquela rapariga
j no tinham conta, e os que ela amara ainda no podiam
contar-se.
Em resumo, reconhecia-se em Margarida a virgem que um acaso
perdera, e a perdida que outro acaso transformaria em virgem
mais enamorada e mais pura. Havia tambm nela orgulho e
independncia: dois sentimentos que, em sendo feridos, so
capazes de fazer o mesmo que o pudor. Eu no pronunciava
palavra, dir-se-ia que a alma me passara toda para o corao e
o corao para os olhos.
--Ento--tornou ela de sbito--era o senhor que vinha saber
notcias minhas quando eu estava doente?
--Era.
--Sabe que  uma bonita aco? E que hei-de fazer para lhe
mostrar o meu agradecimento?
--Dar-me licena de a visitar de tempos a tempos.
--Quantas vezes quiser, das cinco s seis, das onze 
meia-noite. olhe l, Gasto, toque o Convite  valsa.
--Para qu?
--Para me dar prazer em primeiro lugar, e depois porque no
sou capaz de o tocar sozinha.
--Ento que  que a atrapalha?
--A terceira parte, a passagem em sustenido.
Gasto levantou-se, dirigiu-se para o piano e principiou a
tocar essa maravilhosa melodia de Weber, cuja msica estava
aberta na estante.
Margarida, com uma das mos pousada no piano, olhava para o
caderno da msica, seguia cada nota que acompanhava baixinho
com a voz e, quando Gasto chegou  passagem que ela lhe
indicara, cantarolou correndo os dedos pelas costas do piano:
--R, mi, r, d, f, mi, r, a est o que eu no posso
fazer. Torne a principiar.
Gasto recomeou, e depois Margarida disse-lhe:
--Agora deixe-me experimentar.
Tomou o lugar dele e tocou tambm; mas os seus dedos rebeldes
enganavam-se sempre numa das notas que acabo de indicar.
--1  incrvel--declarou ela, com verdadeira intonao de
criana--que eu no consiga tocar esta passagem! Querem
acreditar que estou s vezes at s duas horas da manha a
martelar este trecho? E quando me lembra que o pateta do conde
o toca sem msica e admiravelmente, chego a convencer-me de
que  por isso que me dano com ele.
E recomeou, sempre com o mesmo resultado.
--os diabos levem Weber, a msica e o piano! --exclamou,
atirando com o caderno pelos ares.-Pode admitir-se que eu no
seja capaz de tocar oito sustenidos a fio?
E cruzava os braos, olhando para ns e batendo o p.

Subiu-lhe o sangue s faces e entreabriu-lhe os lbios uma
ligeira tosse.
--Vamos, vamos!--disse Prudncia, que tirara o chapu e
alisava os bands diante do espelho.-No te exaltes, que te
faz mal; vamos cear, que sempre  melhor; estou a morrer de
fome.
Margarida tocou de novo a campainha. Depois tornou a sentar-se
ao piano e comeou a cantar a
meia voz uma cano libertina em cujo acompanhamento no se
atrapalhou.
Gasto sabia essa cano e cantaram-na numa espcie de dueto.
--No cante essas indecncias--disse eu familiarmente a
Margarida e em tom de splica.
--Ah! Como  casto!--tornou-me ela, sorrindo e estendendo-me a
mo.
--No  por mim,  por si.
Margarida fez um gesto que parecia dizer: "oh! Eu h muito
tempo que atirei a castidade pela janela fora >.
Naquele momento apareceu Nanine.
--Est pronta a ceia?--perguntou Margarida.
--Sim, minha senhora, no tarda.
--A propsito--disse Prudncia--, ainda no viu a casa; venha,
que eu mostro-lha.
Como sabe, o salo era uma maravilha.
Margarida acompanhou-nos um bocado. Depois chamou Gasto e
dirigiu-se com ele para a sala de jantar, a ver se a ceia
estava pronta.
--olha!--exclamou em voz alta Prudncia, tirando uma figura de
Saxe de uma prateleira.--No te conhecia este sujeito.
--Qual?
--Um pastor que tem na mo uma gaiola com um pssaro.
--Se gostas, leva-o.
--No te quero privar. ..
--Eu tencionava d-lo  minha criada, porque o acho horrvel;
mas, se te agrada, leva-o.
Prudncia s viu o presente e no o modo como era feito. Ps o
seu pastor de banda e levou-me ao quarto de vestir, onde,
mostrando-me duas miniaturas colocadas uma defronte da outra,
disse:
--Este  o conde de G... que esteve apaixonadssimo por
Margarida. Foi ele que a lanou nesta vida. Conheceu-o?
--No. E este?--perguntei, apontando a outra miniatura.
--  o visconde de L. . . Teve de se safar.
--Porqu?
--Porque estava quase arruinado. Pois gostava deveras de
Margarida!
--E ela decerto gostava muito dele.
--1  uma rapariga to original, que nunca a gente sabe o que
h-de pensar a seu respeito. Na noite do dia em que ele se foi
embora, estava no teatro como de costume, e no entanto tinha
chorado no momento da partida.
Quando entrmos na sala de jantar, Margarida estava encostada
 parede, e Gasto, segurando-lhe nas mos, falava-lhe em voz
baixa.
--Est doido--respondia-lhe Margarida.--Sabe perfeitamente que
o no quero para nada. Quando se conhece durante dois anos uma
mulher como eu, no  no fim desse tempo que se lhe pede para
se ser seu amante. As mulheres como ns ou nos entregamos logo

ou nunca. Vamos, meus senhores, para a mesa.
E, escapando-se das mos de Gasto, Margarida f-lo sentar-se
 sua direita e a mim  sua esquerda. Depois disse a Nanine:
--Antes de te sentares, recomenda l dentro que no abram a
porta se ouvirem tocar a campainha.
Esta recomendao era feita  uma hora da manha.
Bebeu-se muito, no se comeu pouco e houve risadas  farta
naquela ceia. No fim de alguns instantes a jovialidade descera
aos seus ltimos limites, as palavras que uma certa roda acha
galhofeiras e que emporcalham sempre a boca que as diz,
estalavam de tempos a tempos com grandes aclamaes de Nanine,
de Prudncia e de Margarida. Gasto divertia-se francamente;
era um rapaz de excelente corao mas cujo esprito fora
falseado pelos primeiros hbitos. Durante um momento quisera
atordoar-me, tornar o corao e o pensamento indiferentes ao
espectculo que tinha diante dos olhos, e participar daquela
alegria que parecia um dos manjares da refeio. Mas a pouco e
pouco isolara-me dessa bulha, deixara de despejar o meu copo
e quase entristecera ao ver essa gentil criatura de vinte anos
beber, falar como um marujo e rir com tanto mais gosto quanto
mais escandaloso era o que se dizia.
Contudo, essa alegria, esse modo de falar e de beber que me
pareciam nos outros convivas resultados da devassido, do
hbito ou da fora, em Margarida considerava-os uma
necessidade de esquecer, uma febre, uma irritabilidade
nervosa. A cada copo de vinho de Champanhe, cobriam-se-lhe as
faces de uma vermelhido febril, e a ligeira tosse que se
manifestara no princpio da ceia, tornara-se afinal to forte,
que a obrigava a deitar a cabea para as costas da cadeira e a
comprimir o peito com as mos, todas as vezes que um novo
acesso a sacudia.
Penalizava-me o mal que deviam fazer quela frgil organizao
tais excessos quotidianos.
Sucedeu, finalmente, uma coisa que eu previra e receava.
Quando a ceia se aproximava do seu termo, Margarida teve o
mais forte acesso de tosse desde que eu entrara. Parecia que o
seu peito se dilacerava interiormente. A pobre rapariga fez-se
cor de prpura, fechou os olhos com a dor e levou aos lbios o
guardanapo que uma gota de sangue avermelhou. Ento
levantou-se e correu para o seu quarto de vestir.
--Que tem Margarida?--perguntou Gasto.
--Que tem? Riu-se de mais, e est a deitar sangue pela boca.
No  nada, acontece-lhe isto todos os dias. No tarda a.
Deixemo-la s, que  o que ela prefere.
Eu  que no me pude conter e, com grande espanto de Prudncia
e de Nanine, que me chamavam, fui ter com Margarida.
o quarto onde ela se refugiara estava apenas iluminado por uma
vela posta em cima de uma mesa. Recostada num grande canap,
com o vestido aberto, tinha uma das mos sobre o corao e a
outra pendente. Em cima da mesa achava-se uma bacia de prata
meia de gua, na qual se viam fios de sangue.
Margarida, muito plida e com a boca entreaberta, procurava
respirar. De vez em quando soltava um longo suspiro, que, ao
exalar-se, parecia alivi-la um pouco e a deixava durante
segundos numa sensao de bem-estar.
Aproximei-me, sem que ela fizesse um movimento; sentei-me e
peguei na mo que descansava no canap.
--Ah! Estava a!--disse-me com um sorriso.

Parece que eu tinha o rosto desfigurado, pois Margarida
acrescentou:
--Tambm est doente?
--No; mas diga-me: continua a sofrer?
--Muito pouco--e enxugou com um leno as lgrimas que a tosse
fizera afluir-lhe aos olhos--; agora j estou acostumada a
isto.
--Mata-se, minha senhora--disse-lhe ento, com voz comovida--;
bem desejava ser seu parente, seu amigo, para a impedir de
cometer tantas imprudncias.
--Ah! No vale a pena assustar-se--replicou ela, em tom um
pouco amargo.--Veja se os outros se importam. Sabem
perfeitamente que este mal no tem cura.
Em seguida levantou-se, pegou na vela, foi p-la em cima da
pedra do fogo e viu-se ao espelho.
--Como estou plida!--exclamou, acolchetando o vestido e
passando os dedos pelos cabelos despenteados.--ora adeus!
Vamos para a mesa. Vem da?
Mas eu tinha-me sentado e no me mexia.
Compreendeu a comoo que esta cena me causara, porque se
aproximou de mim e disse-me, estendendo-me a mo.:
--Ento! Venha.
Peguei-lhe na mo, beijei-a, molhando-a involuntariamente com
duas lgrimas por muito tempo reprimidas.
--Sempre  muito criana!--disse ela, sentando-se ao p de
mim.--Est a chorar! Que tem?
--Pareo-lhe decerto muito piegas, mas o que acabo de ver
causou-me um mal atroz.
--Que bondade a sua! Mas que quer? Eu no posso dormir, no
tenho remdio seno distrair-me um pouco. E depois, raparigas
como eu... mais uma, menos uma, que importa? Dizem-me os
mdicos que o sangue que eu deito pela boca vem dos brnquios.
Eu finjo que os acredito, e no posso fazer mais para lhes ser
agradvel.
--oua!--tornei-lhe, com uma expanso que no pude
reprimir.--Ignoro qual ser a influncia que h-de exercer na
minha vida, mas o que sei  que no h neste momento uma nica
pessoa, nem mesmo minha irma, por quem me interesse tanto como
pela Margarida. E este sentimento data da primeira vez
em que a vi. Pois bem, em nome do Cu, peo-lhe que se trate e
que no continue com esta vida.
--Se me tratasse, morria. o que me sustenta  esta vida febril
que levo. Depois, isso de tratamento  bom para as senhoras
srias, que tm famlia, que tm` amigos; mas ns, desde que
no podemos servir nem para a vaidade, nem para o prazer dos
nossos amantes, vemo-nos abandonadas, e as longas noites
sucedem-se aos longos dias. Eu bem o sei, pois estive dois
meses de cama; ao fim de trs semanas, j ningum me
procurava.
--Bem sei que lhe no sou na; a --disse-lhe eu--, mas, se
quisesse, minha senhora, tratava-a como um irmo, no a
deixava e havia de a curar. Quando tivesse recuperado as
foras, voltaria para este viver que leva agora, se assim o
desejasse; mas, estou certo disso, preferiria uma existncia
tranquila que a faria mais feliz e lhe conservaria a beleza.
--Pensa assim esta noite, porque o vinho lhe d tristeza; mas
aposto que no teria a pacincia de que se gaba.
--Permita-me que lhe lembre, Margarida, que esteve doente dois

meses e que durante esse tempo vim todos os dias saber
notcias suas.
-- verdade. Mas porque no subia?
--Porque no era seu conhecido.
--Com uma rapariga como eu no se faz cerimnia.
--Faz-se sempre cerimnia com uma mulher; pelo menos  essa a
minha opinio.
--Ento tratava-me?
--Tratava.
--Passava todos os dias comigo?
--Passava.
--E todas as noites?
--Enquanto a no enfastiasse.
--Que nome d a tudo isso?
--Dedicao.
--E donde vem essa dedicao?
--Da simpatia irresistvel que me inspira.
--Est ento apaixonado por mim? Diga-o j, que  muito mais
simples.
-- possvel, mas, se tiver de lho dizer um dia, no h-de ser
hoje.
--o melhor  no mo dizer nunca.
--Porqu ?
--Porque dessa confisso s podem resultar duas coisas.
--Quais ?
--ou eu no aceitar, e ficar de mal comigo, ou aceit-lo e o
senhor ficar com uma triste amante: uma mulher doente,
nervosa, triste, ou alegre com uma alegria mais triste do que
a tristeza; uma mulher que est sempre a deitar sangue pela
boca e gasta cem mil francos por ano.  muito bom para um
velho ricao como o duque, mas bem fastidioso para um rapaz
como Armando. E a prova  que todos os rapazes que tenho tido
por amantes me deixaram depressa.
Eu no respondia, escutava. Essa franqueza, que era quase uma
confisso, essa vida dolorosa que eu entrevia debaixo do vu
dourado que a mascarava e a cuja triste realidade a pobre
rapariga fugiu lanando-se na devassido, na embriaguez e na
insnia, tudo isso me impressionava tanto, que no atinava com
uma palavra.
--Bom! --continuou Margarida.-- Estamos a dizer criancices.
D-me c a sua mo e vamos para a
sala de jantar.  bom que se ignore o que significa a nossa
ausncia.
--V, se quiser; mas peo-lhe licena para ficar aqui.
--Porqu?
--Porque a sua alegria faz-me mal.
--Prometo-lhe estar triste.
--olhe, Margarida, deixe-me dizer-lhe uma coisa, que decerto
lhe tm dito muita vez, e que o hbito de ouvir a impedir
talvez de acreditar, mas que nem por isso  menos verdadeira e
que eu talvez nunca lhe repita.
--Que ?...--perguntou ela com o sorriso que anima as jovens
mes quando escutam uma loucura de seus filhos.
-- que, desde que a vi, no sei como nem porqu, tem ocupado
um lugar na minha vida;  que, por mais que eu expulsasse a
sua imagem do meu pensamento, ela a voltava sempre; e que,
ainda hoje, quando a encontrei depois de passar dois anos sem
a ver, adquiriu no meu corao e no meu esprito um ascendente

maior que nunca;  que, enfim, agora que me recebeu, que a
conheo, que sei tudo quanto h de estranho na sua
individualidade, se tornou indispensvel para a minha
existncia, e que enlouquecerei no s se me no amar, mas se
me no deixar am-la.
--( ) desgraado! Dir-lhe-ei o que dizia a senhora D...: ento
 muito rico! Mas no sabe que eu gasto, pelo menos, seis a
sete mil francos por ms e que esta despesa se tornou
necessria  minha vida? Que o arruinava em dois dias e que a
sua famlia tinha de o dar por prdigo para lhe tirar o gosto
de viver com uma criatura como eu? Goste muito de mim como bom
amigo, mas doutro modo no. Venha visitar-me para rirmos, para
conversarmos, mas no exagere o que eu valho, porque no valho
muito. Tem um bom corao, precisa de ser amado, mas a sua
mocidade e a sua sensibilidade tornam-no incapaz de viver no
nosso mundo. Arranje uma mulher casada. T v que sou boa
rapariga e que lhe falo francamente.
--Que diabo esto vocs aqui a fazer?--bradou Prudncia, que
no tnhamos sentido entrar e que aparecia no limiar do
toucador, com o cabelo em desalinho e o vestido um pouco
desacolchetado.
Vi logo que esse desarranjo era obra de Gasto.
--Estamos a conversar em coisas srias--disse
Margarida.--Deixa-nos, que j l vamos.
--Bem! Bem! Conversem, meus filhos--respondeu Prudncia,
indo-se embora e fechando a porta para acentuar mais o tom em
que pronunciara as suas ltimas palavras.
--Pronto, est arrumado --tornou Margarida quando ficmos
ss--, j no gosta de mim.
--Sairei de Paris.
--Pois as coisas esto neste ponto?
Tinha-me adiantado tanto, que j no podia recuar, e, demais,
essa rapariga transtornava-me. Esse misto de alegria, de
tristeza, de candura, de prostituio, at essa doena que
decerto desenvolvia a sensibilidade das suas impresses da
mesma forma que a irritabilidade dos nervos, tudo me fazia
compreender que, se logo  primeira eu no adquirisse imprio
sobre essa ndole leviana e fcil no esquecimento, estava
perdida para mim.
--Mas ento fala srio?--perguntou ela.
--Muito srio.
--Porque mo no disse mais cedo ?
--Quando havia de lho dizer?
--No dia seguinte quele em que me foi apresentado na ( pera
Cmica.
--Estou convencido de que me receberia muito mal, se eu
tivesse c vindo.
--Porqu?
--Porque me portara estupidamente na vspera.
--Isso  verdade. J me tinha amor nessa poca?
--Tinha.
--o que o no impediu de ir deitar-se e dormir muito sossegado
depois do espectculo. Bem sabemos o que so esses grandes
amores.
--Pois est perfeitamente enganada. Sabe o que fiz na noite da 
pera Cmica?
--No.
--Esperei-a  porta do Caf Ingls. Segui a carruagem em que

saiu, com os seus trs amigos, e, quando a vi apear-se e
entrar sozinha em casa, fiquei bem feliz.
Margarida desatou a rir.
--De que se ri?
--De nada.
--Diga-mo, peo-lhe, seno acreditarei que continua a brincar
comigo.
--No se zanga?
--Com que direito me havia de zangar?
--Pois bem, havia uma excelente razo para que eu entrasse
sozinha em casa.
--Qual era?
--Estava l algum  minha espera.
Se ela me houvesse dado uma facada, no me teria feito tanto
mal. Levantei-me e, estendendo-lhe a mo, disse:
--Adeus !
--Eu bem sabia que se zangava. os homens querem sempre saber
por fora o que deve mago-los.
--Mas asseguro-lhe --acrescentei friamente, como se
pretendesse provar que me encontrava curado para sempre da
minha paixo--, asseguro-lhe que no estou zangado. Era
naturalssimo que algum a esperasse, como  naturalssimo que
eu me v embora s trs da manha.
--Tambm tem algum que o espere em sua casa?
--No, mas preciso de me retirar.
--Ento adeus.
--Pe-me fora?
--Nem por sombras.
--Para que me magoou, nesse caso?
--Como  que o magoei?
--Dizendo-me que estava algum  sua espera.
--No pude deixar de me rir com a ideia de se ter sentido to
feliz por me ver entrar em casa sozinha, quando havia to boas
razes para que eu assim procedesse.
--Muitas vezes uma criancice causa-nos grande alegria, e  uma
maldade destru-la, quando, deixando-a subsistir, se pode
tornar ainda mais feliz aquele que a sente.
--Mas ento com quem pensa que est a tratar? Nem sou uma
virgem nem uma duquesa. Conheo-o apenas desta noite e no lhe
devo contas das minhas aces.
Admitindo que eu venha a ser um dia sua amante,  preciso que
saiba que tenho tido muitos outros amantes. Se j me faz cenas
de cimes antes, o que ser depois, se esse depois vier a
existir? Nunca vi um homem assim.
--1  porque nunca ningum a amou como eu.
--Francamente, ama-me, ento, muito?
--o mais que se pode amar, creio.
--E isso dura desde?...
--Desde uma vez que a vi apear-se de uma calea e entrar no
Susse, h trs anos.
--1  galante, sabe? Mas que hei-de eu fazer para me mostrar
agradecida por to vivo amor?
--Amar-me um poucochinho --respondi com uma palpitao no
corao que chegava quase a no me deixar falar; porque,
apesar dos sorrisos semizombeteiros com que acompanhara toda
esta conversa, parecia-me que Margarida principiava a
partilhar a
minha perturbao, e que se aproximava a hora que h tanto

tempo eu esperava.
--Sim, e o duque?
--Qual duque?
--o meu velho ciumento.
--No saber coisa alguma.
--E se souber?
--Perdoa-lhe.
. Qual histria! Abandona-me. E que ser feito de mim?
--Ento no se arrisca por causa de outros a ser abandonada?
--Como o sabe?
--Porque a ouvi recomendar que no deixassem entrar esta noite
pessoa alguma.
--1  verdade; mas esse a quem me referia  um amigo srio.
--Com quem se no importa muito, tanto assim que lhe probe a
entrada a estas horas.
--No mo deve censurar, porque foi para os receber, a si e ao
seu amigo.
A pouco e pouco aproximara-me de Margarida, passara-lhe os
braos em torno da cintura e sentia o seu corpo flexvel pesar
ligeiramente nas minhas mos unidas.
--Se soubesse como a amo!--dizia-lhe em voz
baixa.
--Deveras?
--Juro-lhe.
--Pois bem! Se me promete fazer todas as minhas vontades, sem
me dizer uma palavra, sem me fazer uma observao, sem me
interrogar, talvez eu o ame tambm.
--Juro o que quiser.
--Mas j o previno de que quero fazer tudo o que me der na
cabea, sem lhe dar satisfaes acerca da minha vida. H muito
tempo que procuro um amante moo, sem vontade, apaixonado sem
desconfiana, amado sem direitos. Nunca o pude encontrar. os
homens, em vez de se darem por satisfeitos quando se lhes
concede por muito tempo o que eles mal esperavam alcanar uma
vez s, pedem ento  sua amante contas do presente, do
passado, e at do futuro. A medida que se vo habituando a
ela, querem domin-la, e so exigentssimos exactamente quando
se lhes d tudo quanto eles desejam. Se me resolver a tomar
agora um novo amante, exigirei que ele possua trs qualidades
bem raras: confiana, submisso e discrio.
--Terei tudo o que quiser.
--Veremos.
--E quando o veremos?
--Daqui a dias.
--Daqui a dias porqu?
--Porque sim--disse Margarida, soltando-se dos meus braos e
tirando de um grande ramalhete de camlias vermelhas que lhe
tinham trazido pela manha, uma flor que me meteu na
botoeira--, porque nem sempre se podem executar os tratados no
dia em que se assinam.
Era fcil de compreender.
--E quando a torno a ver?--inquiri, apertando-a nos meus
braos.
--Quando esta camlia mudar de cor.
--E quando suceder isso?
--Amanha, das onze para a meia-noite. Contente? --Ainda mo
pergunta?
--Nem uma palavra de tudo isto, nem ao seu amigo, nem a

Prudncia, nem a ningum.
--Prometo-lho.
--Agora d-me um beijo e vamos para a sala de jantar.
Estendeu-me os lbios, alisou de novo a cabelo, e samos desse
quarto, ela a cantar, eu meio doido.
A entrada da sala parou e disse-me em voz baixa:
--H-de parecer-lhe estranho que eu me mostre assim pronta a
aceit-lo de um momento para o outro. Sabe qual o motivo?
Depois, pegando-me na mo e pondo-a em cima do seu corao,
cujas palpitaes violentas e repetidas senti, continuou:
--1  que, como hei-de viver menos tempo do que as outras,
jurei que havia de viver mais depressa.
--No me fale assim, suplico-lhe.
--oh! Console-se--continuou ela rindo.--Por muito pouco tempo
que eu viva, sempre hei-de viver mais que o seu amor.
E entrou, a cantar, na sala.
--onde est Nanine?--perguntou, vendo Gasto e Prudncia ss.
--A dormir no teu quarto, esperando que te vs
deitar--respondeu Prudncia.
--Desgraada! Dou cabo dela! Vamos, meus senhores, retirem-se,
que so bem horas.
Dez minutos depois, eu e Gasto samos. Margarida deu-me um
aperto de mo e ficou s com Prudncia.
--Ento--perguntou-me Gasto quando chegmos  rua--, que
dizes de Margarida?
--1  um anjo e estou doido por ela.
--J o suspeitava; disseste-lho?
--Disse.
--E ela prometeu-te alguma coisa?
--No.
--J a Prudncia no  a mesma coisa.
--Prometeu?
--Fez mais, meu caro! E olha que no  m gordanchuda da
Prudncia, embora o parea!

Quando chegou a este ponto da sua histria, Armando
interrompeu-se.
--Faz-me o favor de fechar a janela?--pediu ele. --Entretanto,
vou deitar-me. Comeo a sentir frio.
Fechei a janela. Armando, que estava ainda muito fraco, tirou
o roupo e meteu-se na cama, deixando durante alguns instantes
poisar a cabea no travesseiro como um homem cansado por longo
passeio, ou agitado por penosas recordaes.
--Deve ter falado de mais--disse-lhe.--Quer que me v embora e
o deixe dormir? outro dia me contar o fim da sua histria.
--Aborrece-o?
--Pelo contrrio. 
--Ento vou continuar; se me deixasse s, no  dormi, 
Quando entrei na minha casa--recomeou ele sem precisar de se
concentrar, to presentes estavam ainda no seu pensamento
todos esses pormenores-no me deitei; pus-me a reflectir na
aventura daquele dia. o encontro, a apresentao, o
compromisso de Margarida para comigo, tudo fora to rpido,
to inesperado, que em certos momentos me parecia ter
sonhado. No era, contudo, a primeira vez que uma rapariga
como Margarida prometia entregar-se a um homem no dia seguinte
quele em que ele lhe fazia esse pedido.
Por mais que insistisse nesta reflexo, a primeira impresso

que a minha futura amante me fizera, continuava a subsistir.
Teimava em no a ter na conta de uma rapariga como as outras
e, com a vaidade to comum a todos os homens, estava pronto a
acreditar que ela partilhava invencivelmente por mim a
atraco que eu sentia por ela.
Contudo, eu tinha diante dos olhos exemplos bem contraditrios
e ouvira dizer muitas vezes que o amor de Margarida se tornara
um artigo mais ou menos raro, segundo a estao.
Por outro lado, porm, como havia de conciliar essa reputao
com as negativas continuadas de que era vtima o jovem conde
que tnhamos encontrado em casa dela? Dir-me- que o conde lhe
desagradava e que, como o duque pagava esplendidamente, se
resolvesse arranjar outro amante, preferiria um homem com quem
simpatizasse. Mas ento porque no aceitava ela Gasto, bonito
rapaz, espirituoso e rico, e parecia aceitar-me a mim, que
achara to ridculo a primeira vez que me vira?
1  verdade que h incidentes de um minuto que valem mais que a
corte de um ano.
De quantos estvamos na ceia, fora eu o nico que se
incomodara quando ela se levantou da mesa. Seguira-a to
comovido, que o no pudera ocultar; chorei ao beijar-lhe a
mo. Esta circunstncia, reunida com as minhas visitas
quotidianas durante os dois meses da sua doena, levara-a
talvez a ver em mim um homem diferente dos que conhecera at
ento, e  possvel que se julgasse capaz de fazer por um
amor, que se exprimia daquela maneira, o que tantas vezes
fizera por outros, sem receio de quaisquer consequncias.
Todas estas suposies, como v, eram bastante verosmeis; mas 
qualquer que fosse a razo do seu consentimento, havia uma
coisa certssima: consentira.
ora eu estava apaixonado por Margarida, ia possu-la, no lhe
podia pedir mais nada. Contudo, repito-lhe, apesar de
tratar-se de uma impura, eu fizera deste amor, talvez para a
poetizar, um amor to desesperado, que quanto mais se
aproximava o momento em que eu nem sequer j teria necessidade
de ter esperana, mais duvidava.
No fechei os olhos toda a noite.
Nem j me conhecia. Estava meio doido. Umas vezes parecia-me
que no tinha qualidades nem riqueza, nem elegncia para
possuir semelhante mulher; outras, sentia-me cheio de vaidade
com a ideia dessa posse. Depois comeava a recear que
Margarida tivesse por mim apenas um capricho de alguns dias,
e, pressentindo qualquer desgraa num rompimento rpido,
pensei que talvez fizesse melhor em no ir nessa noite a casa
dela, .e em partir comunicando-lhe por escrito os meus
receios. Da passava para esperanas sem limites, para uma
confiana absoluta. Imaginava coisas incrveis. Pensava que
essa rapariga me deveria a sua cura fsica e moral, que
passaria toda a minha vida com ela, e que o seu amor me
tornaria mais feliz que todos os virginais amores.
Enfim, nem lhe posso repetir os mil pensamentos que me subiam
do corao ao crebro, e que a pouco e pouco se apagaram no
sono que me salteou quando j era dia claro.
Acordei s duas horas. o dia estava magnfico. Que me recorde,
nunca a vida me parecera to bela
nem to cheia. As lembranas da vspera ocorriam-me ao
esprito, sem sombras, sem obstculos, e alegremente
escoltadas pelas esperanas da noite. Vesti-me  pressa.

Sentia-me contente e capaz de todas as boas aces. De quando
em quando pulava-me o corao de amor e de alegria. J me no
importava com as razes que me tinham preocupado antes de
adormecer, via apenas o resultado, s pensava no momento em
que devia tornar a ver Margarida.
Foi-me impossvel ficar em casa. o meu quarto parecia-me
pequeno de mais para conter a minha felicidade; precisava da
natureza inteira para me expandir.
Sa.
Passei pela Rua d'Antin. o coup de Margarida esperava-a 
porta; dirigi-me para o lado dos Campos Elsios. Mesmo sem as
conhecer sequer, senti ternura por todas as pessoas que
encontrava.
Como o amor nos torna bons!
Havia uma hora que eu passeava dos cavalos de Marly at 
meia-laranja, e da meia-laranja at aos cavalos de Marly,
quando vi de longe a carruagem de Margarida; no a reconheci,
adivinhei-a.
Ao dobrar a esquina dos Campos Elsios, ela mandou parar, e um
rapaz alto saiu de um grupo, onde conversava, para lhe ir
falar.
Conversaram alguns instantes; o rapaz voltou para os seus
amigos, os cavalos puseram-se de novo em marcha e eu, que me
aproximara do grupo, pudera reconhecer no rapaz que falara com
Margarida o conde de G... cujo retrato eu vira e que Prudncia
me designara como sendo o homem a quem Margarida devia a sua
posio.
Fora a ele que ela proibira a entrada em sua casa na vspera;
supus que mandara parar a carruagem para lhe explicar a razo
de tal atitude, e tive a esperana de que ao mesmo tempo
inventasse novo pretexto para no o receber na noite seguinte.
Como se passou o resto do dia, ignoro-o completamente; andei,
fumei, conversei, mas do que disse, das pessoas que encontrei,
no tinha s dez horas da noite a mnima lembrana.
Apenas me recordo de que fui para casa, passei trs horas a
arranjar-me e a preparar-me e olhei cem vezes para o meu
relgio de algibeira e para o de parede que havia no meu
quarto. Infelizmente estavam certos um pelo outro.
Quando deram dez horas e meia, pensei que era tempo de partir.
Eu morava nessa poca na Rua de Provena. Segui a Rua de Monte
Branco, atravessei o Boulevard, tomei pela Rua de
Lus-o-Grande, Rua de Porto Mahon e cheguei  Rua d'Antin.
olhei para as janelas de Margarida. Havia luz.
Toquei  campainha.
Perguntei ao porteiro se Margarida estava em casa
Respondeu-me que nunca regressava antes das onze horas ou onze
e um quarto.
olhei para o meu relgio.
Julgava ter vindo muito devagar, e afinal gastara apenas cinco
minutos a percorrer o trajecto da Rua de Provena a casa de
Margarida.
Ento comecei a passear nesta rua sem lojas e, a essas horas,
deserta.
Da a meia hora Margarida chegou. Apeou-se do seu coup,
olhando em torno de si como se procurasse algum.
A carruagem afastou-se a passo, porque a cavalaria e a
cocheira no eram no prdio. No momento em que Margarida ia
tocar a campainha, aproximei-me e saudei-a:

-- Ol,  Mademoiselle!--Ah!  o senhor?--exclamou ela num tom que no mostrava
grande prazer em encontrar-me ali.
--No me autorizou a vir hoje visit-la?
-- verdade; tinha-me esquecido.
Estas palavras lanavam por terra todas as minhas reflexes
daquela manha, todas as esperanas que acalentara durante o
dia. Contudo, principiava a habituar-me a essas maneiras, e
no me fui embora, o que, evidentemente, teria feito dias
antes.
Entrmos.
Nanine abrira a porta.
--Prudncia j est em casa?--perguntou Margarida.
--No, minha senhora.
--Vai l dizer que venha c logo que chegue. Antes de ires,
apaga o candeeiro da sala e, se vier algum, responde que
ainda no regressei a casa nem regressarei esta noite.
Via-se claramente que algo preocupava Margarida ou talvez a
aborrecera qualquer importuno. Eu no sabia como agir nem que
dizer. Ela dirigiu-se para o lado da sua alcova; eu fiquei
onde estava.
--Venha--convidou-me Margarida.
Tirou c chapu e a capa de veludo que arremessou para cima da
cama. Depois deixou-se cair numa grande poltrona ao p do
lume, que conservava aceso at ao princpio do Vero, e
perguntou, brincando com a corrente do relgio:
--Ento que me diz de novo?
--Nada, a no ser que fiz mal em vir esta noite.
--Porqu ?
--Porque parece contrariada, e  muito natural que eu a
aborrea.
--No me aborrece. o que estou  doente. Passei um dia
horroroso, no dormi e tenho uma enxaqueca atroz.
--Quer que eu me retire para se meter na cama? --oh! Pode
deixar-se estar. Se eu quiser deitar-me, deito-me
perfeitamente diante de si.
Naquele momento tocaram a campainha.
--Quem vem por a ainda?--exclamou ela, com um movimento de
impacincia.
Instantes depois tocaram de novo.
--No h ningum que v abrir; tenho de ir eu mesma.
Efectivamente levantou-se, dizendo-me:
--Espere aqui.
Atravessou a casa, e senti abrir-se a porta da entrada. Pus o
ouvido  escuta. A pessoa a quem ela abrira a porta parou na
sala de jantar. As primeiras palavras reconheci logo a voz do
jovem conde de N. . .
 como est esta noite?--inquiria ele.
--Mal--respondeu secamente Margarida.
--Incomodo-a ?
--Talvez.
--Como me recebe! Que mal lhe fiz eu, minha querida Margarida?
--Meu caro amigo, no me fez nada. Estou doente, preciso de me
deitar; peo-lhe, pois, que tenha a bondade de ir-se embora.
Isto de no poder entrar  noite em minha casa sem o ver
aparecer cinco minutos depois incomoda-me sobremaneira. Que
quer? Que eu seja sua amante? J lhe disse cem vezes que no,
que me aborrece horrorosamente e que pode ir bater a outra

porta. Repito-lhe hoje pela ltima vez: no o quero para nada.
Fica entendido. Agora adeus. olhe, a vem Nanine que o vai
alumiar. Boas noites !
E sem acrescentar mais palavra, sem escutar o que o pobre
rapaz balbuciava, ela voltou para o quarto e fechou
violentamente a porta por onde tambm Nanine entrou quase
logo.
--ouve bem --disse-lhe Margarida--, hs-de dizer sempre a esse
pedao de asno que no estou em casa, ou que o no quero
receber. Sinto-me cansada, afinal, de ver constantemente
certos tipos que me vm pedir a mesma coisa, que me pagam e se
julgam quites comigo. Se as mulheres que entram no nosso
vergonhoso ofcio soubessem o que isto , faziam-se criadas de
servir. Mas qual! Arrasta-nos a vaidade de termos vestidos,
carruagens, diamantes; acredita-se no que se ouve, e a pouco e
pouco se vai gastando o corao, o corpo, e a beleza;
inspiramos o terror que inspiram as feras, o desprezo que se
vota aos parvos. No nos cerca seno uma gente que sempre nos
tira mais do que nos d, e um belo dia rebentamos como ces
vadios, depois de perdermos os outros e nos perdermos a ns
prprias.
--Ento, minha senhora, sossegue!--aconselhou Nanine.--Est
hoje muito nervosa.
--Este vestido abafa-me --tornou Margarida, arrancando os
colchetes do corpete--; d-me um penteador. Ento, essa
Prudncia?
--Ainda no tinha vindo, mas assim que ela chegar mandam-na c
 senhora.
--A temos outra--continuou Margarida, despindo o vestido e
envergando um penteador--, a temos outra que quando precisa
de mim no me larga e que no  capaz de me prestar
desinteressadamente um servio qualquer. Sabe que espero a
resposta esta noite e que a quero por fora, que estou
inquieta, e tenho a certeza de que se foi divertir sem se
importar comigo para nada.
--Talvez a demorassem.
--Manda-me um ponche.
--Minha senhora--disse Nanine--, no sabe que lhe faz mal?
--Deixa fazer. Traz tambm fruta, um empado ou uma asa de
frango, uma coisa qualquer, enfim; mas j, que estou com fome.
Escuso de lhe dizer a impresso que aquela cena me causava.
Adivinha-a, no  verdade?
--Vai cear comigo--disse-me ela.--Entretanto, pegue num livro,
que eu demorar-me-ei um momento no meu quarto de vestir.
Acendeu as velas de um candeeiro, abriu uma porta que ficava
aos ps da cama e saiu.
Fiquei a pensar na vida daquela rapariga e o meu amor cresceu
com a piedade que me inspirou.
Passeava no quarto a cismar, quando Prudncia entrou.
--ol! Por aqui?--exclamou ela.--onde est Margarida?
--No quarto de vestir.
--Ento espero-a. Sabe que ela gosta imenso do senhor?
--No sabia.
--Ela no lhe disse nada?
--No.
--Ento que vem c fazer?
--Venho visit-la.
--A meia-noite?

--Isso que tem?
--Magano !
--Pois olhe! Margarida recebeu-me muito mal.
--Ver que o recebe agora melhor.
--Parece-lhe?
--Trago-lhe uma boa notcia.
--Estimo. Ento ela falou-lhe em mim?
--ontem  noite, ou antes, hoje de madrugada, quando o Armando
saiu com o seu amigo... A propsito: esse seu amigo como est?
Chama-se Gasto R. . . , no ?
--Exactamente--respondi, sem poder deixar de
sorrir, ao lembrar-me da confidncia que Gasto me fizera e
vendo que Prudncia mal lhe sabia o nome.
--1  um galante rapaz. Que faz ele?
--Goza vinte e cinco mil francos de renda.
--Ah! sim? Pois muito  em! Voltando  vaca fria: Margarida
interrogou-me a seu respeito. Perguntou-me quem era, em que se
ocupava, as amantes que tinha tido; enfim, o que se pode
perguntar acerca de um homem da sua idade. Eu disse-lhe tudo
quanto sei, acrescentando que era um excelente e encantador
rapaz, e a est.
--Muito obrigado. Agora diga-me outra coisa: de que a incumbiu ela ontem?
--De nada. o que ela dizia era para mandar o conde em ora. Mas
para hoje  que me incumbiu de uma coisa, e trago-lhe a
resposta.
Neste momento saiu Margarida do quarto de vestir, trazendo uma
elegantssima touca, ornada de tufos de fitas amarelas,
conhecidos nas esferas da moda por choux.
Estava encantadora.
Calava umas chinelinhas de cetim nos ps nus e dava os
ltimos retoques no arranjo das unhas.
--Ento--disse ela ao ver Prudncia--, falaste com o duque?
--Pudera.
--E que resposta te deu? Deu-me. . .
--Quanto ?
--Seis mil.
--Trouxeste-os ?
--Trouxe.
--E mostrou-se contrariado?
--No.
--Pobre homem !
Esse < pobre homem!" foi dito num tom impossvel de
reproduzir. Margarida pegou nas seis notas de mil francos.
--Era tempo --disse ela. Prudncia, precisas de dinheiro ?
--(  filha, tu  em sabes que depois de amanha  o dia 15. Se
pudesses emprestar-me trezentos ou quatrocentos francos,
fazias-me um grande favor.
--Manda c amanha pela manha. J  tarde para mandar trocar.
--No te esqueas.
--Fica descansada. Ceias connosco?
--No. o Carlos est l em casa  minha espera.
--Ento continuas doida por ele?
--Nem tu imaginas, minha querida. At amanha. Adeus, Armando.
E a Sr.a Duvernoy saiu.
Margarida abriu uma gaveta e atirou l para dentro as notas do
Banco.
--D-me licena que me deite? --pronunciou ela, sorrindo e

dirigindo-se para a cama.
--No s lhe dou licena, mas suplico-lho.
Atirou para os ps da cama a colcha de rendas que a co ria e
deitou-se.
--Agora, venha sentar-se ao p de mim e conversemos--convidou
ela.
Prudncia tinha razo. A resposta que trouxera, alegrara
Margarida.
--Perdoa-me o meu mau humor desta noite? --disse, pegando-me
na mo.
--Perdoo-lhe seja o que for.
--E ama-me?
--Doidamente.
--Apesar do meu mau gnio?
--Apesar de tudo.
--Jura-mo?
--Se juro!--disse-lhe eu, baixinho.
Nanine entrou nesse momento, trazendo pratos, uma galinha
fria, uma garrafa de bordus, morangos e dois talheres.
--No lhe mandei fazer ponche--informou Nanine--porque o
bordus  que lhe no faz mal. o senhor no acha?
--Decerto --respondi, ainda todo perturbado com as ltimas
palavras de Margarida e com os olhos ardentemente cravados no
seu rosto encantador.
--Bem--ordenou ela--, pe tudo isso na mesa pequena e chega-a
aqui para o p da cama. Ns c nos servimos. Passaste trs
noites em claro, hs-de estar a cair com sono. Vai-te deitar,
no preciso de mais nada.
--Quer que feche a porta  chave?
--Pudera! E olha l, no te esqueas de recomendar que amanha
no deixem entrar ningum antes do meio-dia.

Pelas cinco da manha, quando a luz do dia principiou a
branquear os cortinados, Margarida disse-me:
--Vou pr-te l fora, perdoa; no h remdio. o duque vem
todas as manhas. Quando ele aparecer, dir-lhe-ao que estou a
dormir, e  provvel que ele espere que eu acorde.
Agarrei na cabea de Margarida, cujos cabelos em desalinho
ondeavam em torno dela, dei-lhe um ltimo beijo e
perguntei-lhe:
--Quando te torno a ver?
--ouve--disse ela--, pega naquela chave doirada que est em
cima do fogo e abre a porta. Traz-ma depois e vai-te embora.
Recebers durante o dia uma carta e as minhas ordens, pois
sabes que tens te obedecer cegamente.
--E se eu j te pedisse uma coisa?
--o qu?
--Que me deixasses ficar com esta chave.
--Nunca fiz a ningum o que me pedes.
--Mas faz-me isso a mim, pois juro que os outros no te amavam
como eu te amo.
--Bem, fica com ela, mas j te previno de que s de mim
depende que te no sirva para nada.
--Porqu?
--Porque a porta tem ferrolhos por dentro.
--M!
--Mando-os tirar.
--Amas-me ento um poucochinho?

--No sei como isto foi, mas parece-me que sim. Agora vai-te
embora. Estou a cair com sono.
Conservmo-nos alguns segundos nos braos um do outro e sa.
As ruas estavam desertas, a grande cidade dormia ainda, uma
doce frescura corria por esses bairros que o barulho dos
homens ia invadir da a algumas horas.
Parecia-me que essa cidade adormecida era minha. Procurava na
memria os nomes daqueles cuja felicidade eu at ento
invejara, e no me lembrava de um s sem me julgar mais feliz
do que ele.
Ser amado por uma casta menina, ser o primeiro a revelar-lhe
esse estranho mistrio do amor, constitui, sem dvida, uma
grande felicidade, mas  a coisa mais simples deste mundo.
Apoderar-se de um corao que no est habituado aos ataques 
entrar numa cidade aberta e sem guarnio. A educao, o
sentimento dos deveres e a famlia so fortssimas sentinelas,
mas no h sentinelas to vigilantes que as no engane uma
menina de dezasseis anos a quem, pela voz do homem que ela
ama, a natureza d esses primeiros conselhos de amor tanto
mais ardentes quanto mais puros parecem.
Quanto mais a donzela acredita no bem, mais facilmente se
entrega, seno ao seu amante, pelo menos ao amor. Com efeito,
como no desconfia, no tem fora, e fazer-se amar por ela 
um triunfo que qualquer homem de vinte e cinco anos poder
conseguir quando quiser. Que isto  verdade, prova-o o facto
de rodearem as raparigas novas de baluartes e vigilncia! os
conventos no tm muros bastante altos, as mes, fechaduras
bastante fortes, a religio, deveres bastante estreitos para
meter todas essas aves encantadoras na sua gaiola, sobre a
qual nem sequer se do ao trabalho de lanar flores. Por isso,
como elas ho-de desejar esse mundo que se esconde, como devem
escutar a primeira voz que atravs das grades lhe vem contar
os seus segredos, e abenoar a mo que primeiro levantar uma
ponta do vu misterioso !
Mas ser realmente amado por uma pecadora  batalha bem mais
difcil de ganhar. Nelas o corpo gastou a alma, os sentidos
queimaram o corao, a devassido brindou os sentimentos. As
palavras que se lhe dizem, sabem-nas h muito tempo, os meios
que se empregam conhecem-nos, at o amor que inspiram j elas
o venderam. Amam por ofcio e no por entusiasmo. Guardam-nas
melhor os seus clculos do que a uma virgem a sua me e o seu
convento. Por isso inventaram a palavra "capricho" para
designar esses amores sem trfico que tm de tempos a tempos
como descanso, como desculpa, ou como consolao;
assemelham-se aos usurrios que pem a saque mil indivduos, e
que imaginam redimir tudo emprestando um dia vinte francos a
um pobre diabo que est a morrer de fome, sem exigirem juros e
sem lhe pedirem recibo.
Depois, quando Deus concede o amor a uma mulher que pecou,
esse amor, que parece ao princpio um perdo, torna-se quase
sempre para ela um castigo. No h absolvio sem penitncia.
Quando uma criatura, que tem o seu passado todo a acus-la se
sente de sbito salteada por um amor profundo sincero,
irresistvel, de que nunca se julgaria capaz, quando confessou
esse amor, como o homem assim amado a domina! Como se sente
forte com esse direito cruel de lhe dizer: "No fazes por amor
mais do que fazias por dinheiro. "
Elas ento no sabem que provas ho-de dar. Uma criana, conta

a fbula, costumava divertir-se num campo a gritar "Socorro!
Socorro!" para desviar uns trabalhadores das suas ocupaes.
Um belo dia, porm, foi atacada por um urso e gritou, mas
aqueles que com tanta frequncia tinham sido enganados no
acreditaram na sinceridade daquele apelo, e a fera devorou-a.
Acontece o mesmo com estas desgraadas raparigas quando amam a
srio. Mentiram tanta vez, que j ningum as quer acreditar, e
so, no meio deste remorso, devoradas pelo seu amor.
Da essas grandes dedicaes, essas austeras penitncias de
que algumas deram o exemplo.
Mas quando o homem que inspira essa paixo redentora tem a
alma bastante generosa para a aceitar sem se lembrar do
passado, quando se lhe entrega, quando ama, enfim, como 
amado, esgota todas as comoes terrestres, e depois desse
amor o seu corao ficar fechado para outro qualquer.
Essas reflexes no as fazia eu nessa manha, ao regressar a
casa, pois no poderiam ser seno o pressentimento do que me
ia acontecer, e, apesar do meu amor por Margarida, no
entrevia semelhantes consequncias; fao-as hoje. Como est
tudo irrevogavelmente acabado, resultam naturalmente do que
sucedeu.
Mas voltemos ao primeiro dia desta ligao. Quando entrei em
casa, sentia uma alegria louca. Ao lembrar-me de que tinham
desaparecido as barreiras colocadas pela minha imaginao
entre mim e Margarida, que a possua, que ocupava um pouco do
seu pensamento, que guardava na minha algibeira a chave do seu
quarto e o direito de me servir dessa chave, sentia-me
contente com a vida, ufano de mim prprio, e amava Deus, que
me permitira tudo isto.
Um dia um rapaz passa na rua, acotovela uma mulher, olha-a,
volta-se e segue o seu caminho. No conhece essa mulher que
tem prazeres, desgostos, amores de que ele no participa de
modo algum. No existe para ela, e talvez, se lhe falasse,
essa mulher o escarnecesse como Margarida escarneceu de mim.
Passam-se semanas, meses e anos, e de sbito, seguindo cada um
o seu destino numa ordem diferente, pe-nos a lgica do acaso
em frente um do outro. A mulher de que falamos torna-se amante
desse homem e ama-o! Como? Porqu? As suas duas existncias
confundem-se numa s, a intimidade comeou e j lhes parece
que existiu sempre, e tudo que precedeu se apaga da memria
dos dois amantes. 1 curioso, devemos confess-lo.
Quanto a mim, j no me lembrava como  que vivera antes da
vspera. Todo o meu ser exultava de jbilo ao lembrar-me das
palavras trocadas durante essa primeira noite. ou Margarida
era hbil na arte de enganar, ou tinha por mim uma dessas
paixes sbitas que se revelam logo no primeiro beijo, e que
s vezes tambm,  certo, morrem como nasceram.
Quanto mais nisso pensava, mais me convencia de que Margarida
no tinha razo alguma para fingir um amor que no sentisse, e
que as mulheres podem amar de dois modos, resultantes, por
vezes, um do outro: amam com o corao ou com os sentidos.
Frequentemente arranjam um amante apenas para obedecerem 
vontade dos sentidos, e aprendem, sem o esperar, o mistrio do
amor imaterial, passando a viver s do corao. Quantas vezes
uma rapariga procura no casamento unicamente a reunio de dois
afectos puros, e recebe essa sbita revelao do amor fsico,
essa concluso enrgica das mais castas impresses da alma!

Adormeci no meio desses pensamentos e fui acordado por uma carta de Margarida, carta que dizia o seguinte: 
"A lhe mando as minhas ordens. Esta noite no V  vill . Venha
no terceiro  intervalo 
Meti o bilhete numa gaveta, para ter sempre a realidade  mo,
no caso de eu duvidar, como me sucedia s vezes.
Como no me dizia que a fosse ver de dia, no me atrevi a
apresentar-me em casa dela; mas tinha tamanho desejo de a
encontrar antes da noite, que fui aos Campos Elsios, onde,
como na vspera, a vi passar para baixo e para cima.
As sete horas estava no Vaudeville.
Nunca entrara to cedo num teatro.
Todos os camarotes se foram enchendo sucessivamente. S se
conservava vazia a frisa do proscnio.
No princpio do terceiro acto, senti abrir-se a porta dessa
frisa em que eu estava com os olhos constantemente fitos, e
Margarida apareceu.
Veio logo para a frente do camarote, procurou na superior,
viu-me e agradeceu-me com o olhar.
Estava nessa noite maravilhosamente bela.
Era eu a causa dessa garridice? Amava-me bastante para supor
que quanto mais formosa viesse mais feliz me tornaria?
Ignorava-o ainda; mas se fora essa a sua inteno,
conseguira-o, pois, quando se mostrou, ondularam as cabeas
umas para as outras, e o actor ento em cena olhou tambm para
aquela que assim perturbava os espectadores s com a sua
apario.
E eu tinha a chave da casa dessa mulher, que dentro de trs ou
quatro horas ia de novo ser minha!
Censuram-se os que se arrrunam por actrizes ou por mulheres a
quem se paga. o que me espanta  que no faam por elas vinte
vezes mais loucuras. 1  preciso ter vivido como eu essa vida
para saber quando as pequenas vaidades de todos os dias que
elas proporcionam ao. amante engastam fortemente no seu
corao, j que no temos outra palavra, o amor que ele lhes
consagra.
Prudncia tomou depois lugar na frisa, e sentou-se ao fundo um
homem que eu reconheci pelo conde de G. . .
Ao v-lo senti um calafrio no corao.
Sem dvida, Margarida reparara na impresso que me produzira a
presena desse homem na sua frisa, pois sorriu-se para mim
outra vez e, voltando as costas ao conde, comeou a fingir que
ouvia a pea com muita ateno. No terceiro intervalo
voltou-se e pronunciou algumas palavras. o conde saiu do
camarote e Margarida fez-me sinal para que a fosse visitar.
--Boas noites--saudou-me ela quando eu entrei. E estendeu-me a
mo.
--Boas noites--disse eu, dirigindo-me a Margarida e a
Prudncia.
--Sente-se.
--Estou a tirar o lugar a algum. o senhor conde de G. . . no
volta?
--Volta. Mandei-o buscar doces para podermos conversar um
instante a ss. A Sr.a Duvernoy est no segredo.
--Sim, meus filhos--confirmou Prudncia--, mas estejam
descansados, que no digo nada.
--Que tens tu esta noite?--perguntou-me Margarida,
levantando-se e vindo ao fundo do camarote. E, na sombra,
deu-me um beijo na testa.

--Estou um pouco incomodado.
--Vai-te deitar--disse ela com esse modo irnico que to bem
se harmonizava com a sua fina e espirituosa cabea.
--Deitar-me onde?
--Na tua casa.
--Bem sabes que no dormia.
--Ento no venhas para aqui fazer-te amuado por teres visto
um homem no meu camarote.
--No  por isso.
--1 , sim, que eu bem percebo. No tens razo, e no falemos
mais em semelhante coisa. Vai, depois do espectculo, para
casa de Prudncia e deixa-te l estar at te chamarem.
Entendes?
--Sim.
Eu podia l desobedecer!
--Ainda me amas?--perguntou ela.
--  coisa que se pergunte
--Pensaste em mim?
--Todo o dia.
--Sabes que decididamente estou com medo de estar apaixonada
por ti? Pergunta antes a Prudncia.
--Ah! --respondeu a gordanchuda da Duvernoy--. Chega a ser
maador.
--Agora volta para o teu lugar. o conde no tarda e  escusado
que te encontre aqui.
--Porqu?
--Porque te  desagradvel v-lo.
--No  tal. Mas se me tivesses dito que desejavas vir ao
Vaudeville esta noite, eu podia perfeitamente, como ele,
mandar-te este camarote.
--Trouxe-mo, infelizmente, sem eu lho pedir, oferecendo-me a
sua companhia. Como muito bem sabes, era-me impossvel
recusar. Apenas podia escrever-te, Armando, a comunicar-te
aonde ia, para que me viesses ver, e porque eu tambm gostava
imenso de te tornar a ver mais cedo. Mas, se  assim que me
agradeces, deixa estar que aproveitarei a lio.
--Procedi mal, perdoa-me.
--ora muito bem, agora, para seres bonito, volta para o teu
lugar, e principalmente no armes em sentimental.
Deu-me de novo um beijo e eu sa.
No corredor encontrei o conde, que voltava para o camarote.
Tornei para a minha cadeira.
Afinal de contas, a presena do senhor de G... no camarote de
Margarida era a coisa mais simples deste mundo. Fora seu
amante, oferecia-lhe um camarote, acompanhara-a ao
teatro--tudo naturalssimo; e desde que eu tinha por amante
uma rapariga da classe de Margarida, no havia remdio seno
aceitar-lhe os hbitos.
Isso no impediu que durante o resto da noite me considerasse
um desgraado. Quando sa do teatro estava tristssimo, depois
de ter visto Prudncia e Margarida meterem-se no trem que 
porta as esperava.
Todavia, um quarto de hora depois, batia  porta da Sr.a
Duvernoy, que acabava de chegar.
--Chegou quase ao mesmo tempo que ns--disse-me Prudncia.
-- verdade--respondi eu maquinalmente. onde est Margarida?
--Em casa.
--Sozinha?

--Com o senhor de G. . .
Comecei a passear febrilmente na sala.
--Que  que tem?
--Acha que seja muito divertido ter de estar  espera que o
senhor de G... saia do quarto de Margarida?
--o Armando no  nada razovel. Veja bem que Margarida no
pode pr o conde no meio da rua. o conde de G... esteve muito
tempo com ela, deu-lhe sempre muito dinheiro, e ainda lho d.
Margarida gasta mais de cem mil francos por ano; tem muitas
dvidas. o duque manda-lhe quanto ela lhe pede, mas ela  que
nem sempre se atreve a pedir-lhe quanto precisa. No pode
ficar de mal com o conde, que lhe d os seus dez mil francos
por ano, pelo menos. Margarida, meu caro amigo, ama-o
sinceramente; mas esta ligao, no interesse de ambos, no
deve ser uma ligao sria.
"No  com os seus sete ou oito mil francos de renda que o
Armando h-de sustentar o luxo dessa rapariga; no chegava
para a carruagem. Aceite Margarida como ela , quero dizer,
como uma rapariga linda e inteligente; seia seu amante um ou
dois meses; d-lhe flores, bolos e camarotes; mas no se lhe
meta outra coisa na cabea, nem lhe faa ridculas cenas de
cimes. Sabe perfeitamente com quem est a tratar. Margarida
no  nenhuma donzela virtuosa. o Armando agrada-lhe, ama-o
deveras. No se importe com o resto. Acho graa s suas
susceptibilidades, quando apanhou a amante mais agradvel de
Paris! Tem uma mulher que o recebe num quarto magnfico,
coberta de diamantes, e que, se o Armando quiser, no lhe
custa nem um real, e ainda no est contente. Que diacho! olhe
que  pedir muito.
--Tem razo, mas, bem contra minha vontade, a ideia de que
esse homem  seu amante faz-me um mal que ningum imagina.
--Em primeiro lugar--prosseguiu Prudncia--, sabe se ele ainda
 seu amante?  simplesmente um homem de que ela precisa e
nada mais. H dois dias que lhe fecha a porta. Veio esta
manha, e Margarida no pde deixar de lhe aceitar o camarote e
de consentir que ele a acompanhasse. Trouxe-a a casa, subiu um
pedao, e a prova de que no fica  que o Armando est aqui 
espera. Tudo isto  naturalssimo, parece-me a mim. E, depois,
diga-me uma coisa: no aceita o duque?
--Pois sim, mas esse  um velho, e tenho a certeza de que
Margarida no  amante dele. Alm disso, muitas vezes
aceita-se uma ligao e no se aceitam duas. Essa facilidade
parece-se muito com o clculo e aproxima o homem que nisso
consente, embora por amor, daqueles que fazem desse
consentimento um ofcio e desse ofcio um rendimento.
--Ah, meu caro, ainda est muito atrasado! Quantos tenho eu
visto, e dos mais nobres, dos mais elegantes, dos mais ricos,
fazer o que estou a aconselhar-lhe, e sem esforo, sem
vergonha, sem remorsos ! Casos desses sucedem todos os dias.
Como queria que as mulheres de Paris, que esto por conta,
sustentassem o luxo em que vivem, se no tivessem dois ou trs
amantes ao mesmo tempo? No h riqueza, por mais considervel
que seja, que possa s por si ocorrer s despesas de uma
mulher do feitio de Margarida. Uma fortuna de quinhentos mil
francos de rendimento  em Frana uma riqueza enorme. Pois,
meu caro amigo, quinhentos mil francos no bastavam, e eu lhe
digo porqu: um homem com uma fortuna assim possui casa posta
com pompa, cavalos, carruagens, caadas, amigos; muitas vezes

 casado, tem filhos, joga, viaja, eu sei l! Esses hbitos
acham-se por tal forma radicados, que no lhe  possvel
desfazer-se deles sem passar por se ter arruinado ou sem fazer
escndalo. Feitas bem as contas, apesar dos seus quinhentos
mil francos de rendimento, no pode dar a uma mulher mais de
quarenta a cinquenta mil francos por ano, e j isso  muito.
Pois muito bem! Vm outros amores completar a despesa anual
dessa mulher. Para Margarida, ainda a situao  mais cmoda;
acertou por um milagre do Cu com um velho que possui uma
fortuna de dez milhes, a quem morreram a mulher e a filha,
que apenas tem sobrinhos, tambm ricos, e que lhe d tudo
quanto ela quer sem lhe pedir coisa alguma em troca.
Margarida, porm,  que lhe no pode pedir mais de sessenta a
setenta mil francos por ano, e tenho a certeza de que, se lhe
pedisse mais, ele, apesar da sua riqueza e da afeio que lhe
consagra, no lho dava.
"Todos esses rapazes de Paris. que tm os seus vinte ou trinta
mil francos de rendimento, quer dizer, apenas o bastante para
viverem na roda que frequentam, sabem perfeitamente, quando
so amantes de uma mulher no gnero de Margarida, que ela, com
o que lhe do, no podia pagar nem sequer a renda da casa e os
ordenados dos criados. No lhe dizem que o sabem, fingem
ignorar tudo, e, quando esto fartos, vo-se embora. Se tm a
vaidade de carregar com tudo, arrunam-se como uns patetas e
vo dar cabo do canastro para a frica, depois de deixarem cem
mil francos de dvidas em Paris. Imagina que a mulher lhes
fica, por isso, muito agradecida? Nem por sombras. Pelo
contrrio, diz que lhes sacrificou a sua posio e que,
enquanto esteve com eles, no fez seno perder dinheiro. Ah!
Acha ignbeis estes pormenores? Pois so verdadeiros. o
Armando  um rapaz encantador, de quem sou muitssimo amiga.
Vivo h vinte anos com esta espcie de mulheres, sei o que
elas so e o que valem, e no desejo v-lo tomar a srio o
capricho que inspirou a uma bonita rapariga.
"Depois, admitamos que o amor que Margarida lhe consagra seja
to forte que a leve a renunciar ao conde e ao duque, no caso
de este se aperceber da sua nova ligao e lhe dizer a ela que
escolha entre os dois. Seria enorme o sacrifcio que ela lhe
faria, incontestavelmente. E o Armando que sacrifcio igual
lhe poderia fazer? Quando a saciedade viesse, quando no
estivesse j para a aturar, enfim, como a indemnizaria de tudo
o que lhe fizera perder? De modo nenhum. T-la-ia isolado do
mundo em que estavam a sua fortuna e o seu futuro, e ela, que
lhe sacrificara os melhores anos da sua existncia, ver-se-ia
esquecida. ou, ento, o Armando portar-se-ia apenas como um
homem ordinrio, atirando-lhe  cara com o seu passado;
dir-lhe-ia que, abandonando-a, procedia como os amantes que ela tivera, e deix-la-ia
entregue a uma misria certssima; ou mostrar-se-ia homem de
bem, e julgando-se obrigado a conserv-la na sua companhia,
condenava-se a uma inevitvel desgraa, porque essa ligao,
desculpvel num rapaz, j o no  num homem de idade madura.
Constitui um obstculo para tudo, nem consente famlia nem
ambio, esses segundos e ltimos amores do homem. Acredite no
que lhe digo, meu amigo, aceite as coisas pelo valor que elas
tm, as mulheres pelo que elas so, e no d a uma rapariga de
vida fcil o direito de se apresentar como sua credora, seja
no que for. "

Era justssimo o raciocnio, e nunca eu supusera Prudncia
capaz de raciocinar assim. Tive de lhe dar razo. Apertei-lhe
a mo e agradeci-lhe os seus conselhos.
--ora vamos!--disse ela.--Afaste essas malditas teorias e
alegre-se. A vida  encantadora, a questo est no modo como a
encaramos. Consulte o seu amigo Gasto. Esse  que me parece
compreender o amor como eu. Do que deve convencer-se, de
contrrio no passar de um rapaz inspido,  de que aqui ao
p de ns h uma formosa rapariga que espera impacientemente a
sada do homem que est em sua casa, que pensa no Armando, que
lhe reserva a sua noite e que o ama, tenha a certeza. Agora
venha para a janela comigo, para vermos sair o conde, que no
tardar a ceder-lhe o lugar.
Prudncia abriu uma janela, e apoimo-nos  sacada, um ao lado
do outro.
Ela olhava para as raras pessoas que passavam e eu meditava.
Tudo o que ela dissera me zumbia na cabea, e no podia
impedir-me de confessar que ela tinha razo; mas o verdadeiro
amor que eu dedicava a Margarida no se acomodava facilmente
com essa razo. Por isso eu soltava de quando em quando uns
suspiros que faziam Prudncia virar-se e encolher os ombros,
como um mdico que perde a esperana de salvar o doente.
"Como a rapidez das sensaes nos faz sentir que a vida deve
ser curta!--pensava.--Conheo Margarida h dois dias apenas,
s  minha amante desde ontem, e j invadiu por tal forma o
meu pensamento, o meu corao e a minha alma, que a visita
desse conde de G... constitui para mim uma tortura."
Enfim o conde saiu, meteu-se na sua carruagem e desapareceu.
Prudncia fechou a janela.
No mesmo instante, chamava-nos Margarida.
--Venham depressa, esto a pr a mesa--dizia ela--; vamos
cear.
Quando entrei em casa dela, Margarida correu para mim,
saltou-me ao pescoo e beijou-me com todas as suas foras.
--Continua a estar casmurro?--perguntou ela.
--Nada, isso j acabou --respondeu Prudncia.-- Preguei-lhe
moral, e ele prometeu-me ter juzo.
--ora ainda bem!
Sem querer, deitei os olhos para a cama. No estava
desmanchada. Margarida, essa pusera j o penteador branco.
Sentmo-nos  mesa.
Encanto, meiguice, expanso, tudo Margarida possua, e eu
via-me forado a reconhecer s vezes que lhe no podia pedir
mais nada; que muita gente se julgaria feliz no meu lugar e
que, como o pastor de Virglio, no tinha seno de saborear os
cios que um deus, ou antes, que uma deusa me concedia.
Tentei, por conseguinte, pr em prtica as teorias de
Prudncia e mostrar-me to alegre como as
minhas duas companheiras; mas o que era nelas natural, em mim
exigia esforo, e o riso nervoso que eu tinha e com que elas
se enganaram, tocava muitas vezes as raias do pranto.
Enfim, acabou a ceia, e eu fiquei s com Margarida que,
conforme o seu costume, foi sentar-se no tapete diante do
lume, a olhar com tristeza para a chama do fogo.
Meditava! Em qu? No sei. Eu olhava para ela com amor e quase
com terror, ao pensar no que estava disposto a padecer por sua
causa.
--Vem sentar-te ao p de mim--disse ela, de repente.

Deitei-me ao seu lado.
--Sabes em que eu pensava?
--No.
--Numa combinao que descobri.
--Que combinao ?
--No me  possvel confiar-ta ainda, mas posso dizer-te o que
dela resultaria. Se as coisas corressem  medida dos meus
desejos, conseguiria estar livre daqui a um ms, no dever
nada a ningum e ir passar contigo o Vero ao campo.
--E no podes revelar-me de que meio te servirs?
--No. Bastar apenas que me ames como eu te amo, e tudo
acabar bem.
--E descobriste, sem auxlio alheio, essa combinao?
--Descobri.
--E hs-de execut-la sozinha ?
--As maadas sero todas para mim--declarou Margarida, com um
sorriso que nunca esquecerei--, mas repartiremos os lucros.
No pude impedir-me de corar ao ouvir a palavra "lucros".
Lembrei-me lo o de Manon Lescaut comendo com Des Grieux o
dinheiro do senhor de B...
Respondi num tom um pouco duro e levantando-me:
--Permite-me, querida Margarida, que s aceite quinho nos
lucros das empresas que eu imagine e explore.
--Que significa isso?
--Significa que desconfio muito de que o senhor conde de G...
ser teu scio nessa feliz combinao de que no aceito nem os
lucros nem os encargos.
--o senhor no passa de uma criana. Julguei que me tinha
amor, mas vejo que me enganei. Est bem.
Ao mesmo tempo levantou-se, abriu o piano e ps-se a tocar o
Convite  valsa, at quela famosa passagem em tom maior, que
sempre a atrapalhava.
Era por hbito, ou para me lembrar o dia em que nos tnhamos
conhecido? o que sei  que me voltaram as recordaes com essa
melodia e aproximando-me dela, agarrei-lhe na cabea e
beijei-a.
--Perdoas-me?--perguntei-lhe.
--Bem vs que sim --respondeu ela--; mas repara que estamos
apenas no segundo dia e que j tenho alguma coisa a
perdoar-te. Cumpres bem mal as tuas promessas de cega
obedincia.
--Que queres tu, Margarida? Amo-te demasiado e tenho cimes do
mais leves dos teus pensamentos. o que me propuseste ainda
agora, endoidecia-me de alegria se o mistrio que o precede
no me confrangesse o corao.
--ora pois, raciocinemos--tornou ela, agarrando-me nas mos e
olhando para mim com o seu sorriso encantador a que me era
impossvel resistir.-Amas-me, e no te desagradaria passares
sozinho comi o no campo trs ou quatro meses; eu tambm gostaria imenso dessa solido a duo... no s gostaria, mas
far-me-ia bem  sade. No posso sair de Paris por tanto tempo
sem pr os meus negcios em ordem, e os negcios de uma mulher
como eu so sempre muito embrulhados. Pois muito bem!
Encontrei modo de tudo conciliar, os meus negcios e o meu
amor por ti... sim, por ti, no te rias! Tenho a loucura de te
amar! E tu que fazes? Tomas esses ares de superioridade e
dizes-me frases empoladas. Criana, trs vezes criana,
lembra-te s de que te amo, e no te importes com o resto.

Fica entendido?
--Estou sempre de acordo com tudo quanto tu queres, bem sabes.
--Ento, antes de um ms, j ns estaremos a para alguma
aldeia, a passear  borda da gua e a beber leite. Parece-te
estranho que eu fale assim, eu, Margarida Gautier. E que,
quando esta vida de Paris, que parece tornar-me to feliz, no
me queima, enfastia-me, e tenho ento sbitas aspiraes a um
viver mais tranquilo que me recordaria a minha infncia. Todos
tivemos infncia, sejam quais forem os stios a que venhamos
parar. oh! Descansa, que no vou dizer-te que sou filha de um
coronel reformado e que fui educada em Saint-Denis. Sou uma
rapariga do campo e h seis anos ainda no sabia escrever o
meu nome. Ests j mais tranquilo, no  verdade? Porque foste
tu o primeiro a quem eu me dirigi para partilhares comigo a
alegria deste desejo que me ocorreu? Decerto por haver
reconhecido que o amor que me consagravas era todo para mim,
enquanto o dos outros constitura sempre mero capricho. Tenho
ido muitas vezes ao campo; mas nunca como desejava.  contigo
que eu conto para alcanar esta fcil ventura. No sejas mau e
concede-ma. "Ela com certeza no chega a velha, e um dia havia
de me arrepender de lhe no ter feito a primeira coisa que me
pediu e que era to fcil conceder-lhe",  assim que deves
pensar.
Que podia eu responder a tais palavras, sobretudo com a
lembrana de uma primeira noite de amor  espera de segunda?
Uma hora depois, tinha eu Margarida nos braos e, se ela me
mandasse cometer um crime, obedecer-lhe-ia.
As seis horas da manha, antes de sair, disse-lhe:
--At  noite.
Beijou-me com mais fora, mas no me respondeu.
Durante o dia recebi uma carta que dizia o seguinte:

"Querido filho, estou um nadinha incomodada e o mdico
recomenda-me repouso. Tenciono deitar-me cedo esta noite e no
posso receber-te. Mas, para te recompensar, espero-te amanha
ao meio-dia. Amo-te. "

A primeira palavra que me veio aos lbios foi: < Engana-me! "
Senti na testa um suor frio, porque eu j amava tanto aquela
mulher, que a desconfiana no podia deixar de transtornar-me
doidamente.
Contudo, eu devia esperar quase todos os dias esse
acontecimento com Margarida, e o mesmo me sucedera muitas
vezes com as minhas outras amantes, sem que isso me desse
grande cuidado. Donde vinha, pois, o domnio que aquela mulher
tomava sobre a minha vida?
Lembrei-me, ento, visto que tinha a chave da
casa dela na minha algibeira, de ir v-la como de costume.
Desse modo, depressa saberia a verdade, e se encontrasse um
homem na sua companhia, esbofeteava-o.
Entretanto fui aos Campos Elsios, onde me demorei quatro
horas. Margarida no apareceu. A noite entrei em todos os
teatros que ela costumava frequentar. No estava em nenhum. As
onze horas dirigi-me  Rua d'Antin.
As janelas de Margarida no tinham luz. Ainda assim toquei 
campainha.
o porteiro perguntou-me aonde ia.
--A casa de Margarida Gautier--disse-lhe.

--Ainda no veio.
--Eu espero-a l em cima.
--No est ningum em casa.
Evidentemente, eram ordens que ele recebera e por cima das
quais eu podia passar, pois tinha a chave; mas receei um
escndalo ridculo, e sa.
Mas no fui para casa. No era capaz de sair daquela rua e no
podia perder de vista a casa de Margarida. Parecia-me que
ainda tinha de saber algumas coisas de novo, ou, pelo menos,
que se iam confirmar as minhas suspeitas.
Pela meia-noite, um coup que eu conhecia perfeitamente parou
diante do nmero 9.
o conde de G... apeou-se e entrou na casa, depois de mandar
embora a carruagem.
Por um momento ainda esperei que, tal como a mim, lhe diriam
que Margarida no estava em casa e que no tardaria a v-lo
sair; mas s quatro horas da manha eu continuava ali  espera.
Tenho sofrido muito h trs semanas, mas nada comparvel,
creio, ao que sofri naquela noite.

Captulo XIV

Mal cheguei a casa, comecei a chorar como uma criana. No h
homem algum que no tenha sido enganado ao menos uma vez na
vida e que no saiba o que se sofre.
Sob o peso dessas resolues da febre, que sempre nos julgamos
capazes de pr em prtica, conclu que precisava de romper
imediatamente com tais relaes amorosas, e esperei com
impacincia o dia, para ir reservar um lugar na mala-posta e
voltar para Junto de meu pai e de minha irma, duplo amor de
que eu estava certo e que no me enganaria.
No queria partir, contudo, sem que Margarida soubesse bem
porque me afastava. S um homem que decididamente j se no
importa com a sua amante, a deixa sem lhe escrever.
Fiz e tornei a fazer de cabea mais de vinte cartas.
Relacionara-me com uma mulher semelhante a todas as da sua
espcie, poetizara-a de mais, ela tratara-me como um
estudantinho, empregando, para me enganar, um estratagema de
uma simplicidade insultante, claro. Venceu o meu amor-prprio.
Devia deixar essa mulher sem lhe dar a satisfao de saber
quanto eu sofria com esse rompimento, e eis o que lhe escrevi
com a minha letra mais elegante e os olhos rasos de lgrimas
de raiva e de dor:

"Minha querida Margarida:
"Espero que a sua indisposio de ontem fosse coisa de pouca
importncia. As onze horas da noite fui saber como estava e
responderam-me que ainda no voltara para casa. o conde de
G... teve mais sorte do que eu, pois apareceu instantes
depois, entrou, e s quatro horas da manha ainda no tinha
sado.
"Perdoe-me as poucas horas aborrecidas que lhe fiz passar e
esteja certa de que nunca esquecerei os momentos felizes que
lhe devo.
"Gostaria de ir hoje saber como estava, mas tenciono partir
para casa de meu pai.
"Adeus, minha querida Margarida! No sou to rico, que possa
am-la como eu queria, nem to pobre, que possa am-la como

era sua vontade. Esquea, pois, um nome que lhe deve ser quase
indiferente, como eu esqueo uma felicidade impossvel para
mim.
"Mando-lhe a sua chave de que nunca me servi e que pode
ser-lhe til, se estiver muitas vezes doente como ontem "

Como v, eu no tivera fora de terminar a carta sem uma
ironia atrevida, o que provava quanto estava ainda apaixonado.
Li e reli dez vezes essa carta, e a ideia de que magoaria
Margarida sossegou-me um pouco. Procurei mostrar-me forte nos
sentimentos que aquelas linhas afectavam e quando s oito
horas entrou o criado no meu quarto, entreguei-lhe a missiva,
para que a levasse imediatamente ao seu destino.
--Devo esperar pela resposta?--perguntou Jos (o meu criado
chamava-se Jos, como todos os criados).
--Se Lhe perguntarem se tem resposta, diga que no sabe e
espere.
Ainda esperava que Margarida me responderia.
Como somos pobres e fracos !
Durante o tempo todo que o meu criado andou l por fora,
estive numa agitao extrema. Umas vezes, ao lembrar-me do
modo como Margarida se me entregara, perguntava a mim prprio
com que direito lhe escrevia uma carta atrevida quando ela me
podia responder que no era o conde de G... que me enganava,
mas eu que enganava o conde de G.... raciocnio que permite a
muitas mulheres terem uns poucos de amantes. outras vezes, ao
pensar nos juramentos dessa rapariga, queria convencer-me de
que era ainda branda de mais a minha carta e de que no havia
expresses bastante fortes para estigmatizar uma mulher que se
ria de um amor to sincero como o meu. Depois dizia comigo que
andaria melhor se, em lugar de lhe escrever, tivesse ido de
dia a sua casa e saboreado dessa forma as lgrimas que a faria
chorar.
Enfim, perguntava a mim mesmo o que ela me responderia, j
pronto a acreditar na desculpa que me desse.
Jos voltou.
--Ento?--inquiri.
--A senhora--redarguiu ele--estava deitada e ainda dormia,
mas, assim que ela tocar a campainha, entregam-lhe a carta e,
se houver resposta, c vem ter.
Ainda dormia!
Vinte vezes estive quase tentado a mandar buscar a carta, mas
dizia sempre comigo:
"Talvez j lha tenham entregado, de modo que pareceria que me
arrependi."
A medida que se aproximava a hora a que era verosmil que ela
me respondesse, mais eu lamentava ter-lhe escrito.
Deram dez horas, onze horas, meio-dia.
Ao meio-dia estive quase a ir a casa dela, como se nada se
tivesse passado.
Enfim, j no sabia o que havia de imaginar para sair do
crculo de ferro que me estreitava.
A uma hora ainda esperava.
Ento pensei, com essa superstio da gente que espera, que,
se eu sasse um pedao, talvez  volta encontrasse resposta.
As respostas que se esperam com impacincia chegam sempre
quando a gente no est em casa.
Sa, por conseguinte, com o pretexto de ir almoar.

Em vez de me dirigir ao Caf Foy,  esquina do  Boulevard,
como de costume, preferi o Palais-Royal, a fim de passar pela
Rua d'Antin. Apenas avistava ao longe uma mulher, imaginava
logo que era Nanine que me trazia a resposta. Atravessei a Rua
d'Antin sem encontrar sequer um moo de recados. Cheguei ao
Palais-Royal e entrei no restaurante Vry. o criado fez-me
comer, ou antes, serviu-me tudo quanto quis, porque eu no
comi nada.
os meus olhos, involuntariamente, estavam sempre cravados no
relgio.
Vim para casa, convencido de que ia encontrar uma carta de
Margarida.
o porteiro no recebera nada. Tinha ainda esperana no meu
criado. Este, desde que eu sara, no vira ningum.
Se Margarida tencionasse responder-me, j o teria feito h
muito tempo.
Ento comecei a sentir pena de ter escrito uma carta naqueles
termos. o que eu devia era calar-me absolutamente, porque a
sua inquietao faria decerto com que ela desse um passo
qualquer; no me vendo aparecer  hora que me marcara na
vspera, perguntaria a razo da minha ausncia, e s ento 
que eu devia ter-lha dado. Dessa forma ela no podia deixar de
desculpar-se e o que eu queria era que ela o fizesse. Sentia
j que acreditaria em quaisquer razes que ela me
apresentasse, e que tudo preferiria a no voltar a v-la.
Cheguei a acreditar que viria ela prpria a minha casa. Mas
passaram as horas e... nada.
Decididamente, Margarida no era como todas as mulheres, pois
h bem poucas que, recebendo uma carta como a que eu acabava
de escrever, no respondam alguma coisa.
As cinco horas, corri aos Campos Elsios.
"Se a encontrar--pensava eu--, afecto um ar indiferente, e
ter de ficar convencida de que j no penso nela. "
A esquina da Rua Real, vi-a passar na sua carruagem; o
encontro foi to sbito, que empalideci. No sei se ela notou
a minha comoo. Eu estava to perturbado, que s vi a sua
carruagem.
No continuei a passear nos Campos Elsios. olhei para os
cartazes dos teatros, porque ainda alimentava a esperana de a
ver.
Havia no Palais-Royal uma primeira representao. Margarida ia
l com toda a certeza.
As sete horas, j eu estava no teatro.
Encheram-se todos os camarotes, porm Margarida no apareceu.
Ento, sa do Palais-Royal e entrei em todos os
teatros onde ela ia com mais frequncia: no Vaudeville, no
Variedades, na  pera Cmica.
No estava em parte nenhuma.
ou a minha carta a magoara tanto, que no pensara em
espectculos, ou tinha medo de se encontrar comigo e queria
evitar uma explicao.
Era o que a minha vaidade me segredava no Boulevard, quando
encontrei o Gasto, que me perguntou donde eu vinha.
--Do Palais-Royal.
--E eu venho da  pera. Julgava at encontrar-te
--Porqu ?
--Porque estava l a Margarida.
--Ah! Estava?

--Estava.
--Sozinha ?
--No, com uma das suas amigas.
--Mais ningum?
--o conde de G... demorou-se um instante no camarote, mas
afinal ela saiu do teatro com o duque. Eu esperava a todo o
instante ver-te aparecer. Havia ao p de mim uma cadeira que
esteve vazia toda a noite. Supus at que eras tu que a tinhas
alugado.
--Mas porque hei-de eu ir aos stios onde Margarida vai ?
--Essa  boa! Pois se s seu amante!...
--E quem te disse isso?
--Prudncia, que encontrei ontem. Dou-te os meus parabns. E
uma bonita amante que no apanha quem quer. Conserva-a, porque
d honra a um homem.
Esta simples reflexo de Gasto bastou para me mostrar quanto
eram ridculas as minhas susceptibilidades.
Se o houvesse encontrado na vspera e ouvido da sua boca
aquelas palavras, com toda a certeza no tinha escrito a tola
carta dessa manha.
Estive quase tentado a ir a casa de Prudncia e mand-la dizer
a Margarida que lhe queria falar. Mas receei que ela, para se
vingar, me respondesse que no me podia receber, e voltei para
casa, passando pela Rua d'Antin.
Perguntei de novo ao meu porteiro se chegara alguma carta para
mim.
Nada !
"Decerto quis ver se eu daria algum novo passo e se
retractaria hoje a minha carta--pensei, ao deitar-me--, mas
vendo que lhe no escrevo, escreve-me amanha. "
Foi sobretudo nessa noite que me arrependi do que fizera.
Estava s em casa, sem poder dormir, devorado pela inquietao
e pelo cime, ao passo que, se eu deixasse seguir s coisas o
seu verdadeiro curso, encontrar-me-ia ento ao p de Margarida
e ouvi-la-ia dizer-me as palavras encantadoras que s ouvira
duas vezes, e que me abrasavam na minha solido.
o que tornava horrvel a minha situao era o facto de o
raciocnio me dizer que eu no tinha razo nenhuma.
Efectivamente, tudo indicava que Margarida me consagrava
verdadeiro amor. Em primeiro lugar, esse projecto de passar o
Vero comigo no campo; depois, essa certeza de que nada a
obrigava a ser minha amante, pois os meus haveres no bastavam
para as suas necessidades e nem sequer para os seus caprichos.
Por conseguinte, a nica esperana dela era encontrar em mim
um afecto sincero, capaz de a descansar dos amores mercenrios
no meio dos quais vivia. E logo no segundo dia eu destrua
essa esperana e pagava com atrevidas ironias o amor que
aceitara durante duas noites. o meu procedimento, mais que ridculo, era, pois, desairoso. No pagara
sequer a essa mulher, e por isso no me assistia o direito de
a censurar pela vida que levava; parecia, pelo contrrio,
retirando-me logo ao segundo dia, um parasita do amor, que
receia que lhe apresentem a conta do jantar.
o qu! Havia trinta e seis horas que eu conhecia Margarida,
apenas vinte e quatro que era seu amante, e j me mostrava
ciumento? Em lugar de m julgar muito feliz por ela repartir
comigo, j queria tudo para mim, obrigando-a a despedaar as
relaes do seu passado que constituam os rendimentos do seu

futuro? De que podia eu acus-la? De nada. Comunicara-me que
no se sentia bem, quando me podia dizer cruamente, com a
hedionda franqueza de certas mulheres, que tinha um amante a
receber; e, em vez de acreditar na sua carta, em vez de ir
passear por todas as ruas de Paris, excepto pela Rua d'Antin,
em vez de passar a noite com os meus amigos e de me apresentar
no dia seguinte  hora que ela me indicava, fazia cenas de
cime, andava a espion-la, e julgava puni-la no a tornando a
ver! Ela, porm, devia at sentir-se satisfeitssima com esta
separao, devia ter-me na conta de um verdadeiro pedao de
asno, e o seu silncio nem chegava a ser despeito: era
desprezo.
Se antes de dar aquele passo eu tivesse mandado a Margarida um
presente que lhe no deixasse a mnima dvida acerca da minha
generosidade e me autorizasse, tratando-a como uma cortes, a
julgar-me quite com ela, isso sim. Mas no! No quisera
ofender com a mais leve aparncia de trfico, j no digo o
amor que ela tinha por mim, mas o amor que eu lhe dedicava. E,
se esse amor era to puro, me no admitia a ideia da partilha,
no podia pagar com um presente, por mais belo que fosse, a
felicidade que lhe haviam dado, apesar de bem pouco duradoura.
Era o que eu pensava  noite e o que a cada instante me via
tentado a ir dizer a Margarida.
Quando amanheceu, ainda no pegara no sono, sentia-me febril;
era-me impossvel pensar noutra coisa que no fosse em
Margarida.
Como percebe, precisava de tomar uma resoluo definitiva: ou
pr de lado a lembrana daquela mulher ou, ento, os meus
escrpulos, isto se ela por acaso ainda consentisse em
receber-me.
ora o senhor sabe muito bem que adiamos sempre uma resoluo
definitiva; por isso, na impossibilidade de ficar em minha
casa, e no me atrevendo a ir procurar Margarida na sua,
imaginei um meio de me aproximar dela, meio que o meu
amor-prprio podia atribuir ao acaso, se desse resultado.
Eram nove horas; corri a casa de Prudncia que me perguntou a
que devia visita to matinal.
No me atrevi a dizer-lhe francamente o que me levava l.
Respondi-lhe que sara cedo para reservar um lugar na
diligncia de C..., que era a terra em que residia meu pai.
-- bem feliz--disse-me ela--em poder sair de Paris com este
lindo tempo.
olhei para Prudncia, perguntando a mim mesmo se ela estava a
zombar de mim.
o seu rosto, porm, mostrava-se srio.
--Vai dizer adeus a Margarida? --tornou ela, sempre com a
maior seriedade.
--No.
--Faz bem.
--Acha?
--Se j rompeu com ela, para que h-de tornar a v-la?
--J sabe do nosso rompimento?
--Margarida mostrou-me a sua carta.
--E que disse ela?
--Disse: "Minha querida Prudncia, o seu protegido no  l
muito bem-educado. Estas cartas pensam-se, mas no se
escrevem."
--E em que tom lhe disse ela isso?

--A rir, e acrescentou: "Ceou duas vezes em minha casa, e nem
sequer me faz a sua visita de digesto. "
A est o efeito que tinham produzido a minha carta e o meu
cime. Senti-me cruelmente humilhado na minha vaidade e no meu
amor.
--E que fez ela ontem  noite?
--Foi  C pera.
--Bem sei. E depois?
--Ceou em casa.
--Sozinha?
--Com o conde de G. . . creio eu.
Assim, o meu rompimento em nada alterara os hbitos de
Margarida.
 nestas circunstncias que h pessoas que nos dizem: "No
pense mais nessa mulher que no o ama. "
--Estimo bem saber que Margarida no se aflige por minha
causa--pronunciei, com um sorriso forado.
--E tem carradas de razo. o senhor fez o que devia. Foi mais
ajuizado do que ela, pois essa rapariga amava-o, no falava
seno no Armando, e era capaz de fazer alguma doidice.
--Se me ama, porque me no respondeu?
--Por perceber que fazia muito mal em o amar. Depois, as
mulheres permitem s vezes que se engane o seu amor, mas nunca
que se fira a sua vaidade, e fere-se sempre a vaidade de uma
mulher quando, ao fim de dois dias de relaes, a abandonam, 
sejam quais forem as razes que se aleguem para esse
rompimento. Eu conheo Margarida; era mais fcil morrer do que
responder-lhe.
--Ento que hei-de eu fazer?
--Nada. Margarida vem a esquec-lo. o Armando h-de esquec-la
tambm. E no tero nada de que se acusarem mutuamente.
--E se eu lhe escrevesse a pedir-lhe perdo?
--No faa semelhante coisa, seno ela perdoa
Estive quase a abraar Prudncia.
Um quarto de hora depois, estava eu em casa a escrever a
Margarida.
"Um homem que se arrepende de uma carta que escreveu ontem,
que se ir embora amanha se lhe no perdoa, desejaria saber a
que horas poder depor a seus ps, Margarida, o seu
arrependimento.
"Quando a encontrar sozinha?... Porque bem sabe que as
confisses devem ser feitas sem testemunhas. "

Dobrei esta espcie de madrigal em prosa e mandei-o por Jos,
que o entregou  prpria Margarida, dizendo-lhe ela que depois
responderia.
Sa um instante apenas para ir jantar, e s onze horas da
noite ainda no recebera resposta.
Resolvi no me torturar mais tempo e ir-me embora no dia
seguinte.
Em vista desta resoluo, e certo de que, se me deitasse. no
dormiria. comecei a fazer as malas.
Captulo Xv

Havia perto de uma hora que eu e o Jos fazamos os meus
preparativos de partida, quando tocaram com violncia 
campainha.
--Vou abrir?--inquiriu o Jos.

--Abre--ordenei eu, perguntando a mim mesmo quem poderia vir
quela hora, e no me atrevendo a supor que se tratasse de
Margarida.
--So duas senhoras--disse-me Jos, entrando.
--Somos ns, Armando--gritou uma voz que eu logo conheci ser a
de Prudncia.
Sa do meu quarto.
Prudncia, de p, olhava para as poucas curiosidades da minha
sala. Margarida, sentada no canap, reflectia.
Quando entrei, dirigi-me a ela, ajoelhei, peguei-lhe nas mos
e, comovidssimo, exclamei:
--Perdo !
Beijou-me na testa e disse-me:
-- a terceira vez que lhe perdoo.
--Tencionava ir-me embora amanha.
--E como  que a minha visita o pode fazer mudar de resoluo?
Eu no venho para o impedir de deixar Paris. Venho porque no
tive tempo de lhe responder durante o dia todo, e no quis que
me julgasse zangada consigo. E a Prudncia era de opinio que eu no viesse, pois talvez o incomodasse.
--Incomodar-me, Margarida! Como?
--ora essa ! Podia estar com alguma mulher --respondeu
Prudncia--, e no seria muito agradvel para ela ver
aparecerem mais duas.
Durante essa observao, Margarida olhava para mim com
ateno.
--Minha querida Prudncia--respondi--, no sabe o que diz.
--A sua casa  muito bonita--replicou a Sr.a Duvernoy--. Pode
ver-se o quarto de dormir?
--Pode.
Dirigiu-se para o meu quarto, no tanto para o visitar como
para emendar a tolice que acabava de dizer e deixar-nos ss, a
Margarida e mim.
--Porque veio com a Prudncia? --perguntei ento.
--Porque estava comigo no espectculo, e eu queria, quando
sasse daqui, ter algum que me acompanhasse.
--Ento no me tinha a mim?
--Bem sei, mas alm de no querer incomod-lo, estava certa de
que, indo comigo at  minha porta, me pediria para entrar, e
como no podia fazer-lhe a vontade, dando-lhe, assim, o
direito de se queixar de uma recusa minha. . .
--E porque no podia receber-me?
--Porque sou muito vigiada, e a mais leve suspeita
prejudicar-me-ia grandemente.
--No h outra razo?
--Se houvesse, dizia-lha; j no estamos em circunstncias de
termos segredos um para o outro.
--Margarida, no quero meter-me por atalhos para chegar quilo
que tenho para lhe dizer. Francamente, ama-me um poucochinho ?
--Muito.
--Ento porque me enganou?
--Meu amigo, se eu fosse a duquesa fulana, se dispusesse de
duzentas mil libras de rendimento, fosse sua amante, e ao
mesmo tempo tivesse outro homem, estava o Armando no pleno
direito de me perguntar porque o engano; mas sou Margarida
Gautier, tenho quarenta mil francos de dvidas, gasto cem mil
francos por ano, e no possuo um soldo de meu... A sua
pergunta passa, por conseguinte, a ser ociosa e a minha

resposta intil.
-- justo--admiti, deixando cair a cabea no regao de
Margarida--, mas quero-lhe como um doido!
--Pois, meu amigo, era necessrio que me quisesse menos ou me
compreendesse mais. A sua carta magoou-me muito. Se estivesse
livre, em primeiro lugar no receberia o conde anteontem, ou
se o recebesse, seria eu prpria a implorar-lhe perdo, em
lugar de mo pedir a mim, como h momentos fez, e no teria
para o futuro outro amante seno o Armando. Julguei por um
momento que poderia ter esta felicidade durante seis meses; o
Armando no quis; desejava, a todo o transe, conhecer os
meios. oh, meu Deus! os meios eram faclimos de adivinhar. Era
maior do que imagina o sacrifcio que eu fazia empregando-os.
Podia dizer-lhe: preciso de vinte mil francos; como estava
apaixonado por mim, havia de os arranjar, com risco de mos
lanar depois em rosto. Preferi no lhe dever nada, e o
Armando no percebeu esse melindre. Ns, quando temos um
bocadinho de corao, damos s palavras e s coisas uma
extenso e um desenvolvimento que as outras mulheres ignoram.
Se me conhecesse bem, dar-se-ia por felicssimo com o que eu
lhe prometesse e no me perguntaria o que fiz anteontem. As
vezes somos obrigadas a comprar uma satisfao para a nossa
alma  custa do nosso corpo, e sofremos muito mais quando,
depois, essa satisfao nos foge.
Eu escutava Margarida e olhava para ela com admirao. Quando
me lembrava de que essa maravilhosa criatura, cujos ps eu
outrora loucamente ambicionara beijar, consentia em me fazer
entrar no seu pensamento, em me dar um papel na sua vida, e
que eu no me contentava ainda com o que me concedia,
perguntava a mim mesmo se o desejo dos homens tem limites,
pois, satisfeito to prontamente como fora o meu, ainda
desejava mais.
-- verdade--tornou ela.--Ns, criaturas do acaso, temos
desejos caprichosos e amores inconcebveis. Damo-nos ora por
uma coisa, ora por outra. H pessoas que se arrunam sem obter
de ns coisa alguma, e outras que nos conquistam com um ramo
de flores. o nosso corao tem caprichos:  a sua nica
distraco e a nica desculpa. Entreguei-me a ti mais depressa
do que a nenhum outro homem, posso jurar-te. E porqu? Porque,
vendo-me deitar escarros de sangue, pegaste-me na mo, porque
choraste, porque foste a nica criatura humana que se dignou
ter d de mim. Vou dizer-te uma loucura: eu tinha dantes um
cozito que olhava para mim com um ar muito triste quando eu
tossia. Foi o nico ser que amei.
"Quando morreu, chorei mais do que quando morreu minha me. 
verdade que ela passara doze anos da sua vida a bater-me. Pois
a ti amei-te logo, tanto como tinha amado o meu co. Se os
homens soubessem o que se pode obter com uma lgrima, seriam
mais amados e ns menos ruinosas.
"A tua carta desmentiu-te, revelou-me que o teu corao no
tinha perspiccia. Prejudicou-te mais no meu amor do que tudo
quanto me pudesses fazer. Era cime,  verdade, mas cime
irnico e insolente. Eu j estava triste, quando recebi essa carta. Tencionava
receber-te ao meio-dia, almoar contigo, apagar enfim com a
tua presena um pensamento incessante que me afligia e que,
antes de te conhecer, no me incomodava.
"Depois --continuou Margarida--, tu eras a nica pessoa diante

da qual eu julgara perceber logo que podia pensar e falar
livremente. Todos os que rodeiam as mulheres como eu tm
interesse em perscrutar as suas mnimas palavras, em tirar uma
consequncia das suas mais insignificantes aces.
Naturalmente, no temos amigos. Temos amantes egostas que
gastam os seus bens, no por ns, como eles dizem, mas para
satisfazer a sua vaidade.
"Esses querem que estejamos alegres quando se sentem bem
dispostos; de boa sade quando desejam cear; cpticas como
eles. -nos defeso termos corao, sob pena de nos vaiarem e
de perdermos o crdito.
"No pertencemos a ns prprias. No somos pessoas, somos
coisas. ocupamos o primeiro lugar no seu amor-prprio, o
ltimo na sua estima. Temos amigas... como Prudncia, que
foram como ns e que conservam hbitos de prodigalidade que a
sua idade no comporta. Passam ento a ser nossas amigas, ou
antes nossas comensais. A sua amizade chega ao servilismo,
nunca ao desinteresse. S nos do conselhos lucrativos. Pouco
lhes importa que tenhamos mais dez amantes, contanto que
lucrem com isso uns vestidos ou um bracelete, e possam de
tempos a tempos passear na nossa carruagem, ou ir ao teatro
para o nosso camarote. Ficam-nos com os ramalhetes da vspera,
pedem-nos emprestados os nossos xailes. Nunca nos fazem um
favor, por mnimo que seja, sem que lho paguemos pelo dobro do
seu valor. Bem viste na noite em que Prudncia me trouxe seis 
mil francos que eu encarregara de solicitar do duque para mim;
pediu-me logo emprestados quinhentos francos que nunca me
paga, ou que me paga em chapus que nem chegam a sair das
caixas.
< No podemos ter, pois, ou antes, no podia eu ter seno uma
felicidade: era, triste como s vezes me sinto, doente como
estou sempre, encontrar um homem bastante superior para no me
pedir contas da minha vida, e para ser amante das minhas
impresses muito mais do que do meu corpo. Esse homem
encontrara-o no duque, mas o duque  velho e a velhice no
protege nem consola..Julgara poder aceitar a vida que ele me
dava; mas que queres? Morreria de tdio, e afinal para se ser
consumido tanto faz a gente arrojar-se a um incndio como
asfixiar-se com carvo.
"Ento surgiste-me tu, moo ardente, feliz, e tentei fazer de
ti o homem que eu invocara no meio da minha ruidosa solido.
Eu amava em ti no o homem que eras, mas o homem que devias
ser. No aceitas esse papel, rejeita-lo como indigno de ti, s
um amante vulgar; fazes o mesmo que os outros: paga-me e no
falemos mais nisso. "
Margarida, que essa longa confisso fatigara, atirou-se para
as costas do canap e, a fim de extinguir um dbil acesso de
tosse, levou o leno aos lbios e at aos olhos.
--Perdo, perdo!--murmurei eu.--J percebera tudo isso, mas
queria ouvir-to dizer, minha Margarida adorada. Esqueamos o
resto e lembremo-nos apenas disto: pertencemos um ao outro,
somos novos e amamo-nos.
Margarida tirou a minha carta do corpete do vestido e,
entregando-ma, disse-me com um sorriso de inefvel doura:
--Aqui a tens. Trazia-a para ta entregar.
Rasguei a carta e beijei com lgrimas ma estendia.
Nesse momento Prudncia reapareceu.
--olha l, Prudncia, sabes o que ele me est a pedir?

--Est a pedir-te perdo.
--Justamente.
--E tu perdoas?
--Que lhe hei-de eu fazer! Mas ele ainda quer
mais.
--o qu?
--Quer vir cear connosco.
--E tu consentes?
--Que te parece?
--Parece-me que vocs so duas crianas e que tanto juzo tem
um como o outro. Mas tambm me parece que estou com muita fome
e que, quanto mais depressa tu consentires, mais depressa ns
cearemos.
--Vamos l--disse Margarida--, l nos arranjaremos todos trs
na minha carruagem. E olha --acrescentou, voltando-se para
mim--, a Nanine est deitada, provavelmente. Tu  que hs-de
abrir a porta. A tens a minha chave, e v l se a no perdes.
Abracei Margarida a ponto de a sufocar.
Nisto entrou Jos.
--Meu senhor--anunciou-me ele, com ar de um homem
satisfeitssimo consigo mesmo--, est tudo dentro das malas.
--Tudo?
--Sim, senhor.
--Pois ento tira  uo para fora outra vez;  a no parto.
mo que

Captulo XVI

Podia, disse-me Armando, contar-lhe em poucas palavras os
princpios desta ligao, mas queria que visse bem os
acontecimentos e de que modo l chegmos--eu a consentir em
tudo quanto Margarida queria, Margarida a no poder mais viver
sem mim.
Foi no dia que se seguiu  noite em que ela viera a minha casa
que eu lhe mandei Manon Lescaut.
Da por diante, como no podia mudar o ponto de vista da minha
amante, alterei o meu. Queria, antes de tudo, no deixar ao
meu esprito tempo de reflectir no papel que acabava de
aceitar, porque, involuntariamente, sentiria com isso uma
grande tristeza. A minha vida, em geral to sossegada,
revestiu, pois, de repente uma aparncia de barulho e
desordem. No v imaginar que, por mais desinteressado que
seja, no nos custe muito dinheiro o amor que uma cortes tem
por ns. No h nada to caro como os mil caprichos de flores,
de camarotes, de ceias, de passeios ao campo que nunca podemos
recusar  nossa amante.
Como lhe disse, eu no possua fortuna. Meu pai era e  ainda
recebedor em G.. . Goza de grande fama de honradez, e foi essa
fama que lhe permitiu arranjar facilmente a fiana que tinha
de apresentar antes de exercer este cargo. A recebedoria
d-lhe uns quarenta mil francos por ano, e nos dez anos em que j ocupou o
lugar, devolveu a fiana ao seu fiador e tratou de pr de
parte o dote da minha irma. Meu pai  o homem mais respeitvel
que se pode imaginar. Minha me, quando morreu, deixou seis
mil francos de rendimento que meu pai dividiu por mim e por
minha irma no dia em que obteve o emprego que requeria;
depois, quando cheguei aos vinte e um anos, juntou a esse

pequeno rendimento uma penso anual de cinco mil francos,
afianando-me que com oito mil francos podia viver
excelentemente em Paris, se quisesse arranjar, no foro ou na
medicina, uma posio que avolumasse ainda mais o meu
rendimento. Vim para a capital, conclu o meu curso de
direito, entrei na classe dos advogados e, como fazem muitos
rapazes, meti o meu diploma na algibeira e entreguei-me  vida
indolente de Paris. As minhas despesas eram modestssimos;
gastava, porm, em oito meses o meu rendimento anual e passava
os quatro meses do Vero em casa de meu pai, o que me dava, em
suma, doze mil francos de rendimento e fama de bom filho. No
tinha, alm de tudo, dvidas.
Eis a minha situao quando travei conhecimento com Margarida.
Percebe que, mesmo sem eu querer, as minhas despesas
aumentaram imediatamente. Margarida tinha uma ndole
caprichosssima e era uma destas mulheres que nunca
consideraram como despesa sria as mil distraces de que a
sua vida se compe. Da resultava que, querendo passar comigo
o mais tempo possvel, mandava-me dizer pela manha que
jantaria comigo, no em casa dela, mas nalgum restaurante de
Paris, ou no campo. Eu ia busc-la e jantvamos, amos ao
espectculo, muitas vezes cevamos, e eu tinha gasto  noite
quatro ou cinco luses. A minha despesa mensal subia, assim, a
dois mil e quinhentos
ou trs mil francos, o que reduzia o meu ano meses e meio e me
punha na necessidade de criar dvidas ou de deixar Margarida.
ora eu aceitava tudo, menos esta ltima eventualidade.
Perdoe-me referir-lhe todas estas coisas, mas vera que foram a
causa dos acontecimentos que se vo seguir. o que lhe conto 
uma histria verdadeira, simples, e a que deixo toda a
ingenuidade dos pormenores e toda a simplicidade do
encadeamento.
Percebi, por conseguinte, que, como nada havia neste mundo que
tivesse sobre mim influncia suficiente para me fazer
esquecer a minha amante, precisava de encontrar meio de
sustentar as despesas a que ela me obrigava. Depois, esse amor
transtornava-me a tal ponto, que todos os momentos que passava
longe de Margarida pareciam anos, e eu sentira necessidade de
queimar esses momentos no fogo de uma paixo qualquer, e de os
viver to velozmente, que no percebesse que os vivia.
Principiei a pedir emprestados cinco ou seis mil francos sobre
o meu pequeno capital, e pus-me a jogar, porque, desde que
foram suprimidas as casas de jogo, joga-se em toda a parte.
outrora, quando se entrava no Frascati, havia probabilidades
de se enriquecer: jogava-se contra dinheiro, e se se perdia,
restava ao menos a consolao de se pensar que se podia ter
ganho, ao passo que hoje, a no ser nos grmios, onde existe
ainda alguma severidade no pagamento,  quase certo que, se a
soma ganha for avultada, no a receberemos. Facilmente se sabe
porqu.
o jogo s pode ser frequentado por certos rapazes com grandes
necessidades e sem fortuna bastante para sustentarem a vida
que levam. Jogam, por isso, e da resulta naturalmente o
seguinte: ou ganham, e ento o dinheiro dos que perdem serve
para pagar os cavalos e as amantes desses senhores, o que  muito
ridculo; ou perdem, e, como j tm falta de dinheiro para a
sua vida, com mais razo lhes faltar para pagarem o que

perderam. No pagam, portanto, o que  muito desagradvel.
Contraem-se dvidas; e as relaes principiadas  roda de um
pano verde acabam por discrdias em que ficam sempre um pouco
prejudicadas a honra e a vida; e quem for honesto acha-se
muitas vezes arruinado por esses rapazes honradssimos cujo
nico defeito era o de no possurem duzentas mil libras de
rendimento.
No vale a pena falar naqueles que roubam ao jogo e de cujo
afastamento forado ou da condenao tardia somos um dia
informados.
Atirei-me, pois, a esta vida rpida, ruidosa, vulcnica, que
dantes me assustava quando pensava nela, e que se tornara para
mim o complemento inevitvel do meu amor por Margarida. Que
queria que eu fizesse ?
Se passasse sozinho em casa as noites em que no ia  Rua
d'Antin, no dormiria. o cime conservar-me-ia desperto e
queimar-me-ia o pensamento e o sangue, ao passo que o jogo
afastava por um momento a febre que me queimava o corao e o
transportava para uma paixo cujo interesse involuntariamente
me empolgava, at soar a hora em que tinha de ir para casa da
minha amante. Ento--e era nisto que eu conhecia a violncia
do meu amor--, quer ganhasse quer perdesse, deixava
implacavelmente a mesa, lamentando a sorte dos que l deixava
e que no iam encontrar como eu, quando sassem, a felicidade
e a vida.
Para a maior parte da gente, o jogo constitua uma
necessidade; para mim, um remdio.
Curado de Margarida, estava curado do jogo. Por isso, no meio
de tudo, conservava o mximo sangue
-frio; s perdia o que podia pagar, ganhava apenas o que podia
ter perdido.
De mais a mais a sorte favoreceu-me. No contraa dvidas e
gastava o triplo do que despendia no tempo em que no jogava.
Tornava-se difcil resistir a uma vida que me permitia
satisfazer, sem transtorno, os mil caprichos de Margarida. Ela
amava-me sempre cada vez mais.
Como lhe disse, comeara por ser apenas recebido da meia-noite
s seis horas da manha; depois fui admitido de quando em
quando nos camarotes; mais tarde chegou a vir jantar s vezes
comigo. Certa manha, s me fui embora s oito horas, e houve
um dia em que s sa ao meio-dia.
Enquanto no vinha a metamorfose moral, operara-se em
Margarida uma metamorfose fsica.
Eu empreendera a sua cura, e a pobre rapariga, adivinhando os
meus intuitos, obedecia-me para provar o seu reconhecimento.
Conseguira, sem abalo e sem esforo, separ-la quase
completamente dos seus antigos hbitos. o meu mdico, com quem
eu fizera que ela se encontrasse, dissera-me que s o descanso
e o sossego lhe podiam conservar a sade, de forma que
conseguira substituir as ceias e as insnias por um regime
higinico e pelo sono regular. Involuntariamente, Margarida
ia-se habituando a essa nova existncia cujos efeitos
salutares sentia. J comeava a passar algumas noites em casa,
ou ento, se estava bom tempo, embrulhava-se num xaile,
cobria-se com um vu, e amos a p, como duas crianas, correr
 noite as alamedas dos Campos Elsios. Voltava fatigada,
ceava ligeiramente, deitava-se depois de tocar a ler um
pedao, o que antes nunca lhe sucedera A tosse que me rasgava

o corao, sempre que a ouvia, desaparecera quase por
completo.
No fim de seis semanas, j se no falava no conde,
definitivamente sacrificado; s o duque me obrigava a esconder
a minha ligao com Margarida, e ainda assim fora despedido
muitas vezes quando eu l estava, com o pretexto de que a
senhora dormia e proibira que a acordassem.
Resultou do hbito e at da necessidade que Margarida
contrara de me ver, o deixar eu o jogo exactamente quando o
abandonaria um hbil jogador. Feitas as contas, achava-me, em
consequncia dos meus ganhos,  testa de uns dez mil francos
que me pareciam um capital inesgotvel.
Chegara a poca em que eu costumava ir visitar minha irma e
meu pai, e no partia; por isso tambm recebia frequentemente
cartas de ambos, cartas em que me pediam que fosse ter com
eles.
A todas essas instncias eu respondia o melhor possvel,
repetindo sempre que estava bom e que no precisava de
dinheiro, duas coisas que, quanto a mim, sempre consolariam um
pouco meu pai da demora da minha visita anual.
Aconteceu, entretanto, que certa manha Margarida, despertada
por um sol brilhante, saltou da cama abaixo e perguntou-me se
eu a queria levar a passear o dia todo ao campo.
Mandou-se chamar Prudncia, e partimos todos trs, depois de
Margarida ter recomendado a Nanine que dissesse ao duque que
ela quisera aproveitar aquele bonito dia e fora para o campo
com madame Duvernoy.
Alm da presena da Duvernoy ser necessria para tranquilizar
o velho duque, Prudncia era uma dessas mulheres que devem ter
nascido para tais passeios campestres. Com a sua inaltervel
alegria e o seu eterno apetite, no podia deixar um nico
instante de aborrecimento queles a quem fazia companhia, e
devia entender-se perfeitamente com os ovos, as
cerejas, o leite, o coelho guisado, e tudo o que, enfim,
compe o almoo tradicional dos arredores de Paris.
S nos restava saber onde iramos.
Foi ainda Prudncia quem nos tirou desse embarao.
--Querem ir ao campo a valer?--perguntou ela.
--J se v que sim.
--Ento vamos a Bougival, ao Point-du-Jour, a casa da viva
Arnould. Armando, v alugar uma calea.
Hora e meia depois estvamos em casa da viva Arnould.
Conhece talvez esta estalagem, que  hospedaria aos dias de
semana e taberna ao domingo. Do jardim que fica  altura de um
primeiro andar ordinrio, descobre-se uma vista magnfica. A
esquerda, o aqueduto de Marly fecha o horizonte;  direita,
estende-se a vista por uma infinidade de colinas; o rio, quase
sem corrente neste stio, desenrola-se como larga fita
acetinada, entre a plancie dos Gabillons e a ilha de Croissy,
eternamente embalada pelo frmito dos seus altos lamos e o
murmrio dos seus salgueiros.
Ao fundo erguem-se, banhadas por um largo raio de sol, uma
casinha branca, de telhados vermelhos, e fbricas que,
perdendo a esta distncia o seu carcter duro e comercial,
completam admiravelmente a paisagem.
Ao longe, Paris entre a bruma!
Como nos dissera Prudncia, era campo a valer e, devo diz-lo,
o almoo foi tambm a valer.

No digo isto em reconhecimento pela ventura que lhe devo, mas
Bougival, apesar do seu nome hediondo,  um dos stios mais
bonitos que se podem imaginar. Tenho viajado muito, tenho
visto coisas mais grandiosas, mas no mais encantadoras do que
esta aldeota, alegremente deitada aos ps da colina que a protege.
A viva Arnould ofereceu arranjar-nos um passeio de bote, que
Prudncia e Margarida aceitaram com alegria.
Tem-se sempre associado, e com razo, o campo ao amor; no h
moldura melhor para a mulher que se ama do que o cu azul, os
aromas, as flores, as brisas, a solido resplandecente dos
campos ou dos bosques. Por muito que se ame uma mulher, e por
maior que seja a confiana que nela se deposite, por grande
certeza que nos d acerca do futuro e do passado,  certo que
sempre se tem mais ou menos cimes. Se alguma vez esteve
apaixonado, seriamente apaixonado, sentiu decerto a
necessidade de isolar do mundo o ente em quem desejaria
absorver-se completamente. Parece que, por muito indiferente
que ela seja a tudo o que a rodeia, a mulher amada perde o seu
perfume e a sua unidade com o contacto dos homens e das
coisas. Eu sentia isso muito mais do que outro qualquer. o meu
amor no era um amor vulgar: estava to apaixonado como pode
estar uma criatura humana, mas apaixonado por Margarida
Gautier. Quero dizer, em Paris, a cada passo, podia acotovelar
um homem que fora amante daquela mulher, ou que o seria no dia
seguinte. Ao passo que no campo, no meio de pessoas que nunca
me tinham visto, e que se no importavam connosco, no seio de
uma natureza enfeitada, com a sua primavera, que  o perdo
anual, e separados do estrondo da cidade, podia esconder o meu
amor e amar sem vergonha e sem receio.
A pouco e pouco desaparecia a cortes. Eu tinha junto de mim
uma mulher nova, bela, por quem era amado e a quem amava, e
que se chamava Margarida; o passado j no tinha forma, o
futuro apresentava-se a ora desanuviado. Iluminava o sol a
minha amante, como podia iluminar a mais casta das noivas. Passemos
ambos nestes stios encantadores que dir-se-ia terem-se feito
de propsito para lembrar os versos de Lamartine, ou para
cantar as melodias de Scudo. Margarida trazia um vestido
branco, inclinava-se para o meu brao, e repetia-me  noite
debaixo do cu estrelado as palavras que me dissera na
vspera, e o mundo continuava ao longe a sua vida sem manchar
com a sua sombra o quadro ridente da nossa mocidade e do nosso
amor.
Era esse o sonho que o sol ardente desse dia me trazia atravs
das folhas, ao passo que, deitado ao comprido na relva da ilha
a que tnhamos abordado, livre de todos os laos humanos que
at a me prendiam, deixava o meu pensamento correr e colher
todas as esperanas que encontrava.
Junte a isto que do stio onde estava via eu na praia uma
encantadora casita de dois andares com uma grade em
meia-laranja; atravs desta, diante da casa, um tabuleiro de
relva, liso como veludo, e por trs do edifcio, uma mata
cheia de misteriosos retiros, e que devia apagar todas as
manhas com o seu musgo a vereda traada na vspera.
Trepadeiras floridas escondiam a escadaria externa daquela
casa desabitada, abraando-a at ao primeiro andar.
A fora de olhar para a dita casa, acabei por me convencer de

que era minha, to bem ela resumia o sonho que estava a
sonhar. Via Margarida ao meu lado, de dia no bosquezinho que
vestia a colina,  noite sentada na relva. Perguntava a mim
mesmo se teria havido algum dia criaturas terrestres to
felizes como ns.
--Que linda casa! --exclamou Margarida, que seguira a direco
do meu olhar e talvez do meu pensamento.
--onde?--perguntou Prudncia.
--Acol.
E Margarida apontava com o dedo.
--Ah! Encantadora!--concordou Prudncia.-Agrada-te?
--Muito.
--Pois ento diz ao duque que ta alugue. Ele faz-te a vontade,
com certeza. Se quiseres, encarrego-me disso.
Margarida olhou para mim como para me perguntar qual a minha
opinio.
o meu sonho voara com as ltimas palavras de Prudncia e
atirara comigo to brutalmente para a realidade, que ainda
estava atordoado da queda.
--Efectivamente,  uma excelente ideia! --balbuciei sem saber
o que dizia.
--Pois eu arranjarei tudo!--declarou, apertando-me a mo,
Margarida, que interpretava as minhas palavras segundo o seu
desejo.--Vamos a ver se ela se aluga.
A casa estava vaga. Alugava-se por dois mil francos.
--Eras feliz aqui?--perguntou-me ela.
--Tenho, por acaso, a certeza de vir para c tambm?
--Ento para que vinha eu enterrar-me naquela casa, se no
fosse para vir contigo?
--Ento, Margarida, consente que seja eu a alug-la.
--Ests doido? No s era intil, mas at perigoso; bem sabes
que no tenho direito de aceitar coisa alguma, a no ser de um
s homem. Deixa-me c, meu crianola, e no digas nada.
--Eu ento  que estou nas minhas sete quintas --disse
Prudncia.--Em tendo dois dias livres, venho pass-los
contigo.
Deixmos a casa e pusemo-nos a caminho de Paris, sempre a
conversar sobre a nossa resoluo. Eu levava Margarida pelo
brao, de maneira que, quando me apeei, comeava a encarar
menos escrupulosamente o projecto da minha amante.
Captulo XVII

No dia seguinte Margarida despediu-me de madrugada, pois o
duque devia chegar muito cedo, mas prometeu-me que, mal ele se
retirasse, me escreveria a marcar o encontro para a noite.
Efectivamente durante o dia recebi o seguinte' bilhete:
"Vou a Bougival com o duque. Deves estar em casa da Prudncia
s oito horas da noite. "
A hora indicada Margarida regressava e vinha ter comigo a casa
da Duvernoy.
--Tudo arranjado!--disse ela, ao entrar.
--Est alugada a casa?--perguntou Prudncia.
--Est; consentiu logo.
Eu no conhecia o duque, mas tinha vergonha de o enganar
assim.
--Mas ainda no fica por aqui!--tornou Margarida.
--Ento que mais temos?
--Pensei tambm no alojamento de Armando.

--Na mesma casa? --perguntou Prudncia, rindo.
--No, no Point-du-Jour, onde almomos, eu e o duque.
Enquanto ele admirava o panorama, perguntei a madame
Arnould...  assim que ela se chama, no ?... se dispunha de
algum compartimento bom. Tem exactamente um magnfico, com sala, saleta e quarto
de dormir. Parece-me que no  necessrio mais nada. Sessenta
francos por ms. Tudo mobilado de forma tal, que pode distrair
at um hipocondraco. Aluguei-o logo. Fiz bem?
Saltei aos braos a Margarida.
--E delicioso --tornou ela--; ficas com uma chave da porta
pequena, e prometi ao duque uma chave do porto, que ele no
leva, porque s l vai de dia, se for. Parece-me, aqui para
ns, que ficou encantado com este capricho, que me afasta de
Paris por algum tempo e tapa a boca at certo ponto  sua
famlia. Contudo, perguntou-me como era que eu, gostando tanto
de Paris, me decidiria a ir enterrar-me no campo. Respondi-lhe
que me sentia doente e que ia descansar. Parece que no me deu
grande crdito. o pobre velho est sempre sobressaltado.
Tomaremos, por conseguinte, muitas precaues, meu caro
Armando; porque ele manda-me vigiar com toda a certeza, e no
basta que me alugue a casa,  necessrio tambm que me pague
as dvidas... infelizmente algumas tenho. Concordas com tudo
isto?
--Concordo--respondi eu, procurando impor silncio a todos os
escrpulos que me inspirava de quando em quando este modo de
viver.
--Visitmos a casa minuciosamente. Havemos de viver l s mil
maravilhas. o duque pensou em tudo. Ah, meu
querido--acrescentou a doidinha beijando-me--, olha que s bem
feliz;  um milionrio que te faz a cama.
--E quando vais tu para l? --perguntou Prudncia.
o mais breve possvel.
--Levas a carruagem e os cavalos ?
--Levo tudo. Hs-de encarregar-te de me cuidar dos quartos
durante a minha ausncia.
oito dias depois, Margarida tomara posse da sua casa de campo,
e eu estava alojado no Point-du-Jour.
Ento principiou uma existncia que me seria difcil
descrever-lhe.
No princpio da sua estada em Bougival, no pde Margarida
romper com os seus antigos hbitos, e como em casa havia
sempre festa, iam visit-la todas as suas amigas; durante um
ms, no se passou um dia s sem que ela tivesse oito ou dez
pessoas  mesa. Prudncia trazia pela sua parte quantas
pessoas conhecia, e fazia-lhes as honras da casa, como se esta
lhe pertencesse.
o dinheiro do duque pagou tudo, como pode imaginar, e,
contudo, por mais de uma vez sucedeu vir Prudncia pedir-me
uma nota de mil francos, dizendo-me que era em nome de
Margarida. Como sabe, eu tinha algum do ganho ao jogo, e
apressei-me, por conseguinte, a entregar a Prudncia o que
Margarida me mandava pedir. Com receio de que ela precisasse
de mais do que aquele de que eu dispunha, fui a Paris
arranjar, emprestada, uma quantia igual  que j pedira tempos
antes e que pagara pontualmente.
Achei-me, assim, de novo com uns dez mil francos na algibeira,
no contando a minha penso.

Contudo, o gosto que Margarida experimentava em receber as
suas amigas foi serenando um pouco em presena das despesas a
que tal prazer a obrigava e sobretudo perante a necessidade
que ela tinha s vezes de me pedir dinheiro. o duque, que
alugara aquela casa para Margarida descansar, j l no
aparecia, com medo de encontrar numerosa e alegre companhia, a
quem ele no gostava muito de se mostrar.  que, tendo l ido
um dia para jantar a ss com Margarida, chegou no meio de um
almoo de quinze pessoas--almoo que no acabara ainda s
horas a que tencionava sentar-se  mesa para jantar. Quando,
no suspeitando de coisa alguma, abrira a porta da sala de
jantar, a sua entrada fora acolhida por um riso geral, e
vira-se obrigado a retirar-se bruscamente diante da atrevida
jovialidade das raparigas que l estavam.
Margarida levantara-se da mesa, fora ter com o duque ao quarto
prximo e procurara, tanto quanto possvel, fazer-lhe esquecer
essa aventura. Mas o velho, ferido no seu amor-prprio,
mostrara-se muito magoado e dissera-lhe, com bastante
crueldade, que estava farto de pagar as loucuras de uma mulher
que nem sequer sabia faz-lo respeitar em sua casa, e partira
irritadssimo.
Desse dia em diante ningum mais ouvira falar nele. Debalde
Margarida despedira os seus convivas e mudara os seus hbitos:
o duque no dava notcias suas. Eu ganhara com isso o
pertencer-me a minha amante mais completamente e realizar-se
afinal o meu sonho. Margarida j no podia passar sem mim. Sem
se importar com o que da resultaria, ostentava o mais
publicamente possvel o nosso amor e eu acabara por j no
sair de casa dela. os criados chamavam me "meu senhor" e
consideravam-me oficialmente como seu amo.
Prudncia fartara-se de pregar sermes a Margarida com relao
a este novo viver; mas esta respondera que me adorava, que no
podia viver sem mim e que, sucedesse o que sucedesse, no
renunciaria  felicidade de me ter sempre a seu lado,
acrescentando que todos aqueles a quem isso no agradasse,
podiam ir-se embora.
Fora isto o que eu ouvira num dia em que Prudncia dissera a
Margarida que tinha uma coisa importantssima a comunicar-lhe,
e que eu estivera  escuta  porta do quarto onde se haviam
fechado.
Tempos depois Prudncia voltou.
Quando chegou, como eu estava no fundo do jardim, ela no me
viu. Pelo modo como Margarida fora ter com Prudncia,
depreendi que iria travar-se entre ambas uma conversa
semelhante quela que eu j surpreendera, e quis escutar como
da outra vez.
As duas fecharam-se no quarto de vestir, e eu pus-me  escuta.
--Ento?--perguntou Margarida.
--Falei com o duque.
--Que te disse ele?
--Que de bom grado te perdoava a primeira cena, mas que
soubera que vivias publicamente com Armando Duval, e isso no
to perdoava. "Que Margarida deixe esse rapaz", disse-me ele, e
#dar-lhe-ei como at aqui tudo quanto ela quiser; seno que
renuncie a pedir-me se a o que for".
--E tu que respondeste?
--Que te comunicaria a sua deciso, e prometi-lhe meter-te
juzo na cabea. Pensa, minha querida filha, na posio que

perdes e que nunca Armando te poder dar. Ama-te com todas as
veras da sua alma, mas no possui riqueza para ocorrer a todas
as tuas necessidades, e um dia tero irremediavelmente de
separar-se, quando j for tarde e o duque nada mais quiser
fazer por ti. Queres que eu fale a Armand ?
Margarida parecia reflectir, porque no respondia. Batia-me o
corao com violncia, enquanto esperava a sua resposta.
--No--respondeu ela--, nem deixo Armando, nem me escondo para
viver com ele.  uma loucura, talvez, mas que queres tu, se o
amo! E ele agora, de mais a mais, habituou-se a amar-me sem
obstculo; sofreria imenso se se visse obrigado a deixar-me,
nem que fosse uma nica hora por dia! De resto, no tenho
tanto tempo para viver, que me torne infeliz
por no cumprir as ordens de um velho, cuja vista, por si s,
me faz envelhecer. Que guarde o seu dinheiro. Passa. -i sem
ele.
--Mas q    hs de tu fazer?
--No sei.
Prudncia ia decerto responder alguma coisa, mas eu entrei
bruscamente e corri a deitar-me aos ps de Margarida,
cobrindo-lhe as mos de lgrimas que a alegria de ser assim
amado me fazia derramar.
--A minha vida pertence-te, Margarida. J no precisas desse
homem. No estou eu aqui? Jamais te abandonarei. E poderia
algum dia pagar-te a felicidade que me ds? Deixemo-nos de
constrangimentos, Margarida; amamo-nos... que nos importa o
resto?
--oh! Sim, amo-te, meu Armando!--murmurou ela, cingindo os
braos ao meu pescoo.--Amo-te como nunca julgaria que podia
amar. Seremos felizes, viveremos tranquilos, e direi um eterno
adeus a uma vida que me faz agora corar. Nunca me lanars em
rosto o meu passado, no  verdade?
As lgrimas velavam-me a voz. Por nica resposta apertei
Margarida de encontro ao corao.
--olha--disse ela, voltando-se para Prudncia e com voz ainda
comovida--, conta esta cena ao duque e acrescenta que no
precisamos dele para nada.
Desse dia em diante no se falou mais no duque. Margarida j
no era a rapariga que eu conhecera. Evitava tudo quanto me
pudesse lembrar a vida em que eu a encontrara. Nunca uma
mulher, nunca uma irma teve pelo esposo ou irmo o amor e os
desvelos que ela me prodigalizava. A sua natureza doentia
estava pronta para todas as impresses, era acessvel a todos
os sentimentos. Rompera com as amigas como rompera com os seus
hbitos, com a sua linguagem como com as suas despesas de
outrora. Quem nos via sair de casa para irmos dar um passeio num barquinho
encantador que eu comprara, jamais imaginaria que aquela
mulher com o seu vestido branco, o seu grande chapu de palha,
que levava no brao a simples capa de seda que devia
garanti-la contra a frescura da gua, era essa Margarida
Gautier que, quatro meses antes, fazia barulho com o seu luxo
e os seus escndalos.
Ai! Apressmo-nos a ser felizes, como se tivssemos adivinhado
que a nossa felicidade no poderia prolongar-se por muito
tempo.
Passramos dois meses sem irmos a Paris. Ningum nos viera
visitar, a no ser a Prudncia e aquela Jlia Duprat em que

lhe falei e a quem Margarida havia de entregar depois a
tocante narrativa que aqui tenho.
Eu passava dias inteiros aos ps da minha amante. Abramos as
janelas que deitavam para o jardim e, vendo o Estio
manifestar-se alegremente nas flores que desabrocham ao seu
influxo e por baixo da sombra das rvores, respirvamos ao
lado um do outro essa vida verdadeira que nem Margarida nem eu
tnhamos compreendido at ento.
Essa mulher pasmava como uma criana com as mais pequenas
coisas. Havia dias em que corria pelo jardim, como uma criana
de dez anos, atrs de uma borboleta. Essa cortes, que fizera
com que se gastasse em flores mais dinheiro do que o bastante
para que vivesse com alegria uma famlia inteira, sentava-se
s vezes na relva, durante uma hora, para examinar uma simples
margarida.
Foi nesses momentos que leu tantas vezes Manon Lescaut. Muitas
vezes a surpreendi a anotar este livro; e dizia-me sempre que,
quando uma mulher ama, no pode fazer o que fazia Manon.
Duas ou trs vezes o duque lhe escreveu. Margarida conheceu a
letra e deu-me as cartas sem as ler.
As vezes os termos dessas cartas faziam-me chegar as lgrimas
aos olhos.
o duque supusera que, fechando a bolsa a Margarida, a
obrigaria a voltar para ele; mas, quando viu que esse meio era
intil, no pudera resistir, escrevera, pedindo como dantes,
licena para voltar, fossem quais fossem as condies
impostas.
Eu lia essas cartas instantes e rasgava-as, sem repetir a
Margarida o que elas diziam e sem lhe aconselhar que tornasse
a receber o velho, apesar de me impelir a isso um sentimento
de piedade pela dor desse pobre homem; mas receava que ela
visse nesse meu conselho o desejo de que o duque recomeasse
as suas visitas e retomasse os encargos da casa; temia, acima
de tudo, que Margarida me julgasse capaz de renegar a
responsabilidade da sua vida com todas as consequncias a que
o seu amor por mim me podia arrastar.
Da resultou que o duque, no recebendo resposta, deixou de
escrever, continuando, Margarida e eu, a viver juntos sem nos
importarmos com o futuro.
Captulo XVIII

No seria fcil contar-lhe pormenorizadamente a nossa vida.
Era cheia de criancices encantadoras para ns, mas sem
interesse para aqueles a quem as contasse. Sabe o que  amar
uma mulher, sabe como se abreviam os dias e com que amorosa
preguia os deixamos passar. No ignora esse esquecimento de
todas as coisas, que nasce de um amor violento, retribudo e
confiante. Todo o ser que no seja a mulher amada parece-nos
um ente intil na criao. Lamenta-se terem-se j atirado
parcelas do corao a outras mulheres, e no se antev a
possibilidade de apertar outra mo que no seja a que nesse
instante se segura. o crebro no admite nem trabalho nem
lembrana, nada, enfim, que pudesse distra-lo do nico
pensamento que sem cessar se lhe oferecesse. Todos os dias se
descobre na amante um novo encanto, uma voluptuosidade
desconhecida.
A existncia no passa da reiterada satisfao de um desejo
contnuo, a alma  j apenas a vestal encarregada de alimentar

o fogo sagrado do amor.
Muitas vezes amos, ao cair da noite, sentar-nos no pequeno
bosque que dominava a casa. Ali escutvamos as belas harmonias
da tarde, pensando ambos na hora prxima que nos ia abandonar
at ao dia seguinte nos braos um do outro. Ficvamos outras 
vezes deitados todo o dia, sem deixarmos sequer o sol penetrar
no nosso quarto. Estavam hermeticamente corridas as cortinas e
o mundo exterior parava um momento para ns. Apenas Nanine
tinha direito de abrir a nossa porta, mas s para nos levar as
refeies que tomvamos sem nos levantarmos e interrompendo-as
sem cessar com risos e loucuras. A isto sucedia um sono de
alguns instantes, porque, mergulhando no nosso amor, ramos
como dois mergulhadores obstinados que s voltam  superfcie
para retomar a respirao.
Surpreendia, contudo, em Margarida momentos de tristeza e at
de lgrimas. Perguntava-lhe o que motivava esse sbito pesar e
ela respondia-me:
--o nosso amor no  um amor vulgar, meu Armando. Amas-me como
se eu nunca tivesse pertencido a outro homem; e tremo que
depois, arrependendo-te do teu amor e arrojando-me ao rosto
como um crime o meu passado, me obrigues a lanar-me de novo
na existncia a que me foste buscar. Agora que saboreei uma
vida nova, morreria se voltasse  outra, no o esqueas.
Diz-me que nunca me deixars.
--Juro-to.
Ao ouvir esta afirmao, Margarida olhava para mim como para
ler-me nos olhos se o meu juramento era sincero. Depois
lanava-se-me nos braos e, escondendo a cabea no meu peito,
exclamava:
--1  que no sabes quanto te amo!
Uma noite, de cotovelos apoiados no peitoril da janela,
olhvamos para a Lua que parecia sair a custo do seu leito de
nuvens, escutvamos de mos dadas o vento que agitava
ruidosamente as rvores, e havia um bom quarto de hora que no
falvamos? quando Margarida me disse:
--Aproxima-se o Inverno; queres que partamos?
--Para onde 
--Para a Itlia.
--Aborreces-te aqui?
--Tenho medo do Inverno, tenho medo, sobretudo do nosso
regresso a Paris.
--Porqu ?
--Por muitas coisas.
E prosseguiu bruscamente, sem me dar as razes dos seus
receios:
--Queres partir? Eu vendo tudo quanto tenho, e iremos viver
para bem longe daqui, onde nada me ficar do que era, onde
ningum saber quem sou. Queres ?
--Partamos se isso te agrada, Margarida; vamos fazer uma
viagem--dizia-lhe eu--; mas que necessidade tens tu de vender
coisas que gostars de encontrar  volta? Eu no sou to rico
que possa aceitar tamanho sacrifcio, mas tenho o bastante
para podermos viajar  grande uns cinco ou seis meses, se isso
de algum modo te pode divertir.
--Afinal de contas para qu? --tornou Margarida, saindo da
janela e indo sentar-se no canap, a sombra.--amos gastar
muito dinheiro, quando eu ]a aqui te no custo pouco.
--Lanas-mo em rosto, Margarida?

--Perdoa-me!--exclamou ela, estendendo-me a mo.--Este tempo
de tempestade faz-me mal aos nervos; no digo o que quero
dizer.
E, depois de me dar um beijo, caiu num longo cismar.
Muitas vezes se renovaram estas cenas e, se eu ignorava o que
lhes dava origem, no deixava de surpreender no esprito de
Margarida um sentimento de inquietao a respeito do futuro.
No podia duvidar do seu amor, porque esse aumentava de dia
para dia, e contudo via-a muitas vezes triste, sem nunca
conseguir que me explicasse o motivo
das suas tristezas, a no ser por uma causa fsica. Receando
que ela se fatigasse de uma vida demasiadamente montona,
propunha-lhe voltar a Paris; porm, ela repelia essa proposta
e assegurava-me que em parte nenhuma podia ser to feliz como
no campo.
Prudncia aparecia agora raras vezes, mas escrevia cartas que
eu nunca pedira para ver, apesar de lanarem Margarida, sempre
que vinham, numa preocupao profunda. No sabia o que
imaginar.
Um dia Margarida deixou-se ficar no quarto. Entrei. Ela
escrevia.
--A quem ests a escrever?--perguntei.
--A Prudncia; queres que te leia o que escrevi?
Eu tinha horror a tudo o que pudesse parecer desconfiana;
respondi, por conseguinte, a Margarida que no precisava de
saber o que ela escrevia. Contudo, tinha a certeza de que essa
carta me daria a verdadeira causa das suas tristezas.
No dia seguinte estava um tempo soberbo. Margarida props-me
ir dar um passeio de barco at  ilha de Croissy. Parecia
muitssimo alegre. Eram cinco horas quando voltmos para casa.
--Veio a Sr.a Duvernoy --informou Nanine, quando nos viu
entrar.
--E foi-se embora outra vez?--perguntou Margarida.
--Sim, e foi na carruagem da senhora. Disse-me que assim
ficara combinado.
--Bem--rematou vivamente Margarida--, ponham o jantar na mesa.
Passados dois dias chegou uma carta de Prudncia, e durante
duas semanas Margarida pareceu ter rompido com as suas
misteriosas melancolias, das quais no cessava de me pedir
perdo desde que elas tinham           tir.
Mas a carruagem no voltava.
--Porque  que Prudncia te no manda o teu coup?--perguntei
uma vez.
--Est doente um dos cavalos e a carruagem precisa de
consertos. 1  melhor que tudo isso se faa enquanto aqui
estamos, pois no temos necessidade de carruagem, do que
quando voltarmos para Paris.
Prudncia veio visitar-nos dias depois e confirmou-me o que
Margarida me dissera.
Andaram as duas a passear sozinhas no jardim e quando fui ter
com elas mudaram de conversa.
A noite, no momento da partida, Prudncia queixou-se de frio e
pediu a Margarida que lhe emprestasse um dos seus xailes de
caxemira.
Assim se passou um ms, durante o qual Margarida se mostrou
mais alegre e mais apaixonada do que nunca.
No entanto a carruagem no voltara, Prudncia no mandara mais
o xaile de caxemira. Tudo isto me fazia pensar, e, como sabia

qual era a gaveta em que Margarida metia as cartas de
Prudncia, aproveitei-me dum momento em que ela estava ao
fundo do jardim, corri  gaveta e procurei abri-la, mas no
pude, pois achava-se fechada  chave.
Ento procurei nas gavetas onde habitualmente as jias e os
diamantes se encontravam guardados. Aquelas abriram-se sem
resistncia, mas os escrnios tinham desaparecido, com o que
encerravam, bem entendido.
Confrangeu-se-me o corao com um receio pungente.
Ia reclamar de Margarida que me dissesse a verdade acerca
dessas desaparies, mas ela com certeza no ma confessaria.
--Minha boa Margarida--disse-lhe eu, ento--, venho pedir-te
licena para ir a Paris. L em casa no
sabem o meu paradeiro, e  natural que tenham recebido cartas
de meu pai. Estou inquieto, e preciso de lhe responder.
--Vai, meu amigo--concordou ela--, mas volta cedo.
Parti.
Fui imediatamente a casa de Prudncia.
--Vamos--disse-lhe eu sem prembulos--; responda-me
francamente: que  feito da parelha de Margarida ?
--Vendeu-se.
--E o xaile?
--Tambm.
--os diamantes?
--Esto empenhados.
--Quem vendeu e quem empenhou?
--Eu.
--Porque me no avisou?
--Porque Margarida mo proibiu.
--Porque me no pediu dinheiro ?
--Porque ela no queria.
--Para que serviu esse dinheiro todo?
--Para pagar dvidas.
--Ento ela ainda deve muito?
--Deve ainda os seus trinta mil francos, pouco mais ou menos.
Ah, meu caro, eu bem lho tinha dito! No me quis acreditar;
agora parece-me que deve estar convencido. o estofador, em
cujo estabelecimento o duque se responsabilizara por Margarida
Gautier, foi posto no meio da rua, quando se apresentou com a
conta em casa dele, e o velho escreveu-lhe no dia seguinte a
comunicar-lhe que nada mais pagaria. o homem exigiu dinheiro,
deu-se-lhe alguma coisa por conta, e foi para isso que eu pedi
ao Armando esses milhares de francos. Depois avisaram-no umas
almas caridosas de que a sua devedora,
abandonada pelo duque, vivia com um rapaz pobre. os outros
credores receberam idntico aviso, pediram dinheiro e fizeram
penhoras. Margarida quis vender tudo, mas j no era tempo e
mesmo eu no o permitiria. No havia remdio seno pagar, e,
para no pedir dinheiro ao Armando, vendeu os cavalos o xaile
de caxemira e as jias. Quer os recibos dos compradores e as
cautelas do Montepio?
E Prudncia, abrindo uma gaveta, mostrou-me esses papis.
--Ah! Veja l...--continuou ela, com essa persistncia da
mulher que tem direito de falar.--Eu tinha razo! Imagina que
basta a gente amar e ir viver para o campo uma vida pastoril e
amorosa! No, meu amigo, no. Ao lado da vida ideal, h a vida
material, e as mais castas resolues ficam presas  terra por
uns fios ridculos, mas de ferro, e que se no quebram

facilmente. Se Margarida o no enganou j vinte vezes, 
porque  uma natureza excepcional. No  que eu a no
aconselhasse, pois fazia-me pena ver a pobre rapariga ficar
sem nada. No quis, respondeu-me que o amava e que no o
enganaria por coisa nenhuma deste mundo. Tudo isto  muito
bonito, muito potico, mas com esse dinheiro no se paga aos
credores, e hoje j se no pode desenvencilhar deles, a no
ser com uns trinta mil francos, repito.
--Bem ! Eu lhe darei esse dinheiro.
--Vai pedi-lo emprestado?
--Claro.
--Faz um bonito servio! Pr-se de mal com seu pai, atrapalhar
a sua vida, e de mais a mais trinta mil francos no se
encontram assim do p para a mo. Acredite, meu caro, que eu
conheo melhor as mulheres do que o Armando; no faa
semelhante loucura. olhe que mais dia menos dia arrepende-se.
Seja razovel. No lhe digo que deixe a Margarida, mas viva com ela
como no princpio do Vero. D-lhe liberdade de tratar dos
meios de se desempenhar. A pouco e pouco o duque ir-se-
reconciliando com Margarida. o conde de N..., ainda mo dizia
ontem, se ela quiser, paga-lhe as dvidas e d-lhe quatro ou
cinco mil francos por ms. ora ele tem duzentos mil francos de
rendimento. Ser uma boa posio para ela, ao passo que o
Armando ver-se- forado a deix-la; no espere que esteja
arruinado, tanto mais que o conde de N...  um pedao de asno,
e que nada o impedir, Armando, de continuar a ser amante de
Margarida. A princpio ela no deixar de chorar um pouco, mas
afinal acabar por se habituar, e h-de agradecer-lhe um dia o
que fizer. 1  como se Margarida fosse casada e o Armando
enganasse o marido, nada mais. Eu j uma vez lhe disse tudo
isto, mas nessa poca no passava de um conselho, e hoje 
quase uma necessidade.
Prudncia tinha cruelmente razo.
--A verdade  que--continuou, metendo na gaveta os papis que
acabava de me mostrar--as mulheres da classe de Margarida
prevem sempre que ho-de ser amadas, e nunca ho-de amar; se
no pensassem assim, punham dinheiro de parte para dar-se ao
luxo de poderem, aos trinta anos, ter um amante de graa. Se
eu soubesse o que sei agora! Enfim, no diga nada a Margarida
e leve-a para Paris. Viveu quatro ou cinco meses sozinho com
ela, j  muito razovel; feche os olhos, no exija mais nada.
Daqui a quinze dias, ela voltar para o conde de N...,
economiza no Inverno, e no prximo Vero tornam a comear.
Assim  que se faz!
E Prudncia parecia encantada com o seu conselho que repeli
com indignao. No s o meu amor e a minha dignidade me no
permitiam proceder dessa
forma, mas tambm estava convencidssimo de que Margarida
preferiria morrer, a aceitar semelhante partilha.
--Basta de brincadeiras !--exclamei.--De quanto precisa
definitivamente Margarida?
--J lhe disse: de uns trinta mil francos.
--E quando  necessrio pagar essa quantia?
--Dentro de dois meses.
--Fica por minha conta.
Prudncia encolheu os ombros.
--E, se ela a mandar vender ou empenhar mais alguma coisa,

previna-me.
--No h perigo, que j no tem nada.
Antes de ir para Bougival, fui a casa a ver se havia cartas de
meu pai. Havia quatro.

Era inquietao o que meu pai mostrava nas trs primeiras
cartas, mas na ltima deixava perceber que soubera da minha
mudana de vida e anunciava-me a sua breve chegada.
Tive sempre um grande respeito e uma sincera afeio por meu
pai. Respondi-lhe, por conseguinte, que a causa do meu
silncio fora uma pequena viagem, e pedi-lhe que me prevenisse
da sua chegada para o poder ir esperar.
Dei ao meu criado a indicao da minha morada no campo e
recomendei-lhe que me levasse a primeira carta que viesse
carimbada de C... Depois tornei imediatamente a partir para
Bougival.
Margarida esperava-me  porta do jardim.
o seu olhar exprimia inquietao. Saltou-me ao pescoo e no
pde deixar de me dizer:
--Viste a Prudncia?
--No.
--Estiveste tanto tempo em Paris!
--Encontrei cartas de meu pai a que tive de responder.
Instantes depois, Nanine entrou toda esbaforida. Margarida
levantou-se e foi falar-lhe em voz baixa.
Quando Nanine saiu, disse-me Margarida, sentando-se ao p de
mim e pegando-me na mo:
--Porque me enganaste? Tu foste a casa de Prudncia.
--Quem to contou?
--Nanine.
--E como  que ela o sabe?
--Seguiu-te.
--Ento mandaste-a seguir-me?
--Mandei. Pareceu-me que s motivo muito poderoso podia
obrigar-te a ir assim de repente a Paris, tu que me no deixas
um instante s h quatro meses. Receava que te houvesse
sucedido alguma desgraa, ou que fosses ver outra mulher.
--Criana !
--Agora estou sossegada; sei o que fizeste, mas ignoro ainda o
que te disseram.
Mostrei a Margarida as cartas do meu pai.
--No  isso o que te pergunto; o que quero saber  para que
foste a casa de Prudncia.
--Para a ver.
--Ests a mentir, meu amigo.
--Queres saber o que fui fazer? Fui perguntar-lhe se o cavalo
ia melhor e se j no precisava do teu xaile de caxemira e das
tuas jias.
Margarida corou e no respondeu.
--E soube o que tinhas feito aos cavalos, ao xaile de caxemira
e aos diamantes.
--E ficaste zangado comigo por causa disso?
--Fiquei zangado por no teres tido a ideia de me pedir o
dinheiro de que precisavas.
--Numa ligao como a nossa, se a mulher possui ainda um pouco
de dignidade, deve fazer todos os sacrifcios possveis para
no pedir dinheiro ao seu amante e para no dar um lado venal
ao seu amor. Amas-me, bem sei, mas no sabes como  tnue o

fio que prende ao corao o amor que um homem tem por uma
rapariga como eu. Quem sabe? Talvez num dia de mau humor ou de
atrapalhao te acudisse ao pensamento que nesta ligao houve
um clculo bem combinado. Prudncia  uma tagarela. Para que
precisava eu dos cavalos? Foi uma economia, vendendo-os; posso
perfeitamente dispens-los, e no gasto nada com eles.
Contanto que me ames, nada mais te peo, e tu hs-de amar-me
da mesma forma embora sem cavalos, nem caxemiras, nem jias.
Tudo isto era dito num tom to natural, que eu, ao ouvi-la,
tinha os olhos rasos de gua.
--Minha boa Margarida--respondi, apertando-lhe apaixonadamente
as mos--, no te lembraste de que eu mais tarde ou mais cedo
havia de conhecer esse sacrifcio, e que, no dia em que o
soubesse, ficaria magoado?
--Porqu ?
--Porque no quero, querida filha, que o afecto que me
consagras te prive de uma jia s que seja. No quero tambm
que, num momento de atrapalhao ou de aborrecimento, possas
pensar que, se vivesses com outro homem, no terias esses
aborrecimentos, e que te arrependas, um momento s que seja,
de viver comigo. Dentro de poucos dias ser-te-ao restitudos
os teus cavalos, os teus xailes de caxemira e os teus
diamantes. So-te to necessrios como o ar  vida, e, talvez
isto seja ridculo, mas gosto mais de ti sumptuosa do que
simples.
--Ento,  porque me no amas.
--Doidinha !
--Se me quisesses, deixavas que eu te amasse a meu modo; pelo
contrrio, no continuas a ver em mim seno uma rapariga a
quem  indispensvel este luxo e a quem te julgas sempre
obrigado a pagar. Tens vergonha de aceitar provas do meu amor.
Pensas involuntariamente em me deixar um dia e empenhas-te em
pr os teus melindres ao abrigo de toda e
qualquer suspeita. Tens razo, meu amigo, mas eu esperava mais
de ti.
E Margarida fez um movimento para se levantar. Segurei-a,
dizendo:
--Quero que sejas feliz e no tenhas censura alguma a
dirigir-me. Nada mais !
--E vamos separar-nos !
--Porqu, Margarida? Quem nos pode separar? --perguntei eu.
--Quem nos separa s tu, que me no queres permitir que
compreenda a tua posio e tens a vaidade de me conservares na
minha; tu, que conservando-me no luxo no meio do qual tenho
vivido, pretendes manter a distncia moral que nos separa; tu,
enfim, que no julgas bastante desinteressada a minha afeio,
no imaginas que posso resignar-me a viver feliz contigo, com
os haveres que possuis, e preferes arruinar-te, em obedincia
a um preconceito ridculo. Achas-me ento capaz de trocar pelo
teu amor uma carruagem e umas jias? Pensas que a felicidade
consiste para mim nas vaidades com que se contenta quem no
tem amor a coisa alguma, mas que se tornam bem mesquinhas
quando se ama? Pagas as minhas dvidas, diminuis os teus
rendimentos, enfim, sustentas-me  larga. Quanto tempo pode
durar isto tudo? Dois ou trs meses, e no fim j  tarde para
encetar a vida que eu te proponho, porque ento aceitavas tudo
de mim, e  o que um homem honrado no pode fazer. E agora?
Agora dispes de oito ou dez mil francos de rendimento, e com

isso podemos viver perfeitamente. Vendo o suprfluo do que
tenho, e s com essa venda arranjo um rendimento de dos mil
francos por ano. Alugaremos uma linda casinha, onde viveremos
ns ambos. De Vero, iremos para o campo, no para uma casa
como esta, mas para uma vivendazinha que chegue para duas
pessoas. l s independente, eu sou livre, somos novos. Por amor
de Deus, Armando, no me atires outra vez para a vida que
dantes era obrigada a levar.
Eu no podia responder, inundavam-se-me os olhos de lgrimas
de reconhecimento e de amor, e precipitei-me nos braos de
Margarida.
--Queria--tornou ela--arranjar tudo sem te dizer coisa alguma,
pagar todas as minhas dvidas e mandar preparar a minha casa
nova. Quando regressssemos a Paris no ms de outubro, estaria
tudo pronto; mas, j que Prudncia te ps ao corrente das
minhas diligncias, no h remdio seno consentires antes, em
vez de consentires depois. Amas-me bastante para o fazer?
Era impossvel resistir a tanto afecto. Beijei as mos de
Margarida com efuso e declarei:
--Fao tudo o que quiseres.
Assentou-se, por conseguinte, no que ela decidira.
Ento apoderou-se de Margarida uma alegria louca: danava e
cantava. A simplicidade da sua nova casa era para ela uma
festa. Consultava-me acerca do bairro em que devia ser e a
disposio que devia dar-se-lhe.
Via-a feliz e ufana com esta resoluo que parecia destinada a
juntar-nos definitivamente.
No lhe quis ficar atrs.
Num instante decidi da minha vida. Vi o estado em que se
encontravam os meus bens e resolvi fazer doao a Margarida
dos rendimentos que me provinham de minha me e que me
pareceram insuficientssimos para recompensar o sacrifcio que
eu aceitava.
Restavam-me os cinco mil francos da penso que me dava meu
pai, e, houvesse o que houvesse, essa penso anual era mais do
que suficiente para eu viver.
No disse a Margarida a deciso que tomara, convencido de que
ela no aprovaria o meu acto.
Esse rendimento provinha de uma hipoteca de sessenta mil
francos sobre um prdio que eu nunca vira sequer. o que sabia
era que todos os trimestres o tabelio de meu pai, velho amigo
da nossa famlia, me entregava setecentos e cinquenta francos
em troca de um simples recibo meu.
No dia em que eu e Margarida viemos a Paris procurar casa, fui
ao cartrio desse tabelio e perguntei-lhe o que havia de
fazer para transferir para outra pessoa esse rendimento.
o bom do homem julgou-me arruinado e interrogou-me acerca da
causa dessa deciso. ora como eu, tarde ou cedo, tinha de lhe
dizer a favor de quem fazia essa doao, preferi contar-lhe
imediatamente a verdade.
No me apresentou nenhuma das objeces que a sua posio de
tabelio e amigo o autorizava a fazer-me e assegurou-me que se
encarregava de arranjar as coisas o melhor que pudesse.
Recomendei-lhe, como era natural, a maior discrio quanto a
meu pai, e fui ter com Margarida, que estava  minha espera em
casa de Jlia Duprat, onde ela antes quisera ficar do que ir
aturar os sermes de Prudncia.
` Comemos a procurar casa. Todas as que vamos, Margarida

achava-as muito caras, e eu muito simples. Contudo, acabmos
por estar de acordo, e ajustmos, num dos bairros mais
tranquilos de Paris, um pequeno pavilho, isolado da casa
principal.
Por trs dele estendia-se um jardim encantador, jardim que lhe
pertencia e que era ladeado por muros bastante elevados para
nos separarem dos nossos vizinhos e suficientemente baixos
para no limitarem a vista.
Era melhor do que tnhamos esperado.
Enquanto eu ia a minha casa para rescindir o contrato de
arrendamento, Margarida dirigia-se a casa de um procurador
que, segundo ela dizia, j fizera a uma das suas amigas o
mesmo que ela lhe ia pedir.
Veio encontrar-se comigo, satisfeitssima,  Rua de Provena.
Esse homem prometera-lhe pagar todas as dvidas, dar-lhe
quitao e ainda uns vinte mil francos a troco de todo o
recheio da casa que ela at ali ocupara.
o senhor viu, pelo que rendeu no leilo, que esse honrado
homem ganharia mais de trinta mil francos com a sua cliente.
Partimos alegrssimos para Bougival e fomos todo o caminho a
comunicarmos um ao outro as nossos projectos de futuro que,
graas  nossa leviandade e sobretudo ao nosso amor, vamos
com as tintas mais alegres.
oito dias depois, estvamos ns a almoar quando Nanine me
veio dizer que o meu criado me procurava.
Mandei-o entrar.
--Senhor! --disse-me ele--, seu pai chegou a Paris e pede-lhe
que v imediatamente a casa, onde est  sua espera.
Esta notcia era a coisa mais simples deste mundo. Contudo, ao
sab-la, eu e Margarida olhmos um para o outro. Adivinhmos
neste incidente uma desgraa. Assim, sem ela me participar
essa impresso que eu partilhava, respondi, pegando-lhe na
mo:
--Nada receies.
--Volta o mais cedo que puderes--murmurou Margarida,
beijando-me.--Espero-te  janela.
Disse a Jos que prevenisse meu pai de que eu no demoraria.
Realmente, da a duas horas estava na Rua de Provena.
Meu pai, em roupo, estava sentado na minha sala a escrever.
Percebi logo, pela maneira como levantou os olhos para mim
quando entrei, que se ia tratar de coisas srias.
Aproximei-me dele, contudo, como se nada tivesse adivinhado no
seu rosto, e beijei-o.
--Quando chegou, meu pai ?
--ontem  noite.
--Veio, como de costume, ficar a minha casa?
--Vim.
--Tenho pena de no estar c para o receber.
Esperava ver surgir logo a esta palavra a rabecada que o rosto
frio de meu pai anunciava; mas ele no me respondeu, fechou a
carta que acabava de escrever e deu-a ao Jos para a deitar no
correio.
Quando ele saiu, meu pai levantou-se e disse-me, encostando-se
ao fogo:
--Meu querido Armando, temos de falar em coisas srias.
--Estou s suas ordens, meu pai.
--Prometes-me ser franco?
--1  esse o meu costume.

--1  verdade que vives com uma mulher chamada Margarida
Gautier?
--1 , sim, meu pai.
--Sabes quem era essa mulher?
--Era uma pecadora.
--Foi por causa dela que te esqueceste de nos visitar este
ano, a mim e a tua irma?
--Foi, sim, meu pai; devo confess-lo.
--Amas ento muito essa mulher?
--J v que sim, meu pai, porque me fez faltar a um dever
sagrado, e por isso lhe peo hoje humildemente perdo.
Meu pai no esperava decerto to categricas respostas;
pareceu reflectir um instante antes de me dizer:
--Evidentemente, j percebeste que no podes viver sempre
assim...
--Receio-o, mas no o percebi.
--Mas devias ter percebido--tornou meu pai num tom j mais
srio--que eu no consentiria.
--Pensei que, enquanto nada fizesse contrrio ao respeito que
devo ao seu nome, meu pai, e  probidade tradicional de
famlia, poderia viver como vivo, o que dissipou um pouco os
receios que eu tinha.
As paixes tornam o homem forte. Eu estava pronto para todas
as lutas, at contra meu pai, para conservar Margarida.
--Ento chegou o momento de viver de outro modo.
--ora essa! Porqu, meu pai?
--Porque ests quase a fazer coisas que ferem o respeito que
julgas ter pela tua famlia.
--No percebo essas palavras.
--Vou explicar-tas. Que tenhas uma amante, compreendo; que lhe
pagues como um cavalheiro deve pagar o amor duma mulher venal,
 perfeitamente compreensvel; mas que te esqueas por ela das
coisas mais santas, que permitas que a notcia da sua vida
escandalosa chegue ao fundo da minha provncia e lance a
sombra de uma ndoa no nome honrado que eu lhe dei, isso  que
no pode ser, isso  que no h-de ser.
--Permita-me que lhe diga, meu pai, que aqueles que lhe
contaram tais coisas a meu respeito, estavam mal informados.
Sou amante de Margarida Gautier, vivo com ela,  a coisa mais
simples deste mundo. No dou a Margarida Gautier o nome que de
meu pai recebi, gasto com ela o que os meus recursos me
permitem, no me endividei, e no me coloquei, enfim, em
nenhuma dessas posies que autorizam um pai a dirigir a seu
filho o que acaba de dizer-me.
--Um pai est sempre autorizado a desviar seu filho do mau
caminho em que v que ele entra. Ainda no fizeste coisa que
fique mal, mas hs-de faz-la.
--Meu pai!
--Conheo a vida melhor que tu. Apenas as mulheres
inteiramente castas possuem sentimentos inteiramente puros.
No h Manon que no possa criar um Des Grieux, e o tempo e os
costumes mudaram. Seria intil que o mundo envelhecesse, se
no se corrigisse. Hs-de deixar a tua amante.
--Sinto muito desobedecer-lhe, meu pai, mas  impossvel.
--Saberei obrigar-te.
--Infelizmente, meu pai, j no h ilhas de Santa Margarida
para onde se mandem as cortess, e, se as houvesse, eu
acompanharia Margarida Gautier, se o senhor conseguisse que

para l a mandassem. Que quer? Talvez eu- no tenha razo, mas
s continuando a ser amante dessa mulher poderei ser feliz.
--Ento, Armando, abre os olhos, reconhece teu pai, que sempre
foi teu bom amigo e deseja apenas a tua felicidade. 1  digno
de ti ires viver maritalmente com uma rapariga que todos
possuram?
--Que importa, meu pai, se ningum mais a h-de possuir? Que
importa, se essa mulher me adora, se se regenera pelo amor que
me tem e pelo amor que eu lhe tenho? Que importa, enfim, se h
converso?
1 : de mais! Pois acreditas que a misso de um homem de honra
seja a de converter cortess? Imaginas que Deus deu esse fim
grotesco  vida e que o corao no deve ter outro entusiasmo?
Que resultar dessa cura maravilhosa, e que pensars do que
ests hoje a dizer quando chegares aos quarenta anos? Hs-de
rir-te do teu amor, se dele te puderes ainda rir, se ele no
houver deixado no passado rastos demasiadamente profundos. Que
seria hoje feito de ti se teu pai tivesse tido essas ideias e
entregado a sua vida a todos esses sopros de amor, em vez de a
assentar inabalavelmente num pensamento de honra e de
lealdade? Reflecte, Armando, e no me tornes a dizer
semelhantes tolices. Vamos, deixa essa mulher,  teu pai que
to pede.
No respondi uma palavra.
--Armando--continuou meu pai--, em nome da tua santa me,
acredita-me, renuncia a essa vida que esquecers mais depressa
do que pensas e que te acorrenta a uma existncia impossvel.
Tens vinte e quatro anos, pensa no futuro. No podes amar
sempre essa mulher, que talvez seja a primeira a abandonar-te.
"Exagerais ambos o vosso amor. Ests a fechar para ti todas as
carreiras. Mais um passo, e no poders deixar o caminho em
que entraste, e hs-de ter durante toda a vida o remorso da
tua mocidade.
"Parte, vem passar um ms ou dois na companhia da tua
extremosa irma. o descanso e o amor piedoso
da famlia ho-de curar-te depressa dessa febre, porque no 
mais nada.
"Durante esse tempo a tua amante ir-se- consolando; arranjar
outro homem, e quando vires quem  a mulher que te ia pondo de
mal com teu pai, a mulher que te ia fazendo perder a sua
afeio, dir-me-s que procedi bem em vir buscar-te e hs-de
bendizer-me.
"Vamos, sempre partes comigo, no  verdade, Armando ? )>
Eu sentia que meu pai tinha razo com respeito a todas as
mulheres, mas estava convencido de que o mesmo no sucedia
quanto a Margarida. Mas o tom em que me dissera as suas
ltimas palavras era to meigo, to suplicante, que eu no me
atrevia a responder-lhe.
--Ento?--exclamou ele, com voz comovida.
--Ento, meu pai, nada lhe posso prometer--respondi por
fim.--o que me pede  superior s minhas foras.
Creio--continuei, vendo-lhe fazer um movimento de
impacincia--que exagera o resultado desta ligao. Margarida
no  a rapariga que imagina. Esse amor, longe de me arrojar
para um mau caminho,  capaz, pelo contrrio, de desenvolver
em mim os mais honrados sentimentos. o amor verdadeiro torna o
homem sempre melhor, seja qual for a mulher que o inspire. Se
conhecesse Margarida, concluiria que me no exponho a desgraa

alguma.  nobre como as mulheres mais nobres. H tanto de
cobia nas outras como nela de desinteresse.
--o que a no impede de aceitar todos os teus bens, porque os
sessenta mil francos que herdaste de tua me e que vais dar a
essa mulher, constituem, lembra-te bem do que te digo, a
totalidade dos teus haveres.

Meu pai reservara, provavelmente, essa perorao e essa ameaa
para me vibrar o ltimo golpe.
Eu tinha mais fora contra as suas ameaas do que contra os
seus pedidos.
--Quem lhe disse que eu tencionava dar-lhe essa quantia?
--o meu tabelio. Um homem de bem fazia semelhante escritura
sem me prevenir? Pois foi para impedir que te arrunes em
favor de uma cortes que eu vim a Paris. Tua me deixou-te,
por sua morte, o bastante para viveres dignamente, e no para
teres generosidades com as tuas amantes.
---Juro-lhe, meu pai, que Margarida ignorava essa doao.
--Ento porque a fazias?
--Porque Margarida, essa mulher que meu pai calunia e que quer
que eu abandone, sacrifica tudo quanto possui para viver
comigo.
--E aceitas esse sacrifcio? Que homem s tu que consentes que
uma Margarida qualquer te sacrifique seja o que for? Vamos,
acabou-se. Deixa essa mulher. H momentos pedi, agora ordeno.
No quero porcarias destas na minha famlia. Faz as tuas malas
e prepara-te para me seguires.
--Perdoe-me, meu pai--disse-lhe ento--, mas no parto.
--Porqu?
--Porque j estou na idade em que se no obedece a uma ordem.
Meu pai empalideceu ao ouvir esta resposta.
--Muito bem--tornou ele--, j sei o que me resta fazer.
Tocou a campainha.
Jos apareceu.
--Manda transportar as minhas malas para o Hotel de Paris. E
ao mesmo tempo foi para o seu quarto, onde acabou de se
vestir.
Quando reapareceu, foi ao seu encontro.
--Promete-me, meu pai--disse-lhe eu--, no fazer coisa alguma
que possa magoar Margarida?
Meu pai deteve-se, olhou para mim com desdm e limitou-se a
responder-me:
--Creio que enlouqueceste.
E saiu, batendo com violncia a porta.
Desci tambm, aluguei um ca riolet e parti para
Bougival.
Margarida esperava-me  janela.
--At que enfim! --exclamou ela, saltando-me ao pescoo.--C
ests. Como vens plido !
Ento contei-lhe a cena passada com meu pai.
--Ah, meu Deus ! Desconfiava disso mesmo --disse ela.--Quando
Jos nos veio anunciar a chegada de teu pai, estremeci como se
recebesse a notcia de uma desgraa. Pobre amigo! Sou eu que
te causo todos estes desgostos. Talvez fosse prefervel
deixares-me, a indispores-te com teu pai. Contudo no lhe fiz
mal nenhum. Vivemos to tranquilos, vamos viver mais
tranquilos ainda. Ele bem sabe que precisas de uma amante, e
devia at gostar de que fosse eu, porque te amo e ambiciono

apenas o que a tua posio te permite. Disseste-lhe como
arranjmos o nosso futuro?
--Disse, e foi o que mais o irritou, porque viu nessa
determinao a prova do nosso mtuo amor.
--Ento que se h-de fazer?
--Ficarmos juntos, minha boa Margarida, e deixarmos passar a
tempestade.
--E ela passar?
--Por fora.
--Mas teu pai ficar por aqui?
--Que queres tu que ele faa?
--Eu sei tudo aquilo de que um pai  capaz para
que seu filho obedea. H-de lembrar-te a minha vida passada,
e talvez at me faa a honra de inventar a meu respeito alguma
histria nova para tu me abandonares.
--Bem sabes que te amo.
--Sei, mas tambm no ignoro que cedo ou tarde tem de se
obedecer aos pais, e talvez acabes por te deixar convencer.
--No, Margarida; eu  que o convencerei. As bisbilhotices de
alguns dos seus amigos  que o irritam assim, mas ele  bom, 
justo, h-de emendar a sua primeira impresso. E, afinal, que
me importa!
--No digas isso, Armando; eu preferia tudo a autorizar que se
supusesse que fui eu que te indispus com a tua famlia. Deixa
passar o dia de hoje, e amanha volta a Paris. Teu pai
reflectir decerto como tu, e talvez se entendam melhor. No
vs de encontro aos seus princpios, finge fazer alguma
concesso aos seus desejos e no mostres estar to aferrado a
mim, e  possvel que ele deixe as coisas como esto. Tem
esperana, meu amigo, e fica certssimo de uma coisa:  que,
suceda o que suceder, a tua Margarida h-de amar-te sempre.
--Juras-mo ?
--Preciso la de to jurar!
Como  bom a gente deixar-se tranquilizar por uma voz adorada!
Margarida e eu passmos o resto do dia a repetir um ao outro
os nossos projectos como se tivssemos compreendido a
necessidade de os realizar o mais depressa possvel.
Recevamos a cada instante algum acontecimento, mas felizmente
passou o dia sem nada de anormal.
No dia seguinte parti s dez horas e cheguei ao meio-dia ao
hotel.
Meu pai j sara.
Imaginei que tivesse ido a minha casa e encaminhei-me para l.
Ningum l fora. Dirigi-me ao cartrio do tabelio. Ningum.
Voltei para o hotel e esperei at s seis horas. Meu pai no
apareceu.
Tornei para Bougival.
Encontrei Margarida, no  minha espera como na vspera, mas
sentada ao canto do lume, que o adiantado da estao j
exigia.
Achava-se to imersa nas suas reflexes, que me aproximei da
sua poltrona sem ela dar conta nem se virar. Quando lhe pus os
lbios na testa, estremeceu como se esse beijo a houvesse
despertado em sobressalto.
--Meteste-me medo --disse-me ela. pai?
--No o vi. No compreendo o que isto significa. Nem o
encontrei em casa, nem em stio algum daqueles a que era
provvel que ele fosse.

--Tens de voltar l amanha.
--A minha vontade  esperar que ele me escreva. Parece-me que
j fiz tudo quanto devia.
--No, meu amigo, isso no basta;  preciso que voltes a casa
de teu pai, e sobretudo que voltes amanha.
--Porque h-de ser amanha e no outro dia qualquer?
--Porque--declarou Margarida, que me pareceu ter corado um
poucochinho com esta pergunta--, porque a tua insistncia
parecer assim mais viva e mais prontamente dela resultar o
nosso perdo.
Margarida passou o resto do dia preocupada, distrada e
triste. Era obrigado a repetir-lhe duas vezes as coisas para
obter uma resposta. Ela atribua essa preocupao aos receios
que lhe inspiravam para o futuro os acontecimentos sobrevindos
nesses dois dias.
Passei a noite a sosseg-la, e Margarida fez-me partir no dia
seguinte com uma insistncia inquietante que eu no percebia.
Meu pai estava ausente como na vspera; mas deixara-me esta
carta:

"Se voltares hoje c, espera-me at s quatro horas; se eu no
chegar at essa hora, vem amanha jantar comigo; preciso de te
falar."
Esperei at  hora marcada. Como meu pai no apareceu,
retirei-me.
Na vspera encontrara Margarida triste; nesse dia achei-a
febril e agitada. Ao ver-me entrar, saltou-me ao pescoo e
chorou muito tempo nos meus braos.
Interroguei-a acerca dessa dor sbita, cujo grau me
inquietava. No me deu qualquer razo positiva, alegando tudo
o que uma mulher pode alegar quando no quer dizer a verdade.
Logo que a vi mais sossegada, contei-lhe os resultados da
minha viagem: mostrei-lhe a carta de meu pai, fazendo-lhe
observar que era de bom agouro.
A vista dessa carta e a reflexo que eu fiz redobraram por tal
forma as lgrimas, que chamei Nanine e, receando um ataque
nervoso, deitmos a pobre rapariga que chorava sem proferir
uma nica slaba, mas que me segurava nas mos e as beijava a
cada instante.
Perguntei a Nanine se durante a minha ausncia sua ama
recebera qualquer carta ou visita que pudesse motivar o estado
em que eu a achava, mas ela respondeu-me que no viera l
ningum e que no tinham trazido coisa nenhuma.
Contudo, devia ter-se passado desde a vspera algo deveras
assustador que Margarida me ocultava. A meia-noite pareceu um
pouco mais sossegada e, fazendo-me sentar ao p da cama,
assegurou-me de novo que me tinha um amor infinito. Depois,
sorria-se para mim, mas com esforo, porque involuntariamente
nublavam-se-lhe os olhos de lgrimas.
Empreguei todos os meios para lhe fazer confessar a verdadeira
causa desse desgosto, mas embirrou em dar-me sempre as razes
vagas que j lhe disse.
Acabou por adormecer nos meus braos, mas com esse sono que
quebra o corpo em vez de o descansar: de quando em quando,
soltava um grito, despertava em sobressalto, e depois de se
certificar de que eu estava junto dela, obrigava-me a
jurar-lhe que a havia de amar sempre.
Eu no compreendia essas intermitncias de dor que se

prolongaram at pela manha. Ento Margarida caiu numa espcie
de modorra. Havia duas noites que no dormia.
Esse descanso no durou muito.
Pelas onze horas, acordou e, vendo-me levantado olhou em torno
de si e exclamou:
--J te vais embora?
--No--tornei-lhe, pegando-lhe nas mos--, o que quis foi
deixar-te dormir. Ainda  cedo.
--A que horas vais a Paris?
--As quatro.
--At essa hora, no sais de ao p de mim, no?
--Decerto que no! Pois no  esse o meu costume?
--Que bom! Vamos almoar? --perguntou ela, distrada.
--Se queres...
--E at te ires embora, ds-me muitos, muitos beijos ?
--Dou, e volto o mais depressa que puder.
--Voltas ?
--Claro.
--Tens razo, voltas esta noite, e eu espero-te como de
costume, e tu amas-me e seremos felizes como desde que nos
conhecemos.
Todas estas palavras eram ditas num tom to sacudido, pareciam
esconder um pensamento doloroso to contnuo, que eu receava a
cada instante ver Margarida cair em delrio.
--ouve--disse-lhe eu--, ests doente, no te posso deixar
assim. Vou escrever a meu pai, dizendo-lhe que me no espere. 
No! No! --exclamou ela bruscamente.-No faas isso. Teu pai
podia acusar-me de no te deixar ir a casa dele quando te quer
ver; no,  preciso que vs,  indispensvel! Demais, eu no
estou doente, estou de perfeita sade. 1  que tive um sonho
mau, e no estava bem acordada!
Da por diante Margarida mostrou-se mais alegre. No chorou
mais.
Quando chegou a hora em que eu devia partir, beijei-a e
perguntei-lhe se queria acompanhar-me at ao caminho de ferro.
Esperava que o passeio a distrasse e lhe fizesse bem.
o que queria, sobretudo, era estar com ela o mais tempo
possvel.
Margarida aceitou, pegou numa capa e foi comigo, levando
tambm Nanine, para no voltar para casa sozinha.
Vinte vezes estive tentado a no partir. Mas a esperana de
voltar depressa e o receio de indispor de novo meu pai contra
mim deram-me foras, e o comboio levou-me.
--At  noite!--disse-lhe,  despedida.
No me respondeu.
J uma vez ela no me respondera a essas mesmas palavras, e o
conde de G..., como se h-de lembrar, passara a noite em sua
casa; mas esse tempo ia j to longe, que parecia apagado da
minha memria, e se receava alguma coisa no era decerto que
Margarida me enganasse.
Mal cheguei a Paris, corri a casa de Prudncia e pedi-lhe que
fosse ver Margarida, esperando que a sua alegria a distrasse.
Entrei sem me fazer anunciar e encontrei Prudncia a
arranjar-se para sair.
--Ah!--exclamou ela, com ar inquieto.--Margarida vem consigo?
--No.
--Como est ela?
--Est indisposta.

--No vir ?
--Porqu? Espera-a?
Prudncia corou e respondeu-me com certa atrapalhao:
--o que eu perguntava era se ela no vinha ter com o Armando a
Paris.
--No vem.
olhei para Prudncia, que baixou os olhos, e na sua fisionomia
julguei ler o receio de ver a minha visita prolongar-se.
--At lhe tencionava pedir, minha querida Prudncia, que fosse
passar com a Margarida esta noite, se no lhe custasse muito;
fazia-lhe companhia, e podia dormir l. Nunca a vi como hoje.
Receio que me adoea.
--Janto fora--respondeu Prudncia--e no posso ir esta noite
ver Margarida; mas vou amanha.
Despedi-me da Duvernoy, que me pareceu quase to preocupada
como Margarida, e dirigi-me a casa do meu pai, que logo no seu
primeiro olhar me estudou atentamente.
Estendeu-me a mo.
--Gostei das tuas visitas, Armando--disse-me ele--, porque me
fizeram ter a esperana de que
houvesses reflectido como eu reflecti tambm. --Posso
atrever-me a perguntar-lhe, meu pai, qual o resultado das suas
reflexes?
--Foi o seguinte, meu amigo: que exagerara a importncia das
informaes que me tinham dado, e resolvi ser menos severo
contigo.
--Que diz, meu pai?--exclamei com alegria.
--Digo, meu querido filho, que um rapaz no pode passar sem
uma amante, e que, em vista de novas informaes, antes quero
saber que s amante de Margarida Gautier do que de outra
qualquer.
--Meu querido pai! Que feliz eu sou!
Conversmos assim alguns instantes. Depois sentmo-nos  mesa.
Meu pai foi encantador comigo todo o tempo que durou o jantar.
Estava com pressa de voltar a Bougival para contar a Margarida
to feliz acontecimento. A cada instante consultava o relgio.
--olhas as horas que so--disse meu pai--, ests impaciente
por me deixar. oh ! os rapazes ! Ho-de sempre sacrificar as
afeies sinceras s equvocas !
--No diga isso, meu pai. Margarida ama-me, tenho a certeza.
Meu pai no respondeu. No parecia acreditar, nem duvidar.
Insistiu muito para que eu passasse toda a noite com ele e s
regressasse no dia seguinte; mas eu, como deixara Margarida
adoentada, disse-lho e pedi-lhe licena para me ir embora
cedo, prometendo que voltaria no dia seguinte.
Estava uma noite linda; meu pai quis acompanhar-me at 
estao. Nunca me sentira to feliz. o futuro mostrava-se tal
como havia muito eu procurava v-lo.
Sentia mais amizade por meu pai do que nunca.
No momento da partida, insistiu pela ltima vez para`que eu
ficasse. Recusei.
--Ento ama-la deveras? --perguntou-me ele. --Amo-a
loucamente.
--Vai ento!
E passou a mo pela testa como para expulsar um pensamento
mau. Depois abriu a boca como se quisesse dizer-me alguma
coisa; mas limitou-se a apertar-me a mo e deixou-me,
bruscamente, bradando:

--At amanha!
Captulo XXII

Parecia-me que o comboio no andava. As onze horas cheguei a
Bougival.
Nem uma s janela estava iluminada, e quando toquei ningum me
respondeu.
Era a primeira vez que tal me sucedia. Enfim, o jardineiro
apareceu. Entrei.
Nanine veio ter comigo, trazendo uma luz. Cheguei ao quarto de
Margarida.
--onde est a senhora?
--A senhora foi para Paris--respondeu Nanine. --Para Paris?
--Sim, senhor.
--Quando  que partiu ?
--Uma hora depois de o senhor sair. --E no lhe deixou nada
para mim? --Nada.
--1  esquisito! Disse que a esperassem? --No disse coisa
alguma.
"1  capaz de ter sentido cimes--pensei eu--e ido a Paris para
saber com certeza se a visita a meu pai, de que lhe falei, no
passaria de um pretexto para gozar um dia de liberdade. Talvez
Prudncia lhe haja escrito por causa de algum negcio
importante"--disse comigo, quando fiquei s, mas eu vira
Prudncia logo que cheguei a Paris, e no
e ouvira nada que pudesse fazer supor que ela ti -esse escrito
a Margarida.
De repente lembrei-me desta pergunta que madame Duvernoy me
fizera: "Ela no vir hoje? > quando eu lhe dissera que
Margarida estava doente. Lembrei-me ao mesmo tempo do ar
embaraado de Prudncia depois dessa frase que parecia trair
uma combinao para se encontrarem. A esta lembrana
juntava-se a das lgrimas de Margarida durante o dia todo,
lgrimas que o bom acolhimento de meu pai me fizera esquecer
um pouco.
Daquele momento em diante, todos os incidentes do dia vieram
agrupar-se em torno da minha primeira suspeita e fixaram-na
to solidamente no meu esprito, que tudo a confirmou, at a
clemncia paterna.
Margarida quase exigira que eu fosse a Paris; afectara
serenidade quando eu lhe propusera ficar com ela. Teria eu
cado numa cilada? Margarida enganar-me-ia? Contara estar de
volta a tempo de eu no dar pela sua ausncia e demorara-a o
acaso? Porque no dissera nada a Nanine ou porque me no
escrevera? o que queriam dizer aquelas lgrimas, aquela
ausncia, aquele mistrio?
Eis o que eu perguntava a mim mesmo com terror, no meio do
quarto vazio, e com os olhos cravados no relgio que, marcando
meia-noite, parecia dizer-me que j era demasiado tarde para
que ainda esperasse ver voltar a minha amante.
Enfim, aps as disposies que acabvamos de tomar, depois de
oferecido e aceite o sacrifcio, era verosmil que ela me
engana-se? No. E procurei repelir as minhas primeiras
suposies.
"A pobre rapariga decerto arranjou algum comprador para a
moblia, e foi a Paris para concluir esse negcio Naturalmente
no me quis prevenir, pois
sabe que, apesar de eu a aceitar, essa venda, necessria para

a nossa felicidade futura, -me penosa, e decerto receou ferir
o meu amor-prprio e os meus melindres falando-me nisso.
Prefere tornar a aparecer s quando tudo estiver terminado.
Prudncia esperava-a evidentemente para isso, e traiu-se
diante de mim; provavelmente Margarida no pde acabar hoje o
negcio e vai ficar a casa, ou talvez no tarde por a a
aparecer, porque h-de perceber que devo estar inquieto e no
quer com certeza deixar-me neste estado. Mas ento porque
foram aquelas lgrimas? Decerto, apesar do seu amor por mim, a
pobre rapariga no se pde resolver sem lgrimas a abandonar
esse luxo no meio do qual tem sempre vivido at agora e que a
tornava feliz e invejada."
Eu perdoava de bom grado essas tristezas a Margarida.
Esperava-a impacientemente, para lhe dizer, cobrindo-a de
beijos, que adivinhara a causa da sua misteriosa ausncia.
Entretanto, a noite caminhava e Margarida no vinha.
A inquietao ia a pouco e pouco estreitando o seu crculo e
apertava-me a cabea e o corao. Talvez lhe tivesse sucedido
alguma desgraa ! Talvez estivesse ferida ou doente, ou morta!
Talvez me aparecesse de sbito algum mensageiro a anunciar-me
um triste acontecimento. Talvez o dia me viesse encontrar na
mesma incerteza e nos mesmos receios !
A ideia de que Margarida me enganava no prprio momento em que
eu a esperava no meio dos terrores que me causava a sua
ausncia, nem sequer me acudia ao esprito. Apenas uma causa
independente da sua vontade a podia reter longe de mim, e
quanto mais nisto pensava mais me convencia de que essa causa
s podia ser uma desgraa qualquer. (  vaidade do homem,
apresentas-te debaixo de todas as formas !
Acabava de dar uma hora. Tomei a resoluo de esperar mais uma
hora, mas se s duas Margarida no estivesse de volta, eu
partiria para Paris.
Entretanto, andei  procura de um livro, porque me no atrevia
a pensar.
Manon Lescaut achava-se aberto em cima da mesa. Pareceu-me que
nalguns stios as pginas estavam como que hmidas de
lgrimas. Depois de o folhear, fechei esse volume cujos
caracteres se me afiguravam sem sentido atravs do vu das
minhas dvidas.
As horas caminhavam vagarosamente. o cu estava nublado.
Fustigava nos vidros uma chuva de outono. o leito parecia-me
tomar de vez em quando o aspecto de um tmulo. Sentia medo.
Abri as janelas. Pus o ouvido  escuta, mas s ouvia o
ramalhar do vento nas rvores. No passava pela estrada uma
nica carruagem. Tristemente o relgio da igreja deu uma hora.
Chegara a ter medo de que algum entrasse. Parecia-me que s
uma desgraa podia vir ter comigo a essa hora e com esse tempo
to sombrio.
Deram duas horas. Ainda esperei um bocado. S o relgio
perturbava o silncio com o seu rudo montono e cadenciado.
Enfim, sa daquele quarto onde os objectos mais
insignificantes tinham revestido esse triste aspecto que d a
tudo o que o rodeia a inquieta soledade do corao.
No quarto prximo encontrei Nanine a dormir em cima da
costura. Com o rudo da porta, acordou e perguntou-me se a sua
ama j viera.
--No veio, mas, se vier, diga-lhe que no pude resistir 
minha inquietao e que parti para Paris.

--A estas horas?
--Sim.
--Mas como vai? No encontra carruagem.
--Vou a p.
--olhe que est a chover.
--No me importa!
--Ver que a senhora no tarda, ou que, se no vier dormir a
casa, sempre  tempo, depois de amanhecer, de ir ver o que a
reteve. Podem assassin-lo por esses caminhos.
--No h perigo, minha querida Nanine; at amanha.
A boa rapariga foi-me buscar a minha capa, ps-ma nos ombros e
ofereceu-se para ir acordar algum, a fim de saber se era
possvel arranjar uma carruagem, mas opus-me a isso,
convencido de que o tempo perdido nessa tentativa,
provavelmente infrutfera, daria para percorrer metade do
trajecto.
Depois, precisava de ar e de uma fadiga fsica que exaurisse a
sobreexcitao que me dominava. Levei a chave da Rua d'Antin
e, depois de dizer adeus a Nanine, que me acompanhara at 
grade, parti.
Primeiro desatei a correr, mas a terra estava molhada de
fresco e fatigava-me duplamente. Ao fim de meia hora dessa
corrida, fui obrigado a parar. Suava em bica. Tomei flego e
continuei o meu caminho. A noite estava to escura, que eu
temia a cada instante ir bater numa das rvores da estrada,
que, apresentando-se bruscamente aos meus olhos, pareciam
grandes fantasmas a correr sobre mim.
Encontrei dois ou trs carros de almocreve, e no tardei a
passar-lhes adiante.
Dirigia-se uma calea a todo o trote para o lado de Bougival.
Quando passava por mim, acudiu-me a esperana de que Margarida
fosse dentro dela.
Parei, gritando:
--Margarida! Margarida!
Mas ningum me respondeu, e o veculo continuou o seu caminho.
Vi-o afastar-se e parti.
Gastei duas horas para chegar  barreira da Estrela.
A vista de Paris ganhei foras e desci, a correr, a longa
alameda que tantas vezes percorrera.
Nessa noite no passava ningum.
Parecia o passeio de uma cidade morta.
Comeava a romper o dia.
Quando cheguei  Rua d'Antin, j a grande cidade se movia um
pouco antes de acordar de todo. Davam cinco horas na igreja de
S. Roque no momento em que eu entrava em casa de Margarida.
Atirei o meu nome ao porteiro, que recebera de mim bastantes
moedas de vinte francos para saber que eu tinha direito de vir
s cinco horas a casa de Margarida Gautier.
Por conseguinte, passei sem obstculo.
Podia ter-lhe perguntado se Margarida estava em casa, mas ele
podia responder-me que no, e eu antes queria duvidar mais
dois minutos, pois, duvidando, ainda tinha esperana.
Subi.
A porta pus o ouvido  escuta, procurando surpreender um
rumor, um movimento.
Nada. o silncio do campo parecia prolongar-se at ali.
Abri a porta e entrei.
Estavam todas as cortinas hermeticamente fechadas.

Puxei as da sala de jantar e dirigi-me para o quarto de cama
cuja porta empurrei.
Saltei ao cordo dos cortinados e puxei-o com violncia.
Afastaram-se os cortinados. Uma frouxa luz penetrou no
aposento e eu corri ao leito.
Estava vazio.
Abri as portas umas aps outras, rebusquei todos os quartos.
Ningum.
Era de endoidecer.
Passei ao quarto de vestir, abri a janela e chamei Prudncia
umas poucas de vezes.
A janela da Duvernoy conservou-se fechada.
Ento desci ao cubculo do porteiro a quem perguntei se
Margarida Gautier viera a casa nesse dia.
--Veio--respondeu-me ele--, veio com a Sr.a Duvernoy.
--No deixou nenhum recado para mim?
--Nada.
--Sabe o que elas fizeram depois?
--Meteram-se numa carruagem.
--Que espcie de carruagem?
--Um coup particular.
Que significava tudo aquilo?
Fui bater  porta do prdio vizinho.
--Aonde vai o senhor?--perguntou-me o porteiro, depois de me
abrir a porta.
--A casa da Sr.a Duvernoy.
--Ainda no chegou.
--Tem a certeza disso?
--Tenho, sim, senhor; at aqui est uma carta para ela, que
veio ontem  noite e que ainda lhe no entreguei.
E o porteiro mostrou-me uma carta a que deitei maquinalmente
os olhos.
Conheci a letra de Margarida.
Peguei na carta.
No sobrescrito lia-se:
"A Sr.a Duvernoy, para entregar ao Sr. Duval."
--Esta carta  para mim--disse ao porteiro.
E mostrei-lhe o sobrescrito.
--o senhor  que  o Sr. Duval? --tornou o homem.--
verdade"ou at o conheo. Vem muitas vezes a casa da Sr.a
Duvernoy.
Apenas me vi na rua, quebrei o lacre.
Se um raio me casse aos ps, no ficaria mais aterrado do que
fiquei com esta leitura:
"A hora que ler esta carta, Armando, j eu serei amante de
outro homem. Como v, est tudo acabado entre ns.
"Volte para junto de seu pai, meu amigo, v tornar a ver a sua
irma, casta menina que ignora todas as nossas misrias, e
junto da qual bem depressa esquecer as dores que lhe deve ter
feito sofrer esta mulher perdida chamada Margarida Gautier,
que o senhor se dignou amar por um instante e que lhe deve os
nicos momentos felizes da vida. 1  essa a esperana que ela
leva para a morte que decerto j se no far esperar muito."

Quando li a ltima palavra, julguei que ia perder a razo.
Houve um momento em que, na verdade, tive medo de cair
redondamente na calada. Passava-me uma nuvem pelos olhos e
latejava-me o sangue nas fontes. Enfim, serenei um pouco e

olhei em torno, espantadssimo por verificar que a vida dos
outros no se interrompia  vista da minha desgraa.
No tinha foras para suportar sozinho o golpe que Margarida
me vibrava.
Lembrei-me ento de que meu pai estava na mesma cidade que eu,
que me bastariam dez minutos para ir ter com ele e que,
qualquer que fosse a causa da minha dor, decerto a
partilharia.
Corri como um doido, como um ladro, at ao Hotel de Paris.
Encontrei a chave na porta do quarto de meu pai e entrei.
Ele estava a ler.
Dir-se-ia que me esperava, to pouco foi o espanto que mostrou
ao ver-me aparecer.
Lancei-me nos seus braos sem lhe dizer palavra, dei-lhe a
carta de Margarida e chorei lgrimas ardentes, deixando-me
cair diante do seu leito.

Captulo XXIII

Quando todas as coisas retomaram o seu curso normal, no pude
acreditar que o novo dia no seria semelhante para mim queles
que o tinham precedido. Havia momentos em que chegava a
imaginar que uma circunstncia, de que me no lembrava, me
fizera passar a noite fora da casa de Margarida, mas que, se
voltasse a Bougival, a encontraria inquieta, como eu estivera,
e que me perguntaria a causa de tanta demora.
Quando a vida contraiu um hbito como o deste amor, parece
impossvel que esse hbito se rompa sem quebrar ao mesmo tempo
todas as outras molas da existncia.
Eu era, por isso, obrigado a reler de quando em quando a carta
de Margarida, para me convencer de que no sonhara.
o meu corpo, sucumbindo a esse abalo moral, no podia fazer um
movimento. A inquietao, a caminhada da noite e a notcia
recebida de manha tinham-me deixado exaustos. Meu pai
aproveitou essa prostrao total das minhas foras para me
pedir que lhe prometesse, finalmente, partir com ele.
Prometi tudo quanto ele quis. Estava incapaz de manter uma
discusso e precisava de um motivo qualquer para me ajudar a viver depois do que acabava de passar-se.
Era uma felicidade para mim prestar-se meu pai a consolar-me
de semelhante desgosto.
S me lembro de que, nesse dia, pelas cinco horas, me fez
entrar com ele numa carruagem de posta. Sem me dizer palavra,
mandara preparar as minhas malas, mandara-as amarrar com as
suas  traseira da carruagem e levava-me.
S quando a cidade desapareceu e a solido da estrada me
lembrou o vcuo do meu corao  que dei conta do que fazia.
Ento voltaram-me as lgrimas.
Meu pai percebera que me no consolariam palavras, nem as
dele, e deixava-me chorar sem me dizer nada, limitando-se de
vez em quando a apertar-me a mo como para me lembrar que
tinha um amigo ao meu lado.
A noite dormi um pouco. Sonhei com Margarida. Acordei
sobressaltado, no percebendo porque estava numa carruagem.
Depois tornou a realidade ao meu esprito e deixei cair a
cabea no peito.
No me atrevi a falar com meu pai. Temia sempre que ele me
dissesse:

"Bem vs que eu tinha razo quando negava o amor dessa mulher.
"
Mas ele no abusou da sua posio, e chegmos a C... sem me
dizer outra coisa que no fossem palavras completamente
estranhas ao acontecimento que me fizera sair de Paris.
Quando beijei minha irma, lembrei-me das palavras de Margarida
que lhe diziam respeito, mas percebi logo que, por muito
bondosa que fosse, no podia minha irma fazer-me esquecer a
minha amante.
Principiara a caa. Convencido de que isso constituiria uma
distraco para mim, meu pai organizou ento caadas com
vizinhos e amigos. Fui sem repugnncia, mas tambm sem
entusiasmo, com essa espcie de apatia que caracterizava todas
as minhas aces depois de ter deixado Paris.
o gnero de caa adoptado era o de emboscada. Colocavam-me no
meu posto. Eu punha a espingarda desarmada ao p de mim e
cismava. olhava para as nuvens que passavam. Deixava o meu
pensamento vaguear pelos plainos solitrios, e de quando em
quando ouvia chamar-me algum caador que me mostrava uma lebre
a dez passos de distncia do stio onde eu me encontrava.
Nenhum desses pormenores escapava a meu pai, que no se
deixava iludir pela minha serenidade externa. Ele via que, por
muito abatido que estivesse, o meu corao no deixaria de
ter, mais dia menos dia, uma reaco terrvel, perigosa
talvez, e, evitando parecer que me consolava, fazia todo o
possvel para me distrair.
Minha irma, como se pode imaginar, no estava ao facto de
todos estes acontecimentos, e no podia, portanto, perceber
porque  que eu, dantes to alegre, me tornara de repente
assim pensativo e triste.
As vezes, surpreendido no meio da minha tristeza pelo olhar
inquieto de meu pai, estendia-lhe a mo e apertava-lhe a dele
como para lhe pedir perdo, tacitamente, pelo mal que lhe
fazia sem querer.
Assim passou um ms, mas no pude mais.
Perseguia-me constantemente a lembrana de Margarida. Amara
tanto e amava ainda tanto essa mulher, que no podia passar,
de sbito, a ser-me indiferente. Tinha de a amar ou de a
odiar. Sobretudo, qualquer que fosse o sentimento que ela me
despertasse, no podia deixar de a tornar a ver e
imediatamente.
Esse desejo entrou no meu esprito e fixou-se
nele com toda a violncia da vontade que reaparece enfim num
corpo h muito inerte.
No era para o futuro, da a um ms, da a oito dias, que eu
precisava de ver Margarida, mas no dia seguinte quele em que
me acudira essa ideia; e fui dizer a meu pai que o ia deixar
por negcios que me chamavam a Paris, mas que voltaria breve.
Adivinhou decerto o que motivara a minha partida, pois
insistiu para que eu ficasse; mas, vendo que a inexecuo
desse desejo, no estado irritvel em que me encontrava, podia
ter consequncias srias, abraou-me e pediu-me quase em
lgrimas que voltasse o mais breve possvel para junto dele.
No dormi enquanto no cheguei a Paris.
Apenas chegasse, que ia eu fazer? No sabia; mas era
indispensvel, antes de tudo, procurar ver Margarida.
Fui a casa vestir-me, e, como estava uma tarde bonita, e ainda
no era tarde, fui aos Campos Elsios.

Da a meia hora, vi vir de longe, da meia-laranja para a Praa
da Concrdia, a carruagem de Margarida.
Tornara a comprar os cavalos que vendera, pois a carruagem
estava como dantes; ela e que no vinha l dentro.
Mal reparara nessa ausncia, e comeava a lanar os olhos em
torno de mim, avistei Margarida que vinha a p acompanhada
duma mulher que eu nunca
vira.
Ao passar junto de mim empalideceu, e um sorriso nervoso
contraiu-lhe os lbios. Eu senti um violento bater do corao
que me abalou o peito; mas consegui dar expresso frgida ao
meu rosto e cumprimentei friamente a minha antiga amante, que
se dirigiu quase imediatamente para a sua carruagem, onde se
meteu com a amiga.
Eu conhecia bem o gnio de Margarida. o encontro inesperado
agitara-a decerto profundamente. Soubera, sem dvida, da minha
partida, que a tranquilizara acerca das consequncias do nosso
rompimento; mas, vendo-me voltar e achando-se face a face
comigo, plido como eu estava, percebera que a minha volta
algum fim tinha, e sem dvida perguntara a si mesma o que iria
passar-se.
Se eu tivesse encontrado Margarida na desgraa, se, para me
vingar dela, lhe pudesse acudir, talvez lhe tivesse perdoado e
com certeza no pensaria em fazer-lhe mal; mas via-a feliz,
pelo menos na aparncia. outro lhe restitura o luxo em que eu
a no podia manter; o nosso rompimento, provocado por ela,
tomava, por conseguinte, o carcter do mais vil interesse.
Humilhado no meu orgulho como o fora no meu amor, ela devia
necessariamente pagar o que eu padecera.
No podia ficar indiferente perante os actos daquela mulher;
por conseguinte, nada pior para ela do que a minha
indiferena. Devia, por isso, fingir esse sentimento no s
aos olhos de Margarida, mas tambm aos olhos dos outros.
Procurei arranjar uma expresso sorridente e fui a casa de
Prudncia.
A criada de quarto foi-me anunciar, e fez-me esperar alguns
instantes na sala.
A Duvernoy apareceu, enfim, e mandou-me entrar para o seu
quarto de vestir. Quando me ia a sentar, senti abrir-se a
porta da sala, e um passo ligeiro fez ranger o sobrado; depois
fechou-se violentamente a porta do patamar.
--Venho incomod-la?--perguntei eu a Prudncia.
--Qual! A Margarida estava aqui; fugiu quando o anunciaram;
foi ela quem saiu neste momento.
--Ento agora meto-lhe medo?
--No, mas receia que seja desagradvel ao Armando tornar a
v-la.
--Porqu?--exclamei, fazendo um esforo para respirar
livremente, pois me sufocava a comoo.-A pobre rapariga
deixou-me para tornar a possuir carruagens, mveis novos e
diamantes. Fez muito bem, e no devo levar-lhe isso a mal.
Encontrei-a hoje --continuei, parecendo no dar importncia ao
facto.
--onde?--perguntou Prudncia, que me encarava, parecendo
perguntar a si prpria se era este homem que ela conhecera to
enamorado.
--Nos Campos Elsios. Estava com outra mulher muito bonita.
Quem ?

--D-me os sinais.
--Loura, magra, cabelo  inglesa; olhos azuis, muito elegante.
--Ah! Era a olmpia; muito bonita, efectivamente.
--Com quem vive?
--Com ningum, e com todos.
--E onde mora?
--Na Rua Tronchet, n.o... o qu! Quer fazer-lhe a corte?
--Talvez.
--E Margarida?
--Dizer-lhe que j no penso nela, seria mentir-lhe; mas sou
um destes homens que do grande importncia ao modo como se
rompe. ora Margarida despediu-me de forma to ligeira, que me
pareceu grande tolice ter-me apaixonado por ela como me
apaixonei .. porque estive realmente apaixonado por essa
rapariga.
Adivinha o tom em que eu procurava dizer estas coisas; tinha a
testa alagada em suor.
--olhe que o amava deveras, e ainda o ama; a prova  que,
depois de o encontrar hoje, veio imediatamente dar-me parte
desse encontro. Quando chegou, vinha toda trmula, quase
desmaiou.
--E que lhe disse ela?
--Disse-me o seguinte: "Ele decerto procura-te." E instou
comigo para eu lhe pedir que lhe perdoasse.
--J lhe perdoei, pode dizer-lhe.  uma rapariga de bom
corao, mas  uma rapariga... da vida; e o que ela me fez j
eu o devia esperar. At lhe estou grato pela sua resoluo,
pois hoje pergunto a mim prprio onde me levaria a minha ideia
de viver completamente com ela. Era uma loucura.
--H-de ficar bem contente a Margarida, quando souber que se
conformou com o acto que a necessidade lhe impunha. Era bem
tempo de ela o deixar, meu caro. o patife do procurador a quem
ela propusera a compra da moblia fora ter com os credores
para lhes perguntar quanto  que ela lhes devia; os credores
tinham-se assustado e, dentro de dois dias, ia tudo  praa.
--E agora, est paga?
--Quase.
--Quem deu o dinheiro?
--o conde de N... Ah meu caro! H homens que nasceram para
estas coisas. Para encurtar razes, deu vinte mil francos, mas
atingiu o seu objectivo. Sabe perfeitamente que Margarida no
o ama, o que o no impede de ser gentilssimo com ela. Como
deve ter visto, comprou-lhe os mesmos cavalos de que ela se
desfizera, desempenhou-lhe as jias e d-lhe tanto dinheiro
como lhe dava o duque; se ela quiser viver sossegada, este
homem  capaz de estar com ela muitssimo tempo.
--E Margarida que faz? Est sempre em Paris?
--Nunca mais quis voltar a Bougival desde que o
Armando partiu. Eu  que fui l buscar as coisas dela, e as
suas, Armando, e de tudo fiz uma trouxa que pode c mandar
buscar. Est tudo menos uma carteirinha com o seu monograma.
Margarida quis por fora lev-la, e l a tem em casa. Se a
quiser, eu peo-lha.
--Que a guarde--balbuciei, pois sentia que me subiam as
lgrimas do corao aos olhos ao lembrar-me dessa aldeia onde
fora to feliz, e com a ideia de que Margarida fazia empenho
em conservar uma coisa que me pertencera e me recordava ao seu
esprito.

Se ela entrasse nesse momento, desapareceriam as minhas
resolues de vingana e eu cair-lhe-ia aos ps.
--Demais--tornou a Prudncia--, nunca a vi como ela est
agora: quase no dorme, frequenta os bailes, ceia, bebe
demais.  ultimamente, depois de uma dessas ceias esteve oito
dias de cama, e, quando o mdico lhe permitiu que se
levantasse, tornou ao princpio, com risco de a levar a breca.
Vai v-la?
--Para qu? Se vim procur-la,  minha boa Sr.a Duvernoy, foi
porque j a conhecia antes de conhecer Margarida, e sempre se
mostrou amabilssima comigo. A Prudncia  que eu devo ter
sido amante dela, e tambm lhe devo no o ser j, no 
verdade?
--olhe, efectivamente, eu fiz tudo quanto pude para que
Margarida o deixasse, e parece-me que no futuro no mo h-de
levar a mal.
--Estou-lhe at duplamente reconhecido--acrescentei eu,
levantando-me--porque chegava a causar-me tdio essa mulher
tomar a srio tudo quanto eu lhe dizia.
--Vai-se embora?
--Vou.
J sabia o bastante.
--Quando o torno a ver?
--Brevemente. Adeus.
--Adeus.
Prudncia acompanhou-me at  porta, e eu voltei para casa com
lgrimas de raiva nos olhos e um desejo de vingana no
corao.
Assim Margarida era decididamente uma perdida como as outras;
esse amor profundo que ela tinha por mim no resistira ao
desejo de voltar para a sua vida passada, e  nsia de possuir
carruagem e de fazer orgias!
Era o que eu pensava no meio das minhas insnias, ao passo
que, se reflectisse to friamente como afectava, veria nessa
nova existncia ruidosa de Margarida a esperana para ela de
impor silncio a um pensamento contnuo, a uma incessante
recordao.
Infelizmente as ideias ms dominavam-me, e s procurei um meio
de torturar essa pobre criatura.
oh! o homem  bem pequeno e bem vil, quando lhe ferem alguma
das suas mesquinhas paixes!
Essa olmpia, com quem eu a vira, era, seno amiga de
Margarida, pelo menos quem ela mais frequentava desde que
voltara para Paris. Ia dar um baile, e como eu sabia que
Margarida no faltava, procurei arranjar um convite e
consegui-o.
Quando, cheio das minhas dolorosas comoes, cheguei a esse
baile, ele achava-se j muito animado. Danava-se, gritava-se
at, e numa das quadrilhas avistei Margarida a danar com o
conde de N..., que se mostrava todo ufano de a exibir e
parecia dizer a toda a gente: "Esta mulher pertence-me."
Fui-me encostar ao fogo, mesmo defronte de Margarida, e
estive a v-la danar. Apenas deu pela minha presena,
perturbou-se. Percebi e cumprimentei-a distraidamente com a mo e com os olhos. Ao lembrar-me
de que, depois do baile, j no seria comigo, mas sim com
aquele rico imbecil que ela se iria embora, quando
representava na minha imaginao o que provavelmente se

seguiria  sua volta para casa, subia-me o sangue  cabea e
sentia o ardente desejo de lhe perturbar os amores.
Depois da contradana fui cumprimentar a dona da casa, que
ostentava aos olhos dos seus convidados uns ombros magnficos
e metade de um seio deslumbrante.
Essa rapariga era formosa e, do ponto de vista plstico, mais
formosa do que Margarida. Percebi-o melhor ainda por uns
certos olhares que esta deitou a olmpia enquanto eu falava
com ela. o homem que fosse amante dessa mulher podia
orgulhar-se tanto como o conde de N... e era suficientemente
linda para inspirar uma paixo igual  que Margarida
despertara em mim.
Nessa altura no tinha amante, no sendo, por conseguinte,
difcil ocupar esse lugar. Para tanto bastaria mostrar-lhe
ouro em quantidade.
Resolvi-me num momento. Essa mulher seria minha amante.
Principiei o meu papel de namorado danando com olmpia.
Meia hora depois, Margarida, plida como uma defunta, punha a
sua pelica e saa do baile.
Captulo XXIV

Apesar de j ser alguma coisa, no bastava. Percebi o imprio
que tinha sobre aquela mulher e abusava cobardemente dele.
Quando me lembro de que est hoje morta, pergunto  minha
conscincia se Deus me poder perdoar o mal que lhe fiz.
Depois da ceia, que foi das mais ruidosas, comeou o jogo.
Sentei-me ao lado de olmpia e arrisquei o meu dinheiro to
audaciosamente, que o facto no podia passar-lhe despercebido.
Ganhei num instante cento e cinquenta ou duzentos luses, que
eu estendia em cima da mesa em que olmpia cravava os olhos
vidos.
Era eu o nico que no estava completamente preocupado com o
jogo e que lhe dava ateno a ela. Ganhei todo o resto da
noite, e fui eu que lhe dei dinheiro para ela jogar, pois vi
que perdera quanto tinha diante de si e provavelmente em casa.
As cinco horas da manha separmo-nos.
Eu ganhara trezentos luses.
Estavam j ao fundo da escada todos os jogadores, e s eu
ficara atrs sem que se desse por isso, pois eu no era das
relaes de nenhum daqueles cavalheiros
Fora a prpria olmpia alumiar-nos, e eu descia como os
outros, quando, voltando-me para ela, lhe disse:
--Preciso de lhe falar.
--Amanha--respondeu ela.
--No, h-de ser agora.
--Que quer de mim?
--Ver.
E entrei para a sala.
--Vi que perdeu--disse-lhe.
--Perdi.
--Tudo quanto tinha em casa?
olmpia hesitou.
--Seja franca.
--1  exacto.
--Eu ganhei trezentos luses. Aqui os tem, se me deixar ficar.
E, ao mesmo tempo, atirei com o ouro para cima da mesa.
--Porque me faz essa proposta?
--ora essa! Porque h-de ser? Porque a amo.

--No  por isso, mas est apaixonado por Margarida e quer
vingar-se dela tornando-se meu amante. Uma mulher como eu no
se deixa enganar assim meu caro amigo; infelizmente, eu ainda
sou demasiado nova e bonita para aceitar o papel que me oferece.
--Ento recusa?
--Recuso.
--Prefere amar-me de graa? Ento seria eu que no aceitaria.
Reflicta, minha querida olmpia; se eu mandasse uma pessoa
qualquer oferecer-lhe da minha parte esses trezentos luses
com as condies que eu ponho na oferta, aceitava decerto.
Preferi negociar directamente. Aceite, sem procurar saber os
motivos que me impelem. Sabe bem que, sendo bonita como , no
admira nada que eu me apaixone por Si.
Margarida era uma rapariga venal como olmpia, e contudo nem
por sombras me atrevera a falar-lhe, na primeira vez que a
vira, do mesmo modo que quela mulher.  que eu amava
Margarida, adivinhava nela instintos que faltavam  outra e
que, no prprio momento em que eu propunha esse contrato,
estava-me a repugnar a mulher com quem o ia ultimar, apesar da
sua extrema beleza.
Acabou por aceitar, claro, e, quando sa de sua casa, ao
meio-dia, era seu amante. Deixei, porm, o seu leito sem levar
comigo a recordao das carcias e das palavras de amor que
ela se julgara obrigada a prodigalizar-me pelos seis mil
francos que lhe dera. E, contudo, muita gente se arruinara por
ela.
Desse dia em diante, fiz sofrer a Margarida uma perseguio de
todos os instantes. Ela e olmpia deixaram de se encontrar,
percebe facilmente porqu. Dei  minha amante jias,
carruagem, joguei, fiz enfim todas as loucuras de um homem
enamorado de uma mulher como olmpia. Espalhou-se logo a
notcia da minha nova paixo.
At Prudncia caiu no logro e acabou por supor que me
esquecera completamente de Margarida. Esta, ou porque
adivinhasse o motivo que me inspirava, ou porque se enganasse
como os outros, respondia com grande dignidade s ofensas que
eu lhe fazia todos os dias. Mas parecia sofrer, porque, em
toda a parte onde a encontrava, estava sempre a v-la cada vez
mais plida, cada vez mais triste. o meu amor por ela,
exaltado a tal ponto que parecia transformar-se em dio,
regozijava com o espectculo dessa dor quotidiana Muitas
vezes, em vrias circunstncias em que fui duma crueldade
infame, ergueu Marga
rida para mim olhares to suplicantes, que me envergonhava do
papel que representava, e estava quase a pedir-lhe perdo.
Mas esses arrependimentos tinham a durao do relmpago, e
olmpia, que acabara por pr de parte qualquer amor-prprio e
percebera que, fazendo mal a Margarida, alcanaria de mim tudo
quanto quisesse, excitava-me sem cessar contra ela e
insultava-a sempre que se lhe oferecia ensejo para tal, com a
persistente cobardia da mulher autorizada por um homem.
Margarida acabara por no ir nem ao baile, nem ao espectculo,
com medo de nos encontrar, a mim e a olmpia. E ento as
cartas annimas tinham sucedido s impertinncias directas, e
no havia infmias a que eu no incitasse a minha amante ou
que eu prprio no contasse acerca de Margarida.
S um doido podia ter chegado quele ponto. Achava-me na

situao de um homem que, tendo-se embebedado com zurrapa, cai
numa destas exaltaes nervosas em que a mo  capaz de um
crime sem o pensamento intervir. No meio de tudo isso, eu
sofria verdadeiro martrio. A serenidade sem desdm, a
dignidade sem desprezo, com que Margarida respondia aos meus
ataques, e que aos meus prprios olhos a tornavam superior a
mim, ainda mais me irritavam contra ela.
Uma noite, a minha amante fora no sei onde e encontrara-se
com Margarida, que desta vez no tivera contemplaes com a
tola que a insultava, a ponto de olmpia se ver coagida a
bater em retirada, tendo regressado furiosa, enquanto
Margarida desmaiara.
Ao entrar em casa, contou-me o que se tinha passado. Disse-me
que Margarida, vendo-a s, quisera vingar-se de ela ser minha
amante. Tornava-se necessrio, acrescentou, escrever-lhe,
ordenando-lhe que respeitasse, na minha presena ou ausncia,
a mulher que eu amava.
Escuso de lhe dizer que consenti e que inseri todos os termos
amargos, aviltantes e cruis na epstola que mandei logo ao
seu destino.
Desta vez o golpe era demasiado forte para que a desgraada o
suportasse em silncio.
Eu suspeitava que no podia deixar de vir resposta; por isso
estava resolvido a ficar todo o dia em casa.
Seriam duas horas quando senti tocar a campainha e vi entrar
Prudncia.
Procurei tomar uns ares indiferentes para lhe perguntar a que
devia a sua visita; mas Prudncia no estava em mar de
galhofa, e com um tom seriamente comovido disse-me que, desde
a minha volta a Paris, quer dizer, havia trs semanas, eu no
deixara escapar nem uma s ocasio de magoar Margarida; que
ela estava doente, e que a cena da vspera e a minha carta da
manha a tinham obrigado a ficar de cama.
Em resumo, sem me censurar, Margarida mandava-me pedir
misericrdia, dizendo que no tinha j nem fora moral nem
fsica para suportar o que eu lhe fazia.
--Que essa senhora--disse eu a Prudncia--me despea de sua
casa, est no seu direito, mas que insulte uma mulher que eu
amo, l por ela ser minha amante, isso  que no consinto.
--Meu amigo--tornou-me Prudncia--, sofre a influncia de uma
rapariga destituda de corao e de esprito; est apaixonado
por ela,  verdade, mas isso no  razo para torturar uma
mulher que se no pode defender.
--Essa senhora que mande a minha casa o seu conde de N... e j
nos batemos com armas iguais.
--Bem sabe que ela no faz semelhante coisa. Assim, meu caro
Armando, deixe-a sossegada; se a visse, havia de se
envergonhar do modo como se porta com ela. Est plida, tosse,
desta no vai longe.
E Prudncia estendeu-me a mo, acrescentando:
--Venha v-la; no imagina que gosto lhe dar a sua visita.
--No tenho vontade de encontrar o conde. 
--o conde de N... nunca l est. Ela no o pode aturar.
--Se Margarida faz empenho em me ver, sabe onde moro. Que
venha c. Eu  que no torno a pr os ps na Rua d'Antin.
--E no a recebe mal?
--Nem por sombras.
--Pois tenho a certeza de que vem.

--Que venha.
--Tenciona sair hoje?
--Estou em casa toda a noite.
--Vou dizer-lho.
Prudncia partiu.
Nem sequer escrevi a olmpia para lhe dizer que no ia l. No
fazia cerimnia com essa rapariga. Passava com ela quando
muito uma noite por semana. Consolava-se disso, creio eu, com
um actor de qualquer teatro do  Boulevard.
Sa para jantar e regressei a casa quase imediatamente. Mandei
acender lume em todos os foges e dei licena ao Jos para no
ficar em casa.
No podia decerto explicar-lhe as impresses diversas que me
agitaram durante uma hora de espera; mas quando s nove horas,
pouco mais ou menos, ouvi tocar a campainha, resumiram-se numa
tal comoo, que ao ir abrir a porta tive medo de me encostar
 parede para no cair.
Felizmente, a saleta estava na penumbra, sendo, por isso,
menos visvel a alterao das minhas feies.
Margarida entrou.
Vinha toda de preto, e com vu. Quase lhe no conhecia as
feies por baixo da renda.
Entrou na sala e ergueu o vu.
Estava plida como o mrmore.
--Aqui estou, Armando--disse ela.--Desejou ver-me, vim.
E deixando cair a cabea nas mos, debulhou-se em lgrimas.
Aproximei-me dela.
--Que tem?--perguntei-lhe com voz alterada.
Apertou-me a mo sem me responder, porque as lgrimas ainda
no lhe permitiam falar. Mas, instantes depois, tendo
recuperado uma certa serenidade, disse-me:
--Tem-me feito muito mal, Armando, a mim que lhe no fiz
nenhum.
--Nenhum?--repliquei, com um sorriso amargo.
--Nenhum, seno o que as circunstncias me obrigaram a
fazer-lhe.
No sei se j experimentou na sua vida ou se vir a
experimentar o que eu sentia por Margarida.
A ltima vez que ela viera a minha casa, sentara-se no stio
onde acabava de se sentar agora; mas, depois dessa poca, fora
amante de outro; outros beijos, que no eram os meus, tinham
tocado nos seus lbios, para os quais involuntariamente os
meus tendiam, e contudo sentia que amava essa mulher tanto ou
mais talvez do que nunca.
No entanto, era-me difcil comear a conversao sobre o
assunto que a levara a minha casa; Margarida compreendeu-o sem
dvida e prosseguiu:
--Venho ma-lo, Armando, porque lhe quero pedir duas coisas: que me perdoe o que eu disse ontem na olmpia,
e que me no faa o mal que est talvez ainda disposto a
fazer-me. Voluntariamente ou no, tem-me magoado tanto desde
que voltou a Paris, que me sinto incapaz de suportar agora a
quarta parte das comoes que tenho suportado at hoje pela
manha. H-de ter d de mim... no  verdade?... e perceber que
um homem de corao tem coisas mais nobres a fazer do que
vingar-se de uma mulher doente e triste como eu. Pegue na
minha mo. Estou com febre, sa da cama para lhe vir pedir,
no a sua amizade, mas a sua indiferena.

Peguei na mo de Margarida. Ardia, e a pobre rapariga tremia
de frio debaixo da sua capa de veludo.
Cheguei para o p do lume a cadeira em que ela estava sentada.
--Imagina que no padeci muito--tornei eu-nessa noite em que,
depois de a esperar no campo, a vim procurar a Paris, onde
encontrei apenas uma carta que quase me fazia enlouquecer?
Como pde enganar-me, Margarida, a mim que a amava tanto?
--No falemos nisso, Armando, no vim c para falar nessas
coisas. Quis v-lo sem ser em atitude hostil, e apertar-lhe
mais uma vez a mo. Tem uma amante nova, bonita, de quem gosta
muito, segundo dizem. Seja feliz com ela e esquea-me.
--E a Margarida  feliz, decerto?
--o meu rosto  o rosto de uma mulher feliz? No zombe da
minha dor, pois sabe melhor do que ningum qual a sua causa e
a sua extenso.
--S de si dependia no ser nunca desgraada; se o , como
diz.
--No, meu amigo, as circunstncias foram mais fortes do que a
minha vontade. No obedeci aos meus instintos de perdida, como
parece querer pensar, mas a uma necessidade sria e s razes que um dia saber,
.e que faro com que me perdoe.
--Porque me no diz j hoje essas razes?
--Porque estabeleceriam uma aproximao que  impossvel entre
ns, e talvez o afastassem de pessoas de quem no deve
afastar-se.
--Quem so essas pessoas?
--No lho posso dizer.
--Ento mente.
Margarida levantou-se e dirigiu-se para a porta.
Eu no podia assistir quela muda e expressiva dor sem me
comover, quando comparava no meu foro ntimo essa mulher
plida e chorosa com a louca rapariga que caoara comigo na
pera Cmica.
--No se v embora--disse-lhe, pondo-me diante da porta.
--Porqu ?
--Porque, apesar do que me fizeste, amo-te ainda e quero que
fiques aqui.
--Para me pores fora amanha, no  verdade? No,  impossvel!
os nossos destinos esto separados, no procuremos reuni-los;
talvez me desprezasses, ao passo que agora apenas podes
odiar-me.
--No, Margarida! --exclamei, sentindo acordar todo o meu amor
e todos os meus desejos ao contacto dela.--No, esquecerei
tudo, e seremos felizes como tnhamos prometido um ao outro.
Margarida sacudiu a cabea em sinal de dvida e disse:
--No sou eu a tua escrava, o teu co? Faz de mim o que
quiseres, toma-me, que sou tua.
E, tirando a capa e o chapu, arrojou-se para cima do canap a
desacolchetar bruscamente o corpo do vestido, porque, por uma
dessas reaces to frequentes da sua doena, subia-lhe o
sangue do corao  cabea e sufocava-a.
Seguiu-se uma tosse seca e rouca.
--Mande dizer ao meu cocheiro--tornou ela-que se v embora com
a carruagem.
Fui eu mesmo dar o recado ao homem.
Quando voltei para casa, Margarida estava estendida diante do
lume, e batiam-lhe os dentes com frio.

Peguei nela nos braos, despi-a sem que ela fizesse qualquer
movimento e levei-a, completamente gelada, para o meu leito.
Ento sentei-me ao p dela e procurei aquec-la com as minhas
carcias. Ela no me dizia uma palavra, mas sorria-se para
mim.
oh! Foi uma noite estranha. Margarida parecia pr toda a sua
vida nos beijos de que me cobria, e eu amava-a tanto que, no
meio dos transportes do seu amor febril, perguntava a mim
mesmo se no devia mat-la para que ela no pertencesse mais a
outro.
Um ms de amor como aquele, e no se seria mais do que um
cadver, tanto no corpo como no corao.
o dia encontrou-nos ainda acordados.
Margarida estava lvida. No pronunciava palavra. De quando em
quando corriam-lhe dos olhos lgrimas como punhos, que lhe
paravam na face, resplandecentes como diamantes. os seus
braos exaustos abriam-se de momento a momento para me
agarrarem e recaam sem fora no leito.
Houve um instante em que me julguei capaz de esquecer tudo o
que se passara desde a minha partida de Bougival, e disse a
Margarida:
--Queres que partamos, saiamos de Paris?
--No, no --respondeu ela, quase com terror.--Seramos uns
infelizes. Eu no posso j servir para a tua ventura, mas,
enquanto me restar um sopro de vida, serei a escrava dos teus
caprichos. A
qualquer hora do dia ou da noite a que me queiras, vem, que
serei tua; mas no tornes a associar o teu futuro ao meu. Eras
desgraado e desgraavas-me a mim tambm. Ainda serei durante
algum tempo uma bonita mulher. Aproveita-o, mas no me peas
mais nada.
Quando ela se foi embora, fiquei horrorizado com a solido em
que me deixava. Duas horas depois da sua partida, estava ainda
sentado na cama que ela acabava de abandonar, perguntando a
mim mesmo o que ia ser feito de mim entre o meu amor e o meu
cime.
As cinco horas, sem atinar sequer com o que ia l fazer,
dirigi-me  Rua d'Antin.
Quem abriu a porta foi Nanine.
--A senhora no o pode receber--disse-me ela, embaraada.--Est c o senhor conde de N... e proibiu que eu
deixasse entrar fosse quem fosse.
--1  justo--balbuciei.--Tinha-me esquecido.
Entrei em minha casa como um homem bbado. E sabe o que fiz
durante um minuto de cioso delrio, que bastava para a
execuo da aco vergonhosa que ia cometer, sabe o que eu
fiz? Disse comigo que essa mulher estava a zombar de mim,
imaginava-a no seu conbio inviolvel com o conde, repetindo
as mesmas palavras que me dissera na vspera, e, pegando numa
nota de quinhentos francos, mandei-lha com estas palavras: 
.<Partiu to depressa esta manha, que me esqueci de Lhe pagar.
"A vai o preo da sua noite."

Depois de mandar esta carta, sa logo como que para me
subtrair ao remorso instantneo dessa infmia, 
Fui a casa de olmpia, a quem encontrei a provar vestidos, e
que, quando ficmos ss, me cantou obscenidades para me
distrair.

Essa  que era deveras o tipo de meretriz sem vergonha, sem
corao e sem crebro, quanto a mim, pelo menos, porque talvez
para algum homem ela pudesse constituir o sonho que para mim
fora Margarida.
Pediu-me dinheiro, dei-lho, e, podendo ento ir-me embora,
regressei a casa.
Margarida no me respondera.
Escuso de lhe dizer a agitao em que passei o dia seguinte.
As seis horas e meia trouxe um moo de fretes um sobrescrito
em que vinha a minha carta e a nota de quinhentos francos.
Mais nada.
--Quem lhe entregou isto? --perguntei a esse homem.
--Uma senhora que partiu com a sua criada na mala-posta de
Bolonha e me recomendou que s a trouxesse depois de o carro
sair do ptio.
Corri a casa de Margarida.
--A senhora partiu para Inglaterra, hoje, s seis horas da
manha--respondeu-me o porteiro.
Nada me prendia j em Paris, nem dio nem amor. Estava exausto
por todos aqueles abalos. Um dos meus amigos ia fazer uma
viagem ao oriente; fui dizer a meu pai o desejo que tinha de o
acompanhar; meu pai deu-me cartas de recomendao, e oito ou
dez dias depois embarquei em Marselha.
Foi em Alexandria que soube, por um adido de embaixada que
tinha visto algumas vezes em casa de Margarida, da doena da
pobre rapariga.
Escrevi-lhe ento uma carta a que ela deu a resposta que o meu
amigo j conhece e que recebi em Toulon.

Parti imediatamente e... sabe o resto.
Falta-me agora apenas ler as poucas folhas do dirio que Jlia
Duprat me entregou e que so o complemento indispensvel de
quanto lhe acabo de contar.
Captulo Xxv

Fatigado desta longa narrativa, muitas vezes interrompida
pelas suas lgrimas, Armando ps as mos na testa e fechou os
olhos, ou para pensar ou para tentar dormir, depois de me
entregar as pginas escritas pela mo de Margarida.
Momentos depois, uma respirao um pouco mais rpida dizia-me
que Armando dormia, mas dormia este sono leve que o mais
ligeiro rudo faz terminar.
Eis o que eu li, e que transcrevo sem acrescentar nem cortar
uma slaba:

"Estamos a 15 de Dezembro. H trs ou quatro dias que estou
doente. Esta manha fiquei na cama; o tempo apresenta-se
sombrio e eu sinto-me triste. Ningum se encontra ao p de
mim. Penso em ti Armando. E tu, onde ests,  hora em que
escrevo estas linhas? Longe de Paris, bem longe, segundo me
disseram, e talvez j tenhas esquecido a Margarida Enfim, se
feliz, tu a quem eu devo os nicos momentos de alegria da
minha vida.
"No tinha podido resistir ao desejo de te explicar o meu
procedimento, e escrevera-te uma carta mas escrita por uma
mulher como eu, pode ser semelhante carta considerada uma
mentira, a no ser
que a morte a santifique com a sua autoridade, e que, em vez

de ser uma carta, seja uma confisso.
"Estou doente hoje: posso morrer desta doena, porque sempre
tive o pressentimento de que morreria nova. Minha me morreu
de uma doena do peito, e o modo como tenho vivido at agora
no pode seno piorar esta afeco, nica herana que ela me
deixou; mas no quero morrer sem que saibas o que pensar a meu
respeito, se, quando voltares, te lembrares ainda da pobre
rapariga que amavas antes de partires.
"Eis o que continha essa carta, que me sinto feliz por tornar
a escrever, para dar a mim prpria uma nova prova da minha
justificao:
"Lembras-te, Armando, como nos surpreendeu em Bougival a
chegada de teu pai, lembras-te do terror involuntrio que essa
chegada me causou; da cena que houve entre os dois, e que me
contaste  noite ?
"No dia seguinte, enquanto andavas por Paris e esperavas teu
pai que no vinha, apresentava-se um homem em minha casa e
entregava-me uma carta
Sr. Duval.
"Essa carta, que junto a esta, pedia-me, nos termos mais
graves, que te afastasse, no dia seguinte, com U l pretexto
qualquer e que recebesse teu pai; precisa  a de me falar e
recomendava-me que nada te
dissesse a respeito do passo que ele vinha dar.
"Lembras-te da insistncia com que eu te aconselhei,  tua
volta, que tornasses a Paris no dia seguinte?
"Havia uma hora que tinhas partido quando teu pai se
apresentou em minha casa. No te quero dizer a impresso que
me causou o seu rosto severo. Teu pai estava cheio de velhas
teorias, segundo as quais todas as cortess so entes sem
corao, sem juzo,
uma espcie de mquinas de apanhar dinheiro, prontas sempre,
como as mquinas de ferro, a esmagar a mo que lhe estende
alguma coisa, e a dilacerar sem discernimento nem piedade quem
lhe d vida e movimento.
"Teu pai escrevera-me uma carta muito atenciosa para eu
consentir em receb-lo; no se apresentou bem do mesmo modo.
Houve nas suas primeiras palavras tanta altivez, tanto
desabrimento e at tantas ameaas, que tive de lhe fazer
sentir que estava em minha casa e que no tinha contas a
dar-lhe da minha vida, a no ser atendendo  sincera afeio
que me unia ao seu filho.
"o Sr. Duval sossegou um pouco, comeando, contudo, a dizer
que no podia sofrer por mais tempo que seu filho se
arruinasse por minha causa; que era formosa,  certo, mas que,
por mais formosa que fosse, no devia servir-me da minha
beleza para deitar a perder o futuro de um rapaz, com despesas
como as que eu fazia.
"S havia uma coisa a responder, no  verdade? Apresentar
provas de que, desde que era tua amante, a nenhum sacrifcio
me poupara para te ser fiel para no te pedir mais dinheiro do
que tu me podias dar. Mostrei as cautelas do Montepio, os
recibos das pessoas a quem eu vendera os objectos que no
pudera empenhar, dei parte a teu pai da resoluo que tomara
de me desfazer de minha casa para pagar as dvidas e viver
contigo sem constituir para ti uma carga muito pesada.
Contei-lhe a nossa felicidade, como tu me tinhas revelado uma
vida mais tranquila e mais feliz, e ele acabou por se render 

evidncia e me estender a mo, pedindo-me desculpa do modo
como primeiro me tratara.
"Depois disse-me:
"--Nesse caso, minha senhora, no  nem a censuras nem a
ameaas, mas a splicas que devo recorrer para lhe arrancar um
sacrifcio maior do que todos os que tem feito por meu filho.
"Tremi com este prembulo.
"Teu pai aproximou-se de mim, pegou-me em ambas as mos e
continuou num tom afectuoso:
"--Minha filha, no interprete erradamente o que lhe vou
dizer; perceba apenas que a vida tem s vezes necessidades
cruis para o corao, e que no h outro remdio seno a
gente submeter-se a elas. 1  bondosa, Margarida, e a sua alma
possui generosidades desconhecidas a muitas mulheres que
talvez a desprezem e nas quais no existem decerto nem sombras
do seu valor moral. Mas lembre-se de que ao lado da amante h
a famlia, ao lado do amor, os deveres; que  idade das
paixes segue-se a idade em que o homem, para ser respeitado,
precisa de estar solidamente assente numa sria posio. o meu
filho no  rico, e est pronto, contudo, a doar-lhe a herana
de sua me. Se aceitasse de si o sacrifcio que se prope
fazer por ele, seria digno da sua honra e da sua dignidade
doar-lhe em troca esses bens que a poriam sempre ao abrigo de
uma adversidade completa. Mas ele no pode aceitar tal
sacrifcio, pois a sociedade, que no a conhece, daria a esse
consentimento uma causa desleal que no deve embaciar o brilho
do nome que temos. Ningum quereria saber se Armando a ama, se
Margarida o ama, se este duplo amor constitui uma felicidade
para ele e uma reabilitao para si; veriam apenas que Armando
Duval consentiu que uma cortes --perdoe-me, minha filha, tudo
o que me vejo obrigado a dizer-lhe--vendesse, para viver com
ele, o que possua. Depois, no tardaria a chegar o dia das
recriminaes e dos arrependimentos, dia que haviam de ter
como sucede com os outros, e ambos carregariam com um
grilho que j no poderiam quebrar. Que faria ento? Estaria
perdida a sua juventude, destrudo o futuro de Armando; e eu,
seu pai, s receberia de um dos meus filhos a recompensa que
espero de ambos.
"1  nova,  bonita; a vida h-de compens-la. Tem uma ndole
nobilssima e a lembrana de uma boa aco h-de resgatar na
sua alma muitas coisas passadas. H seis meses que a conhece,
e h seis meses que Armando se esquece de mim. Quatro vezes
lhe escrevi, sem obter dele uma resposta. Podia ter morrido
sem ele o saber!
"Seja qual for a sua resoluo de viver de um modo diverso do
que tem vivido, Armando, que a ama, no consentir na recluso
a que a modesta posio de que ele desfruta a condenaria e que
no  para a sua beleza. Quem sabe o que meu filho faria
ento! Jogou, j o soube; e sei tambm que jogou sem dizer
nada  sua amante; mas num momento de embriaguez, podia perder
uma parte do que eu junto h bastantes anos para o dote de sua
irma, para ele e para a tranquilidade da minha velhice. o que
felizmente no sucedeu pode suceder ainda.
"Tem, alm disso, a certeza de que no viria a atra-la de
novo a existncia que por ele deseja abandonar? A Margarida,
que o amou, est absolutamente convencida de que no vir a
amar outro qualquer? No a magoar, enfim, a ideia das
restries que a sua ligao h-de pr na vida do seu amante,

e de que no poder talvez consol-lo, se, com a idade,
sucederem ideias de ambio a sonhos de amor? Pense em tudo
isto, minha senhora; se tem sincero amor a Armando, prove-lho
pelo nico meio que ainda lhe resta de lho provar: fazendo ao
futuro dele o sacrifcio do seu amor. Ainda no houve
desgraas, mas no podia deixar de as haver, e talvez maiores
do que as que prevejo. Armando pode ter cimes de algum homem
que a amou; pode provoc-lo, pode bater-se, pode ser morto,
enfim, e lembre-se do que padeceria, Margarida, diante deste
pai que lhe pediria contas da vida de seu filho.
"Enfim, minha filha, saiba tudo, porque ainda lhe no disse
tudo, saiba, pois, o que me trazia a Paris. Tenho uma filha,
acabo de lho dizer, nova, linda e pura como um anjo. Ama, e
fez tambm desse amor o sonho da sua vida. Eu mandara dizer
tudo isto a Armando, mas, todo entregue ao seu amor, ele nem
me respondeu. Pois bem, minha filha vai casar com o homem que
ama, entra numa famlia honrada que quer que tudo seja honrado
na minha. A famlia do homem que est para ser meu genro soube
como Armando vive em Paris e declarou-me que retoma a sua
palavra se Armando continuar nesta vida. Depende de si o
futuro de uma criana que lhe no fez nada e que tem jus a
contar com o futuro.
"Tem o direito de o despedaar? Sente-se com foras de o
fazer? Em nome do seu amor e do seu arrependimento, Margarida,
conceda-me a felicidade da minha filha.
"Eu chorava silenciosamente, meu amigo, diante dessas
reflexes que muitas vezes fizera e que, na boca de seu pai,
adquiriam ainda mais sria realidade. Dizia a mim prpria tudo
o que seu pai se no atrevia a dizer-me, e o que vinte vezes
lhe acudira aos lbios: que eu no passava, afinal de contas,
de uma cortes, e que fosse qual fosse o modo como explicasse
a minha ligao, sempre ela teria o ar de um clculo; que a
minha vida passada no me dera o mnimo direito de sonhar
semelhante futuro, e que eu aceitava responsabilidades a que
os meus hbitos e a minha reputao no davam garantia alguma.
Enfim, amava-o, Armando. A maneira paternal com
que o Sr. Duval me falava, os castos sentimentos que evocava
na minha conscincia, a estima desse velho leal que eu ia
conquistar, a sua, Armando, que estava certa de vir ainda a
adquirir, tudo isso me despertava no corao nobres
pensamentos, que me levantavam aos meus prprios olhos e
faziam falar em mim santas vaidades, at ento desconhecidas.
Quando eu pensava que um dia esse velho, que me implorava em
nome do futuro de sua filha, diria a seu filho que envolvesse
o meu nome nas suas oraes como o nome de uma misteriosa
amiga, transformava-me e ufanava-me de mim prpria.
"A exaltao do momento exagerava talvez a verdade dessas
impresses; mas eis o que eu sentia, meu amigo, e esses
sentimentos novos impunham silncio aos conselhos que me dava
a lembrana dos dias felizes passados contigo.
"--Bem, Sr. Duval--disse eu a teu pai, enxugando as
lgrimas.--Acredita no amor que eu tenho a seu filho?
"--Acredito--respondeu.
"--Que  um amor desinteressado?
"--Sim.
 --Acredita que eu fizera dele a esperana, o sonho e o perdo
da minha vida?


 <_Ahc  t m ntt 
"--Pois d-me um beijo, como daria em sua filha, e juro-lhe
que esse beijo, o nico verdadeiramente casto da minha vida,
me tornar forte contra o meu amor, e que, em menos de oito
dias, seu filho voltar para junto de si, desgraado talvez
nos primeiros tempos, mas curado para sempre.
"-- uma nobre rapariga--replicou, beijando-me na testa--e vai
tentar uma coisa que Deus lhe levar em conta; mas receio
muito que nada obtenha de meu filho.
 --oh ! Descanse, Sr. Duval ! H-de chegar a odiar-me.
"Era necessrio levantar entre ns uma barreira que no
pudssemos transpor.
"Escrevi a Prudncia mandando-lhe dizer que aceitava as
propostas do conde de N... e que cearia com ela e com ele
nessa noite.
"Fechei a carta, e sem lhe dizer o que escrevera, pedi a seu
pai que a mandasse ao seu destino quando chegasse a Paris.
"Perguntou-me, contudo, o que ia nessa carta.
"--A felicidade de seu filho--respondi.
"Teu pai beijou-me pela ltima vez. Senti na minha fronte duas
lgrimas de reconhecimento que foram como que o baptismo das
minhas culpas de outrora, e, no momento em que acabava de
consentir em me entregar a outro homem, senti irradiar o
orgulho na minha alma, ao pensar o que eu resgatava com essa
nova queda.
"Era naturalssimo, Armando; tinhas-me dito que teu pai era o
homem mais honrado que se podia encontrar no mundo.
"o Sr. Duval meteu-se de novo na carruagem e partiu.
"Eu era mulher, contudo, e, quando te tornei a ver, no pude
deixar de chorar, mas no fraquejei.
"Fiz bem?  o que pergunto a mim mesma hoje, que caio doente
num leito, de onde talvez s saia j morta.
"Foste testemunha do que eu sentia,  medida que se aproximava
a hora da nossa inevitvel separao; teu pai j no estava
presente para me amparar, e houve um momento em que pouco
faltou para confessar tudo, tanto me horrorizava a ideia de
que me ias desprezar e odiar.
"H uma coisa que talvez no acredites, Armando.
Pedi a Deus que me desse fora, e a prova de que aceitava o
meu sacrifcio foi que me deu a fora que eu implorava.
"Nessa ceia ainda precisei que me ajudassem, pois queria
ignorar o que ia fazer, tal o receio de que me faltasse a
coragem.
"Quem me diria a mim, Margarida Gautier, que tanto me faria
padecer a simples ideia de possuir um novo amante!
"Bebi para esquecer, e, quando acordei no dia seguinte, estava
no leito do conde.
"Aqui tens a verdade toda. Julga-me e perdoa-me, Armando, como
eu j te perdoei todo o mal que me fizeste desse dia em
diante. "

Captulo XXVI

"o que se seguiu a essa noite, sabe-lo to bem como eu, mas
no podes suspeitar o que sofri depois da nossa separao.
"Soube que teu pai te levara para a provncia, mas suspeitava
que no poderias passar muito tempo longe de mim, e no dia em
que te encontrei nos Campos Elsios, comovi-me, mas no me

espantei.
"Ento principiou essa srie de dias, em cada um dos quais
recebi um novo insulto teu, insulto que eu recebia quase com
alegria, pois, alm de ser a prova de que continuavas a
amar-me, parecia-me que quanto mais me perseguisses mais eu me
engrandeceria aos teus olhos no dia em que soubesses a
verdade.
"No te espantes com este alegre martrio, Armando. o amor que
me tinhas consagrado abrira o meu corao a nobres
entusiasmos.
"Contudo, eu no adquirira logo, logo, essa fora.
"Entre a execuo do sacrifcio que eu te havia feito e a tua
volta, passara-se um tempo bastante longo, durante o qual eu
recorrera a meios fsicos para no enlouquecer e para me
aturdir e no pensar na vida em que de novo me submergia.
Prudncia disse-te que eu ia a todas as festas, a todos os
bailes e a todas as orgias, no  verdade?
"Tinha como que a esperana de me matar rapidamente,  fora
de excessos, e parece-me que essa esperana no tardar a
realizar-se. Alterou-se necessariamente a minha sade cada vez
mais, e no dia em que mandei a Duvernoy pedir-te misericrdia,
estava exausta de corpo e de alma.
"No te lembrarei, Armando, o modo como recompensaste a ltima
prova de amor que te dei, e o ultraje com que expulsaste de
Paris a mulher que, moribunda, no pudera resistir  tua voz,
quando lhe pedias uma noite de amor, e que julgara como uma
insensata, mas por um instante s, poder voltar ao passado.
Estavas no direito de fazer o que fizeste, Armando; nem sempre
me pagaram por to alto preo as minhas noites.
"Deixei tudo ento! olmpia substituiu-me junto do conde de
N..., e encarregou-se, ao que me disseram, de o informar do
motivo da minha partida. o conde de G... estava em Londres. 
um desses homens que do ao amor com as raparigas como eu
apenas a importncia bastante para que ele seja um passatempo
agradvel. Ficam sempre excelentes amigos das mulheres que
possuram e no tm dio, porque nunca sentiram cimes. ,
enfim, um desses fidalgos que nunca nos abrem seno um lado do
seu corao, mas que nos abrem sempre ambos os lados da sua
bolsa. Foi no conde de G... em quem pensei imediatamente. Fui
ter com ele. Recebeu-me s mil maravilhas, mas era amante de
uma senhora da sociedade londrina e receava comprometer-se
dando publicidade s suas relaes comigo. Apresentou-me aos
seus amigos, que me deram uma ceia, e depois da ceia um deles
levou-me para sua casa.
"Que querias que eu fizesse, meu amigo?
"Matar-me? Seria carregar a tua vida, que deve ser feliz, com
um remorso intil; depois valia a pena
matar-me quando estava to perto de morrer? "Passei ao estado
de corpo sem alma, de coisa sem pensamento. Vivi algum tempo
esta vida automtica. Depois voltei a Paris e perguntei por
ti; soube ento que partiras para uma longa viagem. No havia
coisa alguma que me desse foras. A minha vida tornou a ser o
que fora dois anos antes de te conhecer. Tentei reconquistar a
afeio do duque, mas eu magoara com demasiada rudeza esse
homem, e os velhos no se mostram nada indulgentes, talvez por
perceberem que no so eternos. Invadia-me a doena de dia
para dia, estava plida, triste, mais magra ainda. os
homens que compram amor, examinam a mercadoria antes de a

ajustar. Havia em Paris mulheres mais saudveis, mais alegres
e mais gordas do que eu; fui sendo um pouco esquecida. Eis o
passado at ontem.
" Agora estou muito doente. Escrevi ao duque para Lhe pedir
dinheiro, porque o no tenho, e os credores voltaram e trazem
as suas contas com uma insistncia implacvel e feroz. o duque
responder-me-? Ah' Se estivesses em Paris, Armando, vinhas
ver-me

  
< 20 de Dezembro

"Est um tempo horrvel. Neva, e acho-me sozinha em casa.
Tenho tido h trs dias uma febre tal, que no te pude
escrever uma s palavra. Nada de novo, meu amigo; espero todos
os dias vagamente uma carta tua, mas a carta no vem, e
decerto no vir nunca. S os homens tm fora para no
perdoar. o duque no me respondeu.
"Prudncia recomeou as suas viagens ao Montepio.
"No deixo de deitar escarros de sangue. Fazia-te
pena se me visses. Que feliz tu s por te encontrares debaixo
de um cu quente e no teres, como eu um inverno todo de gelo
a pesar-te no peito! Hoje levantei-me um bocadinho, e, por
trs das minhas cortinas, estive a ver deslizar essa vida de
Paris com a qual me parece que rompi de todo. Alguns rostos
conhecidos passaram na rua, rpidos, alegres, despreocupados.
Nem um s levantou os olhos para a minha janela. Vieram,
contudo, alguns rapazes deixar os seus cartes. J uma vez
estive doente, e tu, que me no conhecias, que nada obtiveras
de mim seno impertinncia no dia em que te vira pela primeira
vez, vinhas todas as manhas saber notcias acerca da minha
sade! Agora estou doente de novo. Vivemos seis meses juntos.
Tive por ti tanto amor quanto o corao de uma mulher pode
conter e dar, e achas-te longe, amaldioas-me e no recebo de
ti uma s palavra de consolao. Bem sei que s ao acaso se
deve este abandono e que, se estivesses em Paris, no
largarias a minha cabeceira nem o meu quarto. "

"25 de Dezembro

"o mdico probe-me absolutamente de escrever todos os dias.
De facto, as minhas lembranas s fazem aumentar a febre; mas
ontem recebi uma carta que me consolou, mais pelos sentimentos
nela expressos do que pelo socorro material que trazia. Essa
carta era de teu pai e dizia o seguinte:

"Minha senhora

"Acabo de saber que est doente. Se me encontrasse em Paris,
iria saber notcias suas; se o meu filho estivesse comigo,
dir-lhe-ia que a procurasse.
Mas no posso sair de C... e o Armando acha-se a seiscentas ou
setecentas lguas daqui. Permita-me, pois, minha senhora, que
lhe mande dizer simplesmente, por escrito, quanto me penaliza
a sua doena e creia nos votos sinceros que fao pelo seu
pronto restabelecimento.
"Ir a sua casa um dos meus bons amigos, o Sr. H..., e
peo-lhe, minha senhora, que o receba. Confiei-lhe uma misso,

cujo resultado espero com ansiedade.
"Queira aceitar, minha senhora, o protesto da minha mais
elevada considerao. "

"Tal  a carta que recebi. Teu pai  um nobre corao;
estimo-o deveras, meu amigo, porque h poucos homens no mundo
to dignos de estima. Fez-me melhor esse papel assinado com o
nome dele do que todas as receitas do nosso grande mdico.
"Esta manha apareceu o Sr. H... Parecia muito embaraado com a
misso delicada de que o Sr. Duval o encarregara. Vinha
simplesmente trazer-me mil escudos da parte de teu pai.
Primeiro quis recusar, mas o Sr. H... disse-me que essa recusa
ofenderia o Sr. Duval, que o autorizara a dar-me primeiro essa
quantia, e a entregar-me tudo quanto me fosse necessrio.
Aceitei esse benefcio que, da parte de teu pai, no se pode
considerar uma esmola. Se tiver morrido quando voltares,
mostra a teu pai o que eu acabo de escrever para ele, e
diz-lhe que, ao traar estas linhas, a pobre rapariga, a quem
escreveu esta carta consoladora, derramava lgrimas de
reconhecimento e rezava a Deus por ele."

"4 de Janeiro

"Acabo de passar uma srie de dias bem dolorosos. No sabia que o corpo nos podia causar tamanho
sofrimento. oh! A minha vida passada, pago-a hoje bem caro!
"Velaram-me durante estas noites todas. Eu j no podia
respirar. o delrio e a tosse dividiam entre si a minha pobre
existncia.
"A minha sala de jantar est cheia de doces, de presentes de
toda a espcie, que os meus amigos me trouxeram. De todos
esses homens alguns esperam decerto que eu seja sua amante,
quando estiver boa Se vissem o que a doena fez de mim,
fugiriam horrorizados.
"Prudncia farta-se de dar presentes com os que eu recebo.
"Est muito frio. Disse-me o doutor que, se o tempo se
conservasse assim bonito, eu podia sair, dentro de poucos
dias. t>

"8 de Janeiro

"ontem sa de carruagem. Como o tempo estava magnfico, os
Campos Elsios encheram-se de gente. Dir-se-ia o primeiro
sorriso da Primavera. Tinha tudo um ar de festa em volta de
mim. Nunca imaginara que podia haver, num raio de sol, o
jbilo, a doura e a consolao que ontem senti.
"Encontrei quase todas as pessoas que conheo, sempre alegres
e sempre a cuidarem dos seus prazeres. Quantos felizes h que
no sabem que so felizes! olmpia passou numa elegante
carruagem que o conde de N... lhe deu. Procurou insultar-me
com os olhos. No sabe como estou longe de todas essas
vaidades. Um belo rapaz que eu conheo h muito tempo
perguntou-me se eu queria ir cear com ele e com um dos seus
amigos que deseja muito conhecer. -me.
" Sorri-me para ele tristemente e estendi-lhe a mo que ardia
em febre.
"Nunca vi cara mais espantada.
"Voltei s quatro horas para casa e jantei com certo apetite.

"Este passeio fez-me bem.
"E se eu me curasse?
"Como o aspecto da vida e a felicidade dos outros tem com que
desejem viver aqueles que na vspera, na
solido da sua alma, e na sombra do seu quarto de
entes, desejavam morrer e bem depressa!"

"10 de Janeiro

"Essa esperana de sade era apenas um sonho. Aqui estou outra
vez de cama, com o corpo coberto de emplastros que queimam.
Vai oferecer esse corpo que dantes se pagava to caro, e v
quanto de do hoje por ele!
" necessrio que tenhamos feito muito mal antes de nascer, ou
que devamos gozar uma felicidade bem grande depois da nossa
morte, para que Deus permita que esta vida tenha todas as
torturas da expiao e todas as dores da provao. "

" 12 de Janeiro

"As dores no me deixam.
"o conde de N... mandou-me dinheiro ontem e eu no lho
aceitei. No quero nada desse homem.
Por causa dele  que no ests agora ao p de mim.
"oh lindos dias de Bougival, onde estais vs?
"Se eu sair viva deste quarto, hei-de fazer uma romagem  casa
em que mormos juntos, mas no sairei de l seno depois de
morta.
" Quem sabe se te escreverei amanha ? "


"H onze noites que no durmo, que tenho sufocaes e que
imagino a cada instante que vou morrer. o mdico ordenou que
me no deixassem pegar na pena. Jlia Duprat, que passa as
noites ao p de mim, escreve-te estas poucas linhas. Pois tu
no voltars antes da minha morte? Estar ento tudo
eternamente acabado entre ns? Parece-me que me curava se te
visse. Para que me serve curar-me? "

"28 de Janeiro

"Esta manha fui acordada por um grande estrondo. Jlia, que
dormia no meu quarto, correu para a casa de jantar. ouvi vozes
de homem, contra as quais lutava a sua voz fraca. Voltou para
o quarto a chorar.
"Vinham fazer a penhora. Disse-lhe que deixasse  vontade
aquilo que eles chamam a justia. o oficial de diligncias
entrou no meu quarto, de chapu na cabea. Abriu as gavetas,
arrolou tudo quanto encontrou e nem pareceu reparar em que
havia uma moribunda no leito que felizmente a caridade da lei
me deixava.
"Teve a bondade de me dizer, ao ir-se embora, que eu podia
embargar a penhora, no prazo de nove dias, mas deixou um
guarda. Que ser feito de mim, Deus meu! Esta cena fez-me
piorar. Prudncia queria ir pedir dinheiro ao amigo de teu
pai; opus-me."

"30 de Janeiro

"Recebi a tua carta esta manha. Bem precisava dela. Recebers
ainda a tempo a minha resposta? Foi um dia feliz que me fez
esquecer todos os que tenho passado h seis semanas. Parece-me
que melhorei,
apesar do sentimento de tristeza, debaixo de cuja impresso te
respondi.
"Afinal de contas, no se h-de ser sempre desgraada.
"Quando penso que pode acontecer que eu no morra, que tu
voltes, que eu torne a ver a Primavera, que me ames ainda, e
que recomecemos a nossa vida do ano passado...
"Doida que eu sou! Mal posso pegar na pena com que escrevo
este sonho insensato do meu corao!
"Acontea o que acontecer, digo-te que te amava deveras,
Armando, e teria morrido h muito tempo, se no houvesse para
me valer a lembrana deste mor, e como que uma vaga esperana
de tornar a ver-te junto de mim."

" 4 de Fevereiro

"o conde de G... voltou. A sua amante enganou-o. Est
tristssimo, amava-a muito. Veio contar-me isso tudo. o pobre
rapaz est muito atrapalhado de dinheiro, o que o no impediu
de pagar ao oficial de diligncias e de mandar embora o
guarda.
"Falei-lhe em ti, e ele prometeu falar-te em mim. Como eu me
esquecia de que fora amante desse homem, e como ele procurava
fazer-mo esquecer tambm !  um belo corao.
"o duque mandou ontem saber notcias minhas e veio c esta
manha. No sei o que pode dar vida ainda a esse velho. Esteve
trs horas ao p de mim, e no me disse vinte palavras.
Saltaram-lhe dos olhos duas lgrimas como punhos quando me viu
to plida. Fazia-o chorar, sem dvida, a lembrana da morte
da sua filha. Pode dizer que a viu assim morrer duas vezes
Est muito abatido, inclina-se-lhe a cabea para o cho, tem o
beio cado, o olhar apagado.
Pesam como dupla carga sobre esse corpo exausto a dor e a
idade. No me fez a mnima recriminao. Dir-se-ia at que o
satisfazia secretamente a devastao que a doena operara em
mim. Parecia orgulhar-se de estar de p, quando eu, nova
ainda, me sentia esmagada pela dor.
"Voltou o mau tempo. Ningum me vem ver. Jlia vela o mais que
pode ao p de mim. Prudncia, a quem j no posso dar tanto
dinheiro como dantes, principia a pretextar negcios para se
afastar.
"Agora que estou quase a morrer, apesar do que me dizem os
mdicos, porque tenho muitos, o que prova que a doena
aumenta, quase lamento ter dado ouvidos a teu pai; se eu
soubesse que no tirava seno um ano ao teu futuro, no teria
resistido ao desejo de passar esse contigo, e ao menos morria
com a mo de um amigo nas minhas. 1  verdade que se vivssemos
juntos esse ano, eu no morreria to cedo.
"Seja feita a vontade de Deus! "

"5 de Fevereiro

"oh! Vem, vem, meu Armando! Sofro horrivelmente. Estava to
triste ontem, que quis passar num stio qualquer que no fosse
a minha casa a noite que parecia interminvel como a da

vspera. o duque viera pela manha. Ao ver esse homem esquecido
pela morte, tenho a impresso de morrer mais depressa.
"Apesar da febre ardente que me queimava, pedi que me
vestissem e me levassem ao Vaudeville. Jlia ps-me carmim,
seno parecia um cadver. Fui para aquele camarote onde
combinmos a nossa primeira entrevista; estive todo o tempo
com os olhos cravados na cadeira que ocupavas nessa noite, e
onde
estava ontem um saloio, que ria estrondosamente de todas as
tolices que os actores diziam. Trouxeram-me semimorta para
casa. Tossi e deitei sangue toda a noite. Hoje j no posso
falar e mal consigo mexer os braos. oh meu Deus, meu Deus!
Vou morrer. J o esperava, mas no posso habituar-me  ideia
de padecer, e se. . . "
Dessa palavra para diante as letras que Margarida procurava
traar eram ilegveis, e fora Jlia Duprat que continuara.

" 18 de Fevereiro

"Sr. Armando:
"Desde o dia em que a Margarida quis ir ao espectculo, foi
sempre a pior. Perdeu completamente a voz, depois o uso dos
seus membros;  impossvel dizer do que padece a nossa pobre
amiga. No estou habituada a este gnero de comoes e tenho
sustos continuados.
"Como eu desejaria que se encontrasse connosco! Margarida est
quase sempre em delrio, mas, delirante ou lcida,  sempre o
seu nome que ela profere, quando chega a pronunciar alguma
palavra.
"o mdico disse-me que ela pouco durava. o velho duque, desde
que Margarida est to doente, no voltou c.
"Disse ao doutor que esse espectculo lhe fazia um mal imenso.
"A Sr.a Duvernoy no se porta bem, devo confess-lo. Essa
mulher, que julgava poder arrancar mais dinheiro a Margarida,
 custa da qual estava a viver quase completamente, tomou
compromissos que no pde satisfazer, e vendo que a sua
vizinha j lhe no serve de nada, nem c vem. Todos a
abandonam. o conde de G.. ., perseguido pelos credores, foi
obrigado a partir outra vez para Londres. Antes mandou-nos algum
dinheiro; fez quanto pde, mas vieram as penhoras, e os
credores no esperam seno a morte para porem tudo  venda.
"Quis usar dos meus ltimos recursos para impedir estas
penhoras todas, mas o oficial de diligncias disse-me que era
escusado, e que tinha ainda de executar mais sentenas. Se ela
vai morrer em breve, mais vale abandonar tudo do que salv-lo
para o dar  sua famlia, que nunca a quis ver e que nunca a
amou. Mal imagina a misria em que esta pobre rapariga est a
passar os ltimos dias da sua vida! ontem no tnhamos
dinheiro absolutamente nenhum. Talheres, jias, xailes de
caxemira, est tudo empenhado, o resto penhorado ou vendido.
Margarida ainda tem conscincia do que se passa em torno de
si, e padece no corpo, no esprito e no corao. Grossas
lgrimas lhe caem pelas faces, to magras e to plidas, que o
Sr. Armando no reconheceria j o rosto daquela que amava
tanto, se a pudesse ver. Margarida fez com que eu prometesse
escrever-lhe quando ela j o no pudesse fazer, e estou a
cumprir a promessa diante dela. Volta os olhos para o meu

lado, mas no me v, o seu olhar acha-se j embaciado pela
morte prxima; no entanto sorri-se, e todo o seu pensamento e
toda a sua alma lhe pertencem, Sr. Armando, tenho essa
certeza.
"De cada vez que se abre a porta, iluminam-se-lhe os olhos e
imagina sempre que  o seu Armando que vai entrar; depois, v
que se enganou, volta o rosto a ter a sua expresso dolorosa,
humedece-se-lhe com um suor frio, e tornam-se purpreas as
maas do


" 19 de Fevereiro.--Meia-noite

"Como foi triste o dia de hoje, meu pobre senhor Armando! Esta
manha Margarida estava sufocada, o mdico sangrou-a, e
voltou-lhe um pouco a fala. o doutor aconselhou-a a receber um
padre. Margarida disse que consentia, e foi ele mesmo chamar
um a S. Roque.
"Entretanto, Margarida chamou-me para o p da sua cama,
pediu-me que lhe abrisse o armrio, depois apontou para uma
touca, para uma camisa comprida toda coberta de rendas, e
disse-me com voz fraca:
"--Vou morrer. Depois de me confessar, veste-me isto;  uma
garridice de moribunda.
"Em seguida abraou-me, beijou-me a chorar e acrescentou:
"--Eu posso falar, mas o falar sufoca-me imenso. Abafo! Ar!
Ar!
"Eu estava debulhada em lgrimas, abri a janela e instantes
depois entrou o padre.
"Fui ao seu encontro.
"Quando soube em casa de quem se encontrava, parecia com
receio de ser mal recebido.
"--Entre sem medo, meu padre--disse-lhe eu.
"Demorou-se pouco tempo no quarto da doente e, quando saiu,
sussurrou-me:
"--Viveu como pecadora, mas h-de morrer como crista.
"Momentos depois voltou, acompanhado por um menino de coro com
um crucifixo na mo e por um sacristo que tocava adiante dele
a campainha, para anunciar que vinha Deus  moribunda.
"Entraram todos trs nessa alcova, onde haviam ressoado
outrora tantas palavras pecadoras, e que agora era apenas
tabernculo santo.
"Ca de joelhos. No sei quanto tempo me durar
a impresso que me produziu esse espectculo, mas no creio
que me possa impressionar tanto uma coisa humana, at eu
chegar ao mesmo momento.
"o padre ungiu com os santos leos os ps, as mos e a testa
da moribunda, recitou uma curta orao, e Margarida achou-se
pronta a partir para o Cu para onde ir sem dvida, se Deus
viu as provaes da sua vida e a santidade da sua morte.
"Da por diante no pronunciou mais palavra, nem fez qualquer
movimento. Vinte vezes a julgaria morta, se no ouvisse o
esforo da sua respirao difcil. "

"20 de Fevereiro, s 5 horas da tarde

"Est tudo acabado.
"Margarida entrou na agonia esta noite s duas horas pouco

mais ou menos. Nunca houve mrtir que padecesse semelhantes
torturas, a avaliar pelos gritos que soltava. Duas ou trs
vezes se ps em p na cama, como se quisesse segurar a vida
que subia para Deus.
"Duas ou trs vezes tambm pronunciou o seu nome, depois
calou-se completamente e recaiu exausta na cama. Correram-lhe
dos olhos lgrimas silenciosas e morreu.
"Ento aproximei-me dela, chamei-a, e, como me no respondia,
fechei-lhe os olhos e beijei-a na testa.
"Pobre querida Margarida, bem desejaria ser uma santa mulher
para que este beijo te recomendasse a Deus.
"Depois vesti-a como ela me pedira, fui buscar um padre a S.
Roque, acendi dois crios por inteno dela e estive uma hora
a rezar na igreja.
"Dei a uma pobre o dinheiro que era dela.
"Eu no entendo bem estas coisas de religio, mas penso que
Deus Nosso Senhor reconhecer que as
minhas lgrimas eram verdadeiras, fervente a minha prece,
sincera a minha esmola, e que se compadecer daquela mulher
que morreu to nova e to linda, s me tendo a mim para lhe
fechar os olhos e a amortalhar"

"22 de Fevereiro

"Foi hoje o enterro. Estiveram na Igreja muitas amigas de
Margarida. Algumas choraram sinceramente. Quando o fretro
seguiu o caminho de Montmartre, levava s dois homens no
cortejo: o conde de G..., que voltara de Londres de propsito,
e o duque, que ia amparado por dois criados.
"Escrevo-lhe tudo isto de casa dela, no meio das minhas
lgrimas e diante de um candeeiro que arde tristemente ao lado
do meu jantar, em que no toco, como pode calcular, mas que
Nanine quis por fora que me fizessem, porque no como h
vinte e quatro horas.
"No poder a minha vida conservar por muito tempo estas
impresses tristes, porque ela no me pertence, como a de
Margarida lhe no pertencia tambm, e por isso lhe conto estas
coisas nos prprios stios onde se passaram, receando que, se
o seu regresso ainda demorar muito, no lhas possa narrar com
toda a sua triste e rigorosa exactido. "

Captulo XXVII

Quando acabei a leitura do manuscrito, Armando perguntou-me:
--Leu ?
--Se tudo isto  verdade, compreendo o que deve ter sofrido.
--Confirmou-mo meu pai numa carta.
Ainda conversmos por algum tempo no triste fado que acabava
de se cumprir, e voltei a casa para descansar um pouco.
Armando, sempre triste, mas um pouco aliviado por ter contado
tudo, restabeleceu-se depressa, e fomos visitar juntos
Prudncia e Jlia Duprat.
Prudncia acabava de falir. Disse-nos que Margarida fora a
causadora; que ela, Prudncia, lhe emprestara muito dinheiro
durante a sua doena, para obter o qual assinara letras, que
no lhe fora possvel pagar, e como Margarida morrera sem as
liquidar, e no lhe dera recibos, no pudera apresentar-se
como credora.

Com o auxlio dessa fbula que a Duvernoy contava por toda a
parte para desculpar a sua runa, conseguiu ela surripiar uma
nota de mil francos a Armando, que no acreditava uma palavra,
mas que fingia acreditar, tal o respeito que tinha por tudo o
que se aproximara da sua amante.
Depois fomos a casa de Jlia Duprat, que nos contou os tristes
acontecimentos a que assistira, derramando lgrimas sinceras
ao lembrar-se da sua
amiga.
Fomos, enfim, ao tmulo de Margarida, no qual os primeiros
raios do sol de Abril faziam nascer as primeiras folhas.
Restava a Armando um ltimo dever a cumprir: era de ir ter com
seu pai. Quis ainda que eu o acompanhasse.
Chegmos a C..., onde vi o Sr. Duval, exactamente como eu
imaginara pelo retrato que dele me fizera seu filho: grande,
bom e digno.
Acolheu Armando com lgrimas de ventura e apertou-me
afectuosamente a mo. Logo percebi que o sentimento paternal
era o que dominava todos os outros no recebedor.
Sua filha, chamada Branca, tinha esta transparncia do olhar,
esta serenidade da boca que prova que no brotam da alma seno
santos pensamentos e que os lbios apenas dizem piedosas
palavras. Sorria-se ao ver voltar seu irmo, ignorando, essa
casta menina, que longe dela uma pobre mulher sacrificara a
sua felicidade  simples invocao do seu nome.
Estive algum tempo com essa famlia feliz, toda entregue
quele que levava a convalescena do seu corao.
Voltei para Paris onde escrevi esta histria como me fora
contada. Tem apenas um merecimento: o de ser verdadeira.
No tiro desta narrativa a concluso de que todas as mulheres
perdidas como Margarida so capazes de fazer o que ela fez;
longe disso; mas tive conhecimento de que uma delas sentira na
sua vida um amor srio, que por ele sofrera e por ele morrera.
Contei ao leitor o que sabia. Era um dever.

o AUToR E A SUA oBRA

Alexandre Dumas (Filho), nasceu em Paris em 21 de Julho de
1824 e morreu em Marly-le-Roy em 21 de Novembro de 1895. Filho
natural de Alexandre Dumas, sofreu, na juventude, a sua falsa
posio na sociedade, ao que reagiu aturdindo-se numa vida
dissoluta, "corageuse", como ele prprio a definiu. Mas o seu
fundo moralista intervinha por meio de uma autocrtica cada
vez mais peremptria. o prprio ttulo do seu primeiro e nico
livro de versos acusa esta atitude: Pecados da Juventude
(Pchs de Jeunesse). por outro lado, estes anos de dura
experincia deveriam influir na sua futura atitude de
apostolado moral, mas sobretudo acenderiam a chama da sua
inspirao potica. Aos 24 anos A Dama das Camlias (La Dame
aux Camlias. 1848), de fundo nitidamente autobiogrfico,
trouxe-lhe de sbito a celebridade. Contra as opinies
contrrias dos crticos e as hesitaes das actrizes
convidadas para desempenharem o papel da protagonista, o A.
insistiu em fazer representar a pea: o xito foi
extraordinrio (1852) e repetiu-se em todos os teatros
europeus. Depois de Diana de Lys, em que as intenes no se
evidenciam to claramente, todas as suas obras propem uma
tese moral claramente explcita. o moralista sobrepor-se- ao

artista, impondo uma didctica mais que bvia, dilogos
suprfluos e retricos, introduzindo a personagem do
"raisonneur". Como se tal inteno no bastasse, os prefcios,
quase sempre polmicos, reforavam as teses expostas nas
pecas. Por sorte, Dumas tinha o gnio do teatro e s a ele,
nunca ao seu evangelho laico, deve o triunfo que subsiste nos
nossos dias. Em cerca de quarenta anos de actividade teatral
escreveu, alm das obras j citadas, A Sociedade Equvoca
(Le Demi-Monde, 1855), Questo de Dinheiro (La Question
d'Argent, o Filho Natural (Le Fils Naturel, 1858), o
Pai Prdigo (Le Pre Prodigue, 1859), o Amigo das Mulheres
(L'Ami des Femmes, ), As Ideias da Senhora Au ray (Les
Ides da Mme. Aubray, 18bz), Uma Visita de Npcias (Une Visite
de Noces, ), A Princesa Georges (La Princesse Georges,
, A Mulher de Cludio (La Femme de Claude) o Senhor
Afonso (Monsieur Alphonse), A Estrangeira (L'Etrangre,
18zb), A Princesa de Bagdad (La Princesse de Bagdad, 1881),
Dionsia (Denise, 1885), Francillon ( 188z) .
Deixou incompletas as peas: A Perturl adora (La Troub1ante) e
A Estrada de Tehas (La Route de Thbes). Alexandre Dumas
escreveu ainda sobre assuntos da actualidade: o Homem-Mulher
(L'Homme-Femme, 1812), o Problema do Divrcio (La Question du
Divorce, 1880), A Investigao da Paternidade (La Recherche de
la Paternit. 1883)

